Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala
Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]
Uma colecção de artigos de Onubre Einz.
V – Será a Alemanha o modelo para uma saída da crise através das exportações: uma análise desmistificadora.
Onubre Einz, L’Allemagne est-elle le modèle d’une sortie de crise par les exportations: Une analyse démythificatrice
Criseusa.blog.lemonde.fr., 23 de Maio de 2013
(CONTINUAÇÃO)
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B – As performances alemãs por continentes
A análise das performances comerciais por subconjuntos geográficos continentais tende a enfraquecer significativamente a ideia de que a Alemanha encontrou na exportação um motor alternativo a um crescimento económico europeu em dificuldade.
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2.° A Ásia
a) Ásia e Médio Oriente
A tese que acabámos de expor pode parecer exagerada aos olhos dos observadores. Mas não estarão estes antes mal informados pelos meios de comunicação social, pela ideia que estes “vendem” sobre a Alemanha? Esta nossa tese é confirmada pelo comércio da Alemanha com a Ásia.
Pelo menos até à crise, o comércio da Alemanha com a Ásia mostra a ausência de uma penetração das exportações alemãs na parte mais dinâmica da Ásia (o que exclui o Médio Oriente, a azul). Desde meados dos anos de 1990, a parte mais dinâmica da Ásia ( a vermelho) não conhece um nítido progresso das exportações alemãs. É necessário esperar pelo final de 2009 para que as exportações alemãs iniciem uma tímida e incerta afirmação na Ásia propriamente dita. Por Ásia propriamente dita, entenda-se toda a Ásia menos o Médio Oriente.
O exame da balança comercial denuncia a miragem da Alemanha que brilhantemente teria tido êxito na Ásia. Os números são desanimadores. A Alemanha tem um défice comercial persistente com os países da Ásia propriamente dita. A redução deste défice é consecutiva à redução do ritmo de crescimento na zona euro que se reflecte num crescimento alemão enganador. O saldo da balança comercial da Alemanha só está parcialmente reequilibrado apenas com o Médio Oriente, região cuja riqueza tem largamente como base a renda petrolífera (ainda um ventre macio). A crise permitiu à Alemanha melhorar a sua balança comercial com a Ásia propriamente dita, beneficiando ao mesmo tempo de uma renovação positiva das suas trocas com o Médio Oriente.
b) A Ásia propriamente dita
Na Ásia propriamente dita, a tese que defendemos sobre o comércio alemão na América parece aqui não ser válida. Se a China é a região mais dinâmica da Ásia, isto não impede as exportações alemãs de progredirem muito fortemente e de maneira contínua desde o fim dos anos de 1990.
Pelo contrário, a Alemanha tende a ver a parte do Sudeste Asiático a recuar no seu comércio enquanto o Japão — em declínio económico relativo desde há vinte anos — exerce um papel motor cada vez mais fraco desde a viragem para o século XXI.
A situação do comércio alemão na Ásia parece totalmente ser o contrário da sua situação na América acima explicada.
Isto é apenas uma aparência. O saldo da balança comercial mostra que a Alemanha só conseguiu excedentes muito irregulares com a parte menos dinâmica da Ásia, o Sudeste Asiático (um ventre meio mole, um ventre macio). Para além disto, só conseguiu reduzir lentamente os seus défices comerciais com, por um lado, a China e, por outro lado, com o Japão, países que podem ser vistos como os ventre duros.
Para a China, esta correcção ainda em curso deve-se provavelmente ao abrandamento geral da actividade económica na Europa. Conforme mostra o final de 2012, esta redução do défice comercial é frágil; a correcção consecutiva depois da crise pode estar a substituir uma degradação contínua significativa desde 1992.
Para o Japão, a correcção está longe de ser concluída, mesmo que ela progrida regularmente.
Do ponto de vista da sua balança comercial, a Alemanha reencontra a sua situação americana. Ela não restabeleceu equilíbrios comerciais com a China, o país mais dinâmico da Ásia, ela não corrigiu estes desequilíbrios com o Japão e o seu desempenho no Sudeste Asiático, região em desenvolvimento, é pobre.
A imagem da Alemanha a penetrar nos mercados asiáticos sai bastante diminuída com o breve quadro que os dados do Bundesbank nos permitiu obter. No entanto esta região é o espaço mais dinâmico do crescimento mundial. É aí que o crescimento pelas exportações é concebível. A Alemanha pode traçar a via, mas de forma alguma se pode dizer que esteja realmente no caminho para um sucesso quando tudo indica que este é bem problemático. A China que se está a transformar num verdadeiro mercado nacional de produção e de consumo poderia lançar-se a (re)conquistar o seu mercado interno, a expulsar os estrangeiros e a cortar as vias de acesso, pela concorrência desenfreada, a todo o resto do mundo. Neste caso, a Alemanha tem tudo a perder e os países europeus que a seguem nada terão a ganhar. É infelizmente isso que se vai passar na próxima década …
(continua)
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[1] O título dado à colecção é da responsabilidade do tradutor.
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Ver o original em:
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