Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala
Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]
Uma colecção de artigos de Onubre Einz.
IV – O CRESCIMENTO ALEMÃO DINAMIZADO PELAS EXPORTAÇÕES EM QUE AS RAZÕES PARA A PROCURA DE MAIOR COMPETITIVIDADE VALEM TUDO
Onubre Einz, La croissance allemande par les exportations où les raisons de la recherche de la compétitivité à tout prix
Criseusa.blog.lemonde.fr., 08 mai 2013
– O crescimento alemão dinamizado pelas exportações em que as razões para a procura de maior competitividade valem tudo
Com este texto iniciamos uma pequena série de artigos sobre o contributo do comércio externo para o crescimento alemão. Este texto é apresentado num blog dedicado à crise americana, porque a Alemanha apresenta — aparentemente — um contraste interessante com os Estados Unidos.
Os EUA construíram a sua economia na base dos desequilíbrios externos que eram parte integrante do seu modelo de crescimento. Os défices da balança de pagamentos eram compensados pelo saldo dos fluxos financeiros, fluxos estes que cobriam a balança de pagamentos, permitindo à política monetária actuar sobre as taxas de juro sem que a hegemonia do dólar ficasse ameaçada. Os bens importados mais baratos conseguiram com que se tolerasse que a percentagem do valor acrescentado seja cada vez mais desfavorável para 80% das famílias americanas. O crescimento no valor dos patrimónios dos bens móveis e imóveis mantinha uma euforia consumista e um consumo fortemente acelerado pelo crédito. Não importa que a indústria americana se estivesse a afundar, todo o resto da economia prosperava com o endividamento sem que os americanos tomassem conhecimento do caracter artificial e dependente do seu acrescimento. A crise recordou aos americanos o que são as duras realidades da economia.
Em comparação, a Alemanha virtuosa parecia estar bem longe dos excessos americanos. Já anteriormente tentámos mostrar que a oposição entre o modelo americano de crescimento e o modelo alemão não era tão simples quanto isso. Existem desde as reformas Schröder várias semelhanças entre o crescimento alemão e o americano, que sugerem que a marcha triunfal da Alemanha talvez não seja tão brilhante como parece à primeira vista. Formulámos a hipótese de que a tendência para o declínio mostrou já o seu nariz e que esta tendência foi suspensa pela crise. A Alemanha dos primeiros anos do milénio provou ser, no mínimo, um tanto ambígua. Não merece ser colocada num pedestal de onde ressoa a voz do comandante. E não devemos vê-la como sendo o modelo de todas as virtudes. A Alemanha merece que se faça uma análise crítica, evitando os perigos do excesso de honra ou de indignidade.
Prosseguimos pois com o nosso pequeno inquérito tendo em conta, desta vez, as exportações. A Alemanha é de facto apresentada como o país exportador por excelência. Entre os países desenvolvidos, é, sem dúvida, um dos países desenvolvidos que soube melhor estimular o seu crescimento nacional através das exportações.
As exportações massivas do país e os seus excedentes comerciais são disso um verdadeiro testemunho: a Alemanha, é o anti-modelo americano; o crescimento não resulta de uma substituição de produção — pela redução de importações — que leve à queda da taxa de investimento e a alterar a divisão da riqueza em prol dos mais ricos. O crescimento alemão está assente directamente nas exportações.
Este crescimento alemão interessa-nos porque ele é apresentado como a solução para a crise para os países ricos em dificuldade. Com os seus produtos de forte valor acrescentado, a qualidade dos seus produtos de luxo e os seus bens de equipamento, a Alemanha parece convidar o mundo inteiro à superação da crise pelo investimento, pela investigação, pela inovação, pela formação e pelo esforço. Não está já ela a atingir a via do futuro? A saída de crise não pode resultar senão de exportações dinâmicas que permitem arrancar com o crescimento, é com isto que os media e os políticos nos saturam os ouvidos. A Alemanha tende, por conseguinte, a tornar-se o modelo a copiar, um facto de existência tanto quanto é uma realidade ideológica por si só.
O exame grosseiro dos valores brutos do comércio alemão parece validar este discurso com que as nossas “elites” nos martelam os ouvidos e de todos as maneiras possíveis. A economia alemã fixa o novo objectivo: exportar, é a nova lei dos profetas.
Mas e quanto à análise específica dos dados que não tem nada de ideológico e à validade do modelo?
Para responder a esta questão, tomamos como fonte de dados as séries estatísticas do Bundesbank sobre o comércio da Alemanha (Makroökonomische Zeitreihen ou Macro-economic time series) [i]. Para a nossa análise basta-nos a rúbrica sector externo (Aussenwirtschaft) e seleccionar a balança de pagamentos (Zahlungsbilanz) para dispor de dados essenciais por continentes, regiões, países ou grupos de países.
Contentar-nos-emos neste primeiro artigo em examinar os dados gerais do comércio exterior da Alemanha, examinando o seu peso no crescimento, para nesta primeira parte esclarecer algumas ideias exageradas sobre a eficácia alemã e questionar a tese errada de uma perda de competitividade na Alemanha que viria assim justificar as reformas de Schroeder. Pode explicar-se esta orientação do crescimento por outras razões. Ver-se-á também que este crescimento foi sustentado pelos desequilíbrios crescentes do comércio alemão com a Europa.
Num segundo documento de trabalho, examinaremos mais detalhadamente os resultados das exportações da Alemanha. É que a Alemanha parece ir contra a palavra de ordem de “Cluster”. À sua expressão “Vá para o oeste”, ela prefere um “Ir para leste”, sobre o qual não se sabe ainda muito bem se não terminará em “Little Big Horn”[1]. Ainda aqui, o país exótico, caro a madame Staël, revela-se cheio de surpresas.
Antes de proceder à análise dos dados, devemos explicar o período escolhido. As estatísticas do Bundesbank levantam um problema de fundo. O Bundesbank define a sua série histórica em duas unidades monetárias: ECU antes de 1999, o euro depois. As séries estatísticas da Deutsche Statistik (DESTATIS) utilizam, quanto a elas, o euro para calcular o PIB da Alemanha com efeitos retroactivos até 1991. Assim, limitamos a nossa análise ao período 1999-2012 em que o cálculo em euros é partilhado entre o Bundesbank e o DESTATIS. Esta é a única maneira de medir o peso das exportações no crescimento alemão.
Essa restrição não é muito grave, retomaremos os dados económicos por regiões remontando a 1992 no nosso próximo texto. A nossa análise não terá em conta aqui senão continentes. As análises detalhadas — que não deixarão de questionar algumas ideias feitas — serão objecto de análise no nosso próximo texto.
Concentrámos a nossa análise no comércio exterior da Alemanha, porque a base de poder alemão continua a ser a sua indústria. A Alemanha ao fim de 20 anos equilibrou a sua balança dos serviços, durante muito tempo deficitária, mas esta desempenha apenas um papel muito secundário no seu comércio externo, os rendimentos dos capitais (juros, lucros, dividendos) são excedentários sem terem também eles um peso considerável. É por conseguinte o comércio das mercadorias físicas que desempenha o papel fundamental no crescimento alemão. Faremos intervir a balança dos pagamentos para de uma vez por todas mostrar que está errada a tese de que a Alemanha estava muito enfraquecida nos tempos de Schroeder e que, por isso, teria necessidade urgente de reformas profundas.
(continua)
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[1] Nota de Tradução. Segundo a Wikipedia: A batalha de Little Bighorn aconteceu em 25 de junho de 1876, no ano do Centenário da Independência dos Estados Unidos da América, nas proximidades do rio Little Bighorn (afluente do Bighorn, por sua vez um afluente do Yellowstone), no estado de Montana. Ela opôs o sétimo regimento de cavalaria do exército dos Estados Unidos da América do famoso General Custer a uma coalizão de Cheyennes e de Sioux, unidos sob a influência dos também famosos líderes indígenas Touro Sentado (Sitting Bull) e Cavalo Louco (Crazy Horse).
A batalha foi o mais famoso incidente das Guerras indígenas nos Estados Unidos e resultou na vitória dos Lakotas, dos Cheyennes do Norte e doa Arapaho, que aniquilaram um destacamento da cavalaria norte-americana comandado pelo general Custer. Foi a maior derrota do exército americano durante as chamadas Guerras Indígenas.
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