
PRIMEIRO ACTO
A cena representa principalmente um calendário de parede onde se lê em letras gordas: Fevereiro. 25. Domingo. Ao subir o pano o Honrado Chefe de Família passeia agitadamente com as mãos atrás da barriga[1]. Conversa com os seus botões, que são de vários tamanhos e diversas substâncias[2].
CENA I
O HONRADO CHEFE DE FAMÍLIA E OS SEUS BOTÕES
O honrado chefe – Isto é horrível! Não sei onde iremos parar…
O botão do colete – É verdade!
O honrado chefe – De dia para dia tudo aumenta. Acabo de ler nos jornais que quem queira embarcar para o Brasil em primeira classe tem de pagar um novo imposto de quinhentos escudos por caveira. Que hei de eu fazer à minha vida?
O botão das calças – Pois sim, mas como tu não tencionas ir ao Brasil…
O honrado chefe – É verdade! Tens razão. Não tenho nada com isso… Mas a electricidade, que vai custar o dobro?…
O botão dos suspensórios – Não acendas a luz. Deita-te ao lusco-fusco, com as galinhas…
O honrado chefe – Como me hei de eu deitar com galinhas, se por um frango do tamanho dum canário pediram ontem à minha esposa extremosa nada menos de sete escudos?
O botão do casaco velho – Então deita-te às Avé-Marias e com a tua esposa extremosa…
O honrado chefe – É uma boa ideia! Não há nada como cada um conversar com os seus botões. (De súbito) E o resto? O macarronete que aumentou este mês dois escudos em grama, o chouriço que está a cinquenta mil reis o metro, a carne de vaca que atingiu em quilo o preço do boi em tamanho natural, a água que já está a sessenta centavos, o leite, os ovos cuja mão de obra cada dia cresce?…
Os botões – (Coçando a cabeça) Sim, realmente, não sabemos onde tudo isto irá parar.
(continua)
25 de Fevereiro de 1923
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