A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – V – SERÁ A ALEMANHA O MODELO PARA UMA SAÍDA DA CRISE ATRAVÉS DAS EXPORTAÇÕES: UMA ANÁLISE DESMISTIFICADORA – por ONUBRE EINZ – 2

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota 

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A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala

Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]

Uma colecção de artigos de Onubre Einz.

V – Será a Alemanha  o modelo para uma saída da crise através das exportações: uma análise desmistificadora.

 Onubre Einz, L’Allemagne est-elle le modèle d’une sortie de crise par les exportations: Une analyse démythificatrice 

Criseusa.blog.lemonde.fr., 23 de Maio de 2013

(continuação)

A – Os dados gerais por continentes

Onubre Einz - XXXII

Os dados gerais do comércio alemão mostram que a maior parte dos excedentes comerciais alemães são ainda com a Europa. A contracção destes excedentes na década de 1990 levou a Alemanha a fazer as reformas da agenda 2000. A balança comercial deste país com a Europa mudou assim de trajectória com estas reformas e os saldos passaram para níveis muito elevados e a atingirem os valores, altos, de antes da reunificação. A crise retomou os efeitos positivos da recuperação começada em 2001. Esta melhoria de comportamento será discutida em maior profundidade quando discutirmos o comércio da Alemanha com a Europa (veja abaixo B 3.° e 4.°). A melhoria de comportamento dos anos 2000 na verdade coloca o problema da natureza da operação que levou à contracção dos custos laborais que impulsionaram as exportações alemãs e se o declínio na década de 1990 teria sido o de um reequilíbrio. É colocar a questão da política de Schröder em termos críticos sobre a qual afirmámos que ela não corresponde a nenhum enfraquecimento real sensível da Alemanha durante o primeiro mandato de Schröder.

A análise da balança comercial reflecte o papel marginal de dois continentes: a África e a Oceânia. Não é com eles que a Alemanha poderá obter excedentes comerciais importantes. A balança comercial da Alemanha aumenta com estes dois continentes desde o início do século XXI embora sem que este crescimento seja significativo no comércio total da Alemanha.

A América e a Ásia são dois continentes que desempenham um papel motor. A balança comercial com a América teve uma tendência de expansão até 2002, a contracção deste saldo é sensível em seguida e até à crise; é em 2011 que a balança comercial com a Americana aumenta novamente devido ao colapso concomitante da balança comercial com a Europa. A balança comercial com a Ásia indica uma vontade alemã antiga de corrigir os desequilíbrios comerciais com este continente. Esta correcção conheceu antes e depois de 2000 desenvolvimentos muito aleatórios. A tendência para a estabilização do défice começou a aparecer depois e manteve-se ao longo dos anos de 1990-2010. É difícil avaliar a passagem para uma situação de excedente da balança comercial com a Ásia desde o final de 2011. Isto só reflecte pontualmente a contracção na actividade da Alemanha que pesou nas importações, devido à crise europeia. Pode-se também ver no papel crescente da balança comercial com o continente americano um efeito da política artificial de retoma de crédito pela Administração Obama.

Se fizermos uma correlação entre as reformas de Schroeder e os resultados da economia alemã parece que não há nenhuma correlação clara que possa ser feita pelo menos até a crise, com excepção da Europa. As mudanças no equilíbrio da balança comercial são aleatórias com a Ásia e com a América nos anos que antecederam a crise, desempenhos menos satisfatórios são mesmo registados com o continente americano.

Onubre Einz - XXXIII

Se a balança comercial constitui um elemento do enriquecimento líquido de um país, desde que esse saldo seja, é claro, positivo, as exportações determinam a capacidade de um país em aumentar o seu nível de riqueza material através da importação de mercadorias, uma vez assegurada a cobertura do valor destas pelas suas exportações. É assim que os povos tiram vantagens do comércio internacional, especializando-se como mostrou Ricardo, no século XIX.

Este gráfico permite avaliar o peso esmagador da Europa como destino das exportações alemãs. Os anos de 1990 também são marcados por um ligeiro (e muito pouco perturbador) declínio das exportações em direcção ao continente europeu. Mas a tendência é rapidamente corrigida na década de 2000 pela razão que sabemos. Por causa da crise, o peso de uma Europa em plena crise só pode diminuir.

Observa-se novamente o papel marginal e quase constante da África e da Oceânia.

O esforço para desenvolver o comércio com a Ásia parece conhecer um verdadeiro sucesso, sucesso tanto mais notável quanto a balança comercial se tornou recentemente excedentária. Uma análise mais precisa não deixará de sublinhar que o nível alcançado hoje é ligeiramente superior ao que foi alcançado na segunda parte da década de 1990. Não deve ser sobrestimado mas é, mesmo assim, notável.

Vejamos ainda a quota das exportações para a América. Essas exportações têm estado a perder importância relativa.

Onubre Einz - XXXIV

Em última análise, a crise indica a queda das exportações alemãs para a Europa e uma transferência para o continente americano e asiático para sustentar o crescimento, enquanto o oposto era verdade antes da crise. A maior parte da progressão do crescimento da Alemanha era conseguido com a Europa, enquanto os continentes americano e asiático viam as suas dinâmicas mais fracas cavarem um enorme delta com a Europa.

Onubre Einz - XXXV

Esta constatação é de facto repetida ao analisar-se a balança comercial da Alemanha. A Europa, após a afirmação do período 2001-2007, perde o seu papel de motor a favor das trocas comerciais com a Ásia e o continente americano. Se em termos de financiamento das importações, o delta com a Europa continua elevado, quando se consideram as exportações este reduz‑se fortemente com o saldo da balança comercial.

É isto que pode justificar que a Alemanha sirva de modelo na Europa: será que ela não consegue alcançar o facto notável de se expandir comercialmente no mercado asiático e no mercado americano, enquanto a Europa está em crise? Será que ela não consegue excedentes comerciais com todos os continentes do mundo, incluindo a Ásia?

Concebe-se bem que a Alemanha possa ser vista assim e servir de exemplo para todo o continente europeu. Sair da crise consistiria em apertar o cinto, moderar os apetites salariais e a despesa pública para reencontrar o crescimento. Basta simplesmente examinar os resultados do desempenho alemão para conhecermos a realidade. Ora, os dois últimos gráficos confirmam o que dissemos anteriormente: a evolução contrária à da Europa. As exportações alemãs para fora da Europa e o equilíbrio da balança comercial não foram impulsionadas significativamente pelas reformas Schroeder. Foi necessário a crise chegar para que estas melhorassem fortemente para a Ásia e em muito menor grau para a América; curiosamente é então sob Merkel que as reformas Schröder e os seus efeitos profundamente inigualitários assim como o seu papel na evolução da competitividade do país foram suavizadas. O apelo a apertar o cinto veio depois.

Aliás, esta forte melhoria é tanto mais meritória quanto o euro conserva um valor elevado num mundo em que as desvalorizações das outras moedas (iene e dólares) são correntes. Se somos críticos de uma certa mitificação da Alemanha, devemos, mesmo assim, reconhecer os seus resultados, o seu desempenho, desde que este não seja sobrestimado.

(continua)

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[1] O título dado à  colecção é da responsabilidade do tradutor.

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Ver o original em:

http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/05/23/lallemagne-est-elle-le-modele-dune-sortie-de-crise-par-les-exportations-une-analyse-demythificatrice/

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Para ler a Parte 1 de Será a Alemanha  o modelo para uma saída da crise através das exportações: uma análise desmistificadora, de Onubre Einz, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – V – SERÁ A ALEMANHA O MODELO PARA UMA SAÍDA DA CRISE ATRAVÉS DAS EXPORTAÇÕES: UMA ANÁLISE DESMISTIFICADORA – por ONUBRE EINZ – 1

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