*Professor Coordenador Jubilado do Instituto Politécnico de Portalegre
O meu tempo, hoje, fora do campo académico, começa a ser menos de Investigação (formal e/ou institucional) e a ser mais de Reflexão.
A história cultural que cada um de nós transporta durante o seu tempo de vida, que se espera e deseja sempre mais longínqua, permite-nos ocupar um espaço privilegiado: o do observador-participante, empírico, crítico e afectivo. Falamos e escrevemos com menor incidência sobre a cientificidade da coisa pública, mas em contrapartida envolvemo-nos com afecto e pertinência sobre ela, tornando-nos críticos e ávidos de mudança. Queremos sempre o melhor para amanhã, recusando o comodismo e o conformismo, porque estes são sinónimo de morte lenta quando se começa a entrar vertiginosamente na idade. Queremos sempre o melhor para os outros, porque em consciência durante a vida activa pensámos sempre muito mais em nós e nos nossos. Deixámos que muitas coisas passassem ao nosso lado, pelo ritmo de vida, pela ambição e pela competição. Íamos paulatinamente perdendo algumas oportunidades e emergências de afirmação individual e colectiva.
Pensamos hoje sobretudo naqueles que são já o futuro, os mais jovens. Que têm a legitimidade e o direito de ter vidas melhores. Pensamos na sociedade ameaçada por retrocessos que podem contribuir para eliminarem as conquistas e os direitos adquiridos ao longo de gerações e gerações. Pensamos numa civilização!
Por tudo isto, no Dia Mundial do Teatro, Março de 2015, não perco a oportunidade de fazer uma abordagem predominantemente reflexiva.
Nestes últimos anos, no activo como professor e investigador no ensino superior, debrucei-me bastante sobre estes temas. Fi-lo desde a minha tese de doutoramento até aos mais diversificados textos que tornei públicos em congressos, encontros, simpósios, etc. Fi-lo com a convicção de que a Educação, a Arte e a Cultura deveriam estar predominantemente ao serviço das comunidades, das pessoas, realçando a ideia na insistência de uma dialéctica entre aqueles objectos e as pessoas. E para isso acontecer deveria estruturar-se sempre a montante: nas famílias, nas escolas, nas associações, nas organizações institucionais, mas também no quadro político com responsabilidades, o poder (central e local) e os partidos.
Ao convocar, aqui e agora, a dimensão estrutural das obrigações da sociedade para com os cidadãos e destes para com a sociedade, é meu intuito reforçar a importância do sucesso ou do fracasso da política na sua génese menos literária e de mais acção: as políticas públicas! No que diz respeito em particular às políticas culturais não deixa de ser interessante esta preocupação, que continua muito actual, de um ministro da cultura em França, falando num congresso internacional sobre cultura em 1972, citado por Urfalino, P (2004, p. 273): “Une action d’ordre culturel est clairement celle qui permet à chaque individu de développer sa capacite de se situer soi-même dans son temps et dans son monde, de juger, de choisir, de s’exprimer et de communiquer, de renouver avec son patrimoine tout en accédant à celui de l’humanité”.
É com o trabalho na polis que as sociedades e/ou os grupos se (re)encontram e se (re)organizam, fazendo por configurar modelos que devem respeitar a dignidade humana, reivindicando para isso aspectos emergentes articulados entre os interesses e as necessidades permanentes dos indivíduos.
Tudo isto tem naturalmente um suporte axiológico que não pode ser ignorado e que determina o processo evolutivo do ser humano, obrigando-o a convocar permanentemente compromissos dirigidos a uma sociedade mais humana, justa e solidária.
Um elemento privilegiado que contribui para o estabelecimento dos equilíbrios societais é, sem dúvida, do meu ponto de vista, a Arte! Esta é por natureza a emoção e a razão de um saber fazer sentido e de um sentir para criar, traduzidos pela acção, pela estética e pela expressão! Afinal um aqui e agora que emerge de um passado assente na história pessoal (individual e colectiva), da experiência e da cultura. É este passado que ajuda a estruturar novos caminhos: o presente e o futuro! Walter Benjamin 1992, p.157 diz que “Um dos aspectos mais surpreendentes da alma humana é que ao lado de tanto egoísmo no pormenor, o presente, em geral, não tenha qualquer inveja do seu futuro.”
Por esta circunstância, do presente e do futuro, as linhas de saída que permitem perfilar estratégias e conteúdos no desenvolvimento pessoal e social devem estar em consonância com a democracia e com a liberdade. Só a vontade de cada um e de todos determina os processos para uma participação activa. Esta só se exerce com e em liberdade, afirmando o exercício da cidadania autêntica e a plena capacidade para a decisão do que é importante para a Comunidade. Só a participação tem a força capaz de enfrentar as adversidades, por isso Marilena Chaui 2001, p.188 diz que “O direito à participação nas decisões de política cultural é o direito dos cidadãos de intervir na definição de directrizes culturais e dos orçamentos públicos, a fim de garantir tanto o acesso como a produção de cultura pelos cidadãos.”
Este processo, o da participação, confrontado com a diversidade de opções, canaliza as pessoas para as áreas que pensam poder preencher os interesses e as necessidades individuais e colectivas. Assim, entre outras áreas, surge o Teatro como espaço de redescoberta de emoções, como território de acção, como finalidade de aprendizagens e como abordagem ao conhecimento.
((Continua)
