A IDEIA – A irmandade Pré-Rafaelita: o Triunfo da Estética sobre a Técnica – por Carla Ferreira de Castro

 

Entre Setembro de 2012 e Janeiro de 2013, a Tate Britain dedicou uma exposição ao movimento conhecido como PRB (Pre-Raphaelite Brotherhood) intitulada “Pre-Raphaelites: Victorian Avant-Garde”. No texto de introdução ao catálogo acerca da confraria, ou irmandade, criada em Londres, em 1843, por John Everett Millais, William Holman e Dante Gabriel Rossetti, pode ler-se o seguinte (http://www.tate.org.uk/whats-on/tate-britain/exhibition/pre-raphaelites-victorian-avant-garde; consulta em 28-1-2013): Combining rebellion, beauty, scientific precision and imaginative grandeur, the Pre-Raphaelites constitute Britain’s first modern art movement. This exhibition brings together over 150 works in different media, including painting, sculpture, photography and the applied arts, revealing the Pre-Raphaelites to be advanced in their approach to every genre. Led by Dante Gabriel RossettiWilliam Holman Hunt and John Everett Millais, the Pre-Raphaelite Brotherhood (PRB) rebelled against the art establishment of the mid-nineteenth century, taking inspiration from early Renaissance painting.

Este parágrafo sintetiza a originalidade dos “PRB”, como escolheram ser conhecidos, após um período inicial em que existiram enquanto sociedade secreta, e aponta para a sua singularidade no centro de uma cidade refém do avanço tecnológico, em que a vida artística consistia em denunciar as misérias da sociedade industrial. Após 1850, com a publicação da revista The Germ, que editou quatro números entre Janeiro e Abril desse ano, a sociedade/ irmandade/ confraria perde em definitivo o seu cariz secreto. Achando que o número ideal de elementos para formar uma irmandade revolucionária seria sete, Millais, Rossetti e Hunt recrutam para a causa James Collinson, pintor, o escultor Thomas Woolner, William Michael Rossetti e Frederic George Stephens, que não eram artistas praticantes. Para além destes sete membros iniciais, convém referir Walter Howell Deverell e Charles Collins que adoptaram os ideais da PRB, embora não tenham sido formalmente designados como membros.

O nome PRB surge de forma assumida quando, poucos anos após o nascimento da irmandade, se promovem em 1849, em Londres, duas exposições Pré-Rafaelitas – na Institution of Free Exhibition of Modern Art e na Royal Academy – em que as obras estavam assinadas com o nome do pintor seguido da sigla PRB. Na Free Exhibition as obras, ao contrário do que sucedida com a Royal Academy, não estavam sujeitas ao crivo de um júri, motivo que pautou a decisão de Dante G. Rossetti de enviar a sua obra, The Girlhood of Mary Virgin, para a Free Exhibition. Estas primeiras exposições, apesar de não terem recolhido grande entusiasmo, não suscitaram especial interesse ou controvérsia. Porém, em 1850, após os quatro números da revista The Germ, o movimento já era conhecido e ambas as exposições (de novo na Royal Academy e na Free Exhibition) constituíram o primeiro grito revolucionário do grupo, tendo sido acolhidas como um escândalo em termos estéticos e éticos. A crítica reagiu de forma contundente às obras onde se incluíam óleos de Rossetti (Ecce Ancilla Domini), Hunt (A Converted British Family Sheltering a Christian Priest from the Persecution of the Druids),  Millais (Christ in the House of His Parents, obra fortemente criticada por Charles Dickens) e Deverell (Twelfth Night), entre outros. As críticas foram de tal forma devastadoras que, no rescaldo das exposições, Collinson saiu da Irmandade e Rossetti tomou a decisão de não voltar a exibir as suas obras publicamente. Posteriormente, Rossetti viria a influenciar Edward Burne-Jones e William Morris, fundadores do Movimento Arts & Crafts, e graças às suas representações pictóricas de figuras femininas impulsionou um novo movimento estético, o da Arte pela Arte. Já Millais e Hunt não se deixaram abater pelas críticas e continuaram a expor de acordo com os preceitos da Irmandade tendo, no meio de tantas críticas demolidoras, a ajuda de John Ruskin, que publicou duas cartas no The Times em que saudava a PRB pelo seu retorno a uma arte italiana anterior a Rafael. Contudo, os dias da Irmandade estavam próximo do fim. Em 1852 Wooler emigra para a Austrália e, em Janeiro de 1854, Hunt decide partir para a Terra Santa para aperfeiçoar a sua técnica de imagens religiosas. O corte definitivo, apontado por Rossetti como o momento formal do óbito da PRB, dá-se quando, em 1853, Millais é eleito como membro da Royal Academy, juntando-se ao outro lado das trincheiras, ao establishment que o movimento sempre procurara combater.

A inovação que os Pré-Rafaelitas trouxeram situa-se ao nível da atitude estética, na forma como, não rejeitando a inovação – prova disso é o gosto pela fotografia no despontar da sua existência –, se conseguiram insurgir contra os modelos académicos vigentes. Apesar de estarem atentos à sociedade da época, opuseram-se ao establishment, em particular à arte vitoriana, extremamente presa a um academismo que determinava o traço e impunha regras muito limitativas no que concerne às artes plásticas e à literatura. Em oposição a estas normas rígidas do traço, das formas e das palavras, os Pré-Rafaelitas privilegiaram a estética, professando uma arte mais natural, real e espontânea que agregasse elementos da sua modernidade, em consonância com os paradigmas defendidos por Matthew Arnold e John Ruskin, e incorporando o pendor estético de William Blake, poeta, mas também artesão, que acompanhava os seus poemas com ilustrações que transmitiam a liberdade da norma, com a criação de símbolos próprios, e de John Keats ou Robert Browning. Atentos à sociedade da época e aos avanços da ciência, acabaram por integrar nas suas obras a relação tumultuosa que tinham com a técnica, nunca descurando o pendor estético, apenas repudiando normas que eram impostas, defendendo uma arte livre, em estado bruto, em que o trabalho do artesão, despojado de artificialismos, era recuperado em detrimento das técnicas mecânicas.

Como o nome indica, os Pré-Rafaelitas defendiam um retorno à arte antes de Rafael (1483-1520) que influenciou a academia na época vitoriana, um regresso ao Quattrocento italiano e à arte flamenga, com um gosto pelos pormenores realistas, as descrições aturadas do quotidiano e o uso da cor luminosa e vibrante, na pintura, em oposição aos tons suaves instituídos e às técnicas de sombreamento, profundidade e perspectiva defendidas pela academia inglesa, na sua adopção do modelo clássico. A PRB opunha-se a esta norma por considerar que relegava para um plano marginal elementos periféricos, igualmente importantes na compreensão do todo. Tal como na arte flamenga, o homem não é o elemento primordial, apenas se torna parte de um universo maior, onde cada elemento é meticulosamente retratado como parte de um todo, adquirindo por vezes um carácter simbólico. O mote dos Pré-Rafaelitas, quer nas artes plásticas, quer na literatura, centrava-se no ser “truth to nature”, na tentativa de resgatar a pureza da arte e do indivíduo, combinando, de acordo com as palavras do catálogo da Tate, rebelião, beleza, precisão científica e grandeza imaginativa. Muitos dos motivos recorrentes prendiam-se com motivos bíblicos, mitológicos ou inspirados por personagens literárias. Refira-se, a título de exemplo da temática literária, Ophelia, o óleo sobre tela de Millais (executado entre 1851 e 1852), que ilustra a personagem de Hamlet, de William Shakespeare, deitada, a cantar, no lago da Dinamarca antes de se afogar. Outro exemplo anterior (1849), igualmente de Millais, presente na primeira exposição da Royal Academy, é Isabella, criada a partir do poema homónimo de John Keats. Se na época a pintura de Millais foi recebida com duras críticas, hoje é reconhecida pelo pendor naturalista com que a paisagem é retratada, pelo realismo com que os trajes medievais são apresentados e pelas cores vibrantes. De notar que este aspecto cromático continua a ser um dos motivos de controvérsia nos detractores contemporâneos do movimento, que acusam os Pré-Rafaelitas de um uso exacerbado das cores nas suas composições pictóricas.

Apesar de ser um movimento com uma expressão temporal muito escassa, em parte ofuscado pelo impacto do Romantismo inglês, os Pré-Rafaelitas abalaram os alicerces da vida artística londrina. A anteriormente referida participação de Dante Rossetti no movimento da Arte pela Arte é fruto de uma matriz Pré-Rafaelita e desemboca nos ideais decadentistas e simbolistas de finais de século XIX, que por sua vez são a força impulsionadora do movimento surrealista. Num artigo, publicado originalmente no número 8 de Minotaure, em Junho de 1936, intitulado “O surrealismo espectral do eterno feminino pré-rafaelita”, Salvador Dalí aborda esta herança. No contexto português, quer a revista Arte, quer a Orpheu receberam ecos desta influência, a acreditar nas palavras de João Gaspar Simões, quando afirma (O mistério da poesia, Editorial Inova, Porto, 1971: 123): É nessa revista Arte, que podemos admirar a preponderância do gosto pré-rafaelita nas artes plásticas e decorativas. O mesmo Orpheu atesta ainda esse gosto, para não referirmos ao aparato gráfico das obras do próprio Sá-Carneiro.

O subtítulo da exposição de 2012/2013, The Victorian Avant-Garde, de alguma forma espelha esta vertente de rebelião e inovação contra a ortodoxia vigente na criação de um novo paradigma, essencialmente reconhecido pelo seu cariz pictórico, mas que convoca elementos literários na sua consecução. Em suma, a presença dos Pré-Rafaelitas assinala um marco essencial no longo caminho percorrido pela arte que se expressa a partir do triunfo da estética sobre a técnica.

fontes

Simões, João Gaspar: O mistério da poesia; Editorial Inova; Porto; 1971.

http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=390&Itemid=2 (consulta 28/1/2013)

http://www.tate.org.uk/whats-on/tate-britain/exhibition/pre-raphaelites-victorian-avant-garde (consulta 28/1/2013)

http://www.britannica.com/EBchecked/topic/474248/Pre-Raphaelite-Brotherhood (consulta 31/1/ 2013).

 

Carla Ferreira de Castro

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