A IDEIA – MÁRIO CESARINY – A CASA DA POESIA – por Fernando Botto Semedo

Imagem1Conheci pela primeira vez Mário Cesariny, aquando do regresso de casa da sobrinha-neta de António Botto, Isabel, em Alfama, tarde na noite, em 1983, Março. Vinha num autocarro da Carris, Lisboa, e, a dada altura, reconheci o Poeta de Pena Capital. Estava sentado. De imediato lhe perguntei se poderia viajar a seu lado. Espantado, disse-me que não me conhecia, ao que ripostei que o conhecia eu e encostei-me no banco, sem cerimónias, junto a ele. Cabe aqui dizer, que por essa época recuperava de um traumatismo craniano por atropelamento, quase mortal, e que mentalmente ainda se faziam sentir em mim os efeitos de ressaca, de uma extraordinária “viagem”, perigosíssima, mas audaciosa, no ácido lisérgico, em Sintra, com o fito no objectivo superior da Poesia, em Maio de 82. Trazia comigo um exemplar do Poetas e Trovadores, boletim de coisas de versos e autores, onde ao lado de António Botto, figurava um artigo de (ou sobre) Manuel Alegre. De imediato me disse, apontando para o nome dos dois: – Este (António Botto) era bom; o outro, acrescentou, não vale nada. – Perguntei-lhe, após abordar a questão da publicação de poesia, se publicar seria bom ou mau. Disse-me: – É bom e mau. – A dada altura, aquela figura que me parecia a de um velho, esgotado e doente, a pairar num lugar que já não semelhava ser noite, ou dia, ou qualquer lugar, disparou: – Parece-me que você há bocado disse que aspirava a ser importante. – Eu, que nunca lhe havia dito tal, respondi que me não estivesse a confundir com a linguagem dos pássaros. Após isto serenou, olhou para mim com outros olhos e afirmou: – Já me confidenciou que leu Pena Capital. Quando passar pela Assírio, deixe-a lá que eu autografo-a. – E escapuliu-se pela porta do autocarro, próximo talvez do Instituto de Oncologia. Deve morar por aqui, pensei. Mas onde? Na Casa da Poesia, certamente – o contrário da diarreia da poesia lírica, concluí.

FERNANDO BOTTO SEMEDO –  8 de Fevereiro de 2013

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