A recente publicação de Bonsoir, Madame (Língua Morta/Alexandria), de Manuel de Castro, recorda-nos um autor cuja obra revela um lastro de dispersão avulsa e marginal feita pública a expensas do mesmo, com tiragens limitadas que funcionavam como “dádivas à balda pelos cafés e tascas, publicidade nenhuma”, como a propósito das mesmas recordava Luiz Pacheco em número do jornal República de Outubro de 1972. Esta é só mais uma das manifestações da recusa, por parte da literatura surrealista, termo que uso com perdão da própria, de submeter-se à patranha do mercado da literatralha proliferante, assumindo-se como autêntica poesia underground que assume o discurso da marginalidade auto-proposta em tempos de transversal asfixia, a qual constitui uma oportunidade para devolver à compreensão a literatura como entidade ecossistémica, tal como a que nos propõe a teoria dos polissistemas desenvolvida por Even-Zohar, modelo interpretativo que define um sistema complexo de inter-relações, sublinhando o seu carácter dinâmico e heterogéneo e a mobilidade das noções de centro e de periferia, mediante a permanente tensão entre os diferentes estratos que o constituem.
Não podemos ignorar pois a invectiva de um Bernheimer, segundo o qual o olhar sobre o literário deveria estar activamente comprometido no estudo da formação e da redefinição do cânone, analisando a tensão entre estratos canonizados e estratos não canonizados, própria de qualquer sistema semiótico, questionando, desde logo, o locus de enunciação que determina o enquadramento sistemático, através dos mecanismos da sua legitimação institucional, da sua agenda. Considerando que a história é uma construção, segundo a concepção althusseriana da mesma, não como um dado, mas como um conceito, a Konstruktion benjaminiana, elaboração que sustém uma sua versão dominante, assente, como bem o souberam os surrealistas, em princípios de controlo das estruturas do poder e do privilégio epistémico, facilmente compreendemos que a canonicidade não é uma característica inerente aos textos, mas uma categoria determinada por uma institucionalidade ao serviço das forças culturais dominantes, cujos agentes veiculam o repertório, conjunto de normas e elementos que regulam a produção e a recepção dos textos, num quadrante cultural/histórico que procura conservar-se face às forças periféricas. Bourdieu, Dubois ou Schmidt, nesta linha, dão conta do facto de a delimitação de um corpus canónico depender de formas institucionais politizadas e ideologicamente determinadas, como instituições docentes, correntes teóricas e críticas e grupos sociais dominantes num determinado contexto histórico, como foram as que perfilhavam as perspectivas afins do neo-realismo, por um lado, e do presencismo, por outro, e mais tarde da Poesia 61 e mesmo de uma permanência de um silêncio eucaliptal de um regime ditatorial que nem uma arte oficial do mesmo regime consentia, outra forma discursiva que se faz obsidiantemente presente in absentia.
Contra o ruído das escaramuças na demanda de uma centralidade uniformizante, o Surrealismo repesca numa tradição da ruptura, tal como definida por Octavio Paz, o seu carácter fracturante e dissidente, que assentava desde logo numa revalorização do carácter mágico do verbo, do cratilismo nos termos da linguagem, na divergência técnica e numa inclinação anti-mimetista que proponham uma visão do artista como sujeito libertador das toxinas descentralizadoras que se não compreende em toda a sua dimensão à revelia das sementes do romantismo (e dos vectores iluministas que lhe subjazem), das correntes estetistas finisseculares e das vanguardas. Esta leitura anula, naturalmente, um historicismo unidirecional e teleológico, que afirma, ao modo oitocentista, a progressividade inerente à história, tal como criticada por Benjamin, e esse é um dos grandes méritos do Surrealismo, o qual assentou sempre numa concepção polifónica da temporalidade, que sublinha aquela variedade heterogénea das obras simultâneas que Jauss referia. Não é problema seu que os estudos literários não tenham evoluído no sentido da proliferação que um Paul K. Feyerabend defendia, conceito que indicia o pluralismo de paradigmas teóricos e sistemas metodológicos implicados numa investigação séria sobre a literatura, através de uma viragem e de uma multiplicação epistémica que na nossa elefantídea tacanhez não temos sabido implementar. Deu-se assim o famigerado caso do intento da morte do pai (assim o pretenderam) na diatribe de Cesariny contra Pessoa, numa leitura subsidiária e subalterna (o que é pior) de um Bloom que é uma das celebradas e canónicas vozes do centro que exerce o seu domínio também entre nós.
A leitura linear que a nossa Academia preconiza, engodada pela novidade cultivada pelo vanguardismo de Orpheu, cristalizou a imagem de um Surrealismo à portuguesa periférico, copista dos modelos franceses, naturalmente culpado da divergência relativa à ruminante bajulação do objecto publicitário predilecto da academia e do universo editorial portugueses, o Fernando Pessoa que essa mesma academia e esse mesmo universo, com as evidentes e meritórias excepções, construíram para seu próprio usufruto. Tal perspectiva, que os nossos produtores institucionais têm preservado, peca por uma dupla falta: metodológica, ao abolir a circunstancialidade da visão sistémica que Even-Zohar bem definiu; e de rigor científico, ao relevar do desconhecimento do que foi efectivamente a raiz do movimento surrealista, na sua dimensão sinóptica que os nossos mediadores culturais não conseguem, auto-centrados como estão, entender em profundidade. Como é sabido, as modalidades mercantis de mediação, canonizadoras e marginalizantes, são tendencialmente unívocas, unidirecionais, homogeneizantes. Não é de estranhar pois que neguem ou silenciem aquilo que não podem abarcar: a pluralidade, a heterogeneidade, a contradição, marcas fulcrais da expressão surrealista, que oscilou entre cosmopolitismo e etnografismo, entre modernidade e tradicionalismo, numa dessoutras enunciações de Cesariny que a nossa crítica (?) e a nossa academia (?) preferiram sempre emparelhar nas grelhas das intencionalidades que para as mesmas elas se inventaram, rasurando a eficácia e a assertividade das propostas do artista, recusando sequer verter o olhar no conteúdo que trazem à consideração. O repertório instrumental tradicional e costumeiro dos estudos literários, afinal ainda em voga entre a nossa crítica e a nossa academia, não obstante as inegáveis conquistas de determinados campos de estudo blasfemos porque ausentes de seriedade e de cientificidade filológicas, impotente para abarcar o que não é iminentemente rotular, espartilhado, unidimensional, encontram no Surrealismo, como em tantas outras expressões, um caso tabu cuja omissão resulta ou da ignorância ou da auto-legitimação dos percursos trilhados nos círculos cada vez mais
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MIGUEL FILIPE MOCHILA
A recente publicação de Bonsoir, Madame (Língua Morta/Alexandria), de Manuel de Castro, recorda-nos um autor cuja obra revela um lastro de dispersão avulsa e marginal feita pública a expensas do mesmo, com tiragens limitadas que funcionavam como “dádivas à balda pelos cafés e tascas, publicidade nenhuma”, como a propósito das mesmas recordava Luiz Pacheco em número do jornal República de Outubro de 1972. Esta é só mais uma das manifestações da recusa, por parte da literatura surrealista, termo que uso com perdão da própria, de submeter-se à patranha do mercado da literatralha proliferante, assumindo-se como autêntica poesia underground que assume o discurso da marginalidade auto-proposta em tempos de transversal asfixia, a qual constitui uma oportunidade para devolver à compreensão a literatura como entidade ecossistémica, tal como a que nos propõe a teoria dos polissistemas desenvolvida por Even-Zohar, modelo interpretativo que define um sistema complexo de inter-relações, sublinhando o seu carácter dinâmico e heterogéneo e a mobilidade das noções de centro e de periferia, mediante a permanente tensão entre os diferentes estratos que o constituem.
Não podemos ignorar pois a invectiva de um Bernheimer, segundo o qual o olhar sobre o literário deveria estar activamente comprometido no estudo da formação e da redefinição do cânone, analisando a tensão entre estratos canonizados e estratos não canonizados, própria de qualquer sistema semiótico, questionando, desde logo, o locus de enunciação que determina o enquadramento sistemático, através dos mecanismos da sua legitimação institucional, da sua agenda. Considerando que a história é uma construção, segundo a concepção althusseriana da mesma, não como um dado, mas como um conceito, a Konstruktion benjaminiana, elaboração que sustém uma sua versão dominante, assente, como bem o souberam os surrealistas, em princípios de controlo das estruturas do poder e do privilégio epistémico, facilmente compreendemos que a canonicidade não é uma característica inerente aos textos, mas uma categoria determinada por uma institucionalidade ao serviço das forças culturais dominantes, cujos agentes veiculam o repertório, conjunto de normas e elementos que regulam a produção e a recepção dos textos, num quadrante cultural/histórico que procura conservar-se face às forças periféricas. Bourdieu, Dubois ou Schmidt, nesta linha, dão conta do facto de a delimitação de um corpus canónico depender de formas institucionais politizadas e ideologicamente determinadas, como instituições docentes, correntes teóricas e críticas e grupos sociais dominantes num determinado contexto histórico, como foram as que perfilhavam as perspectivas afins do neo-realismo, por um lado, e do presencismo, por outro, e mais tarde da Poesia 61 e mesmo de uma permanência de um silêncio eucaliptal de um regime ditatorial que nem uma arte oficial do mesmo regime consentia, outra forma discursiva que se faz obsidiantemente presente in absentia.
Contra o ruído das escaramuças na demanda de uma centralidade uniformizante, o Surrealismo repesca numa tradição da ruptura, tal como definida por Octavio Paz, o seu carácter fracturante e dissidente, que assentava desde logo numa revalorização do carácter mágico do verbo, do cratilismo nos termos da linguagem, na divergência técnica e numa inclinação anti-mimetista que proponham uma visão do artista como sujeito libertador das toxinas descentralizadoras que se não compreende em toda a sua dimensão à revelia das sementes do romantismo (e dos vectores iluministas que lhe subjazem), das correntes estetistas finisseculares e das vanguardas. Esta leitura anula, naturalmente, um historicismo unidirecional e teleológico, que afirma, ao modo oitocentista, a progressividade inerente à história, tal como criticada por Benjamin, e esse é um dos grandes méritos do Surrealismo, o qual assentou sempre numa concepção polifónica da temporalidade, que sublinha aquela variedade heterogénea das obras simultâneas que Jauss referia. Não é problema seu que os estudos literários não tenham evoluído no sentido da proliferação que um Paul K. Feyerabend defendia, conceito que indicia o pluralismo de paradigmas teóricos e sistemas metodológicos implicados numa investigação séria sobre a literatura, através de uma viragem e de uma multiplicação epistémica que na nossa elefantídea tacanhez não temos sabido implementar. Deu-se assim o famigerado caso do intento da morte do pai (assim o pretenderam) na diatribe de Cesariny contra Pessoa, numa leitura subsidiária e subalterna (o que é pior) de um Bloom que é uma das celebradas e canónicas vozes do centro que exerce o seu domínio também entre nós.
A leitura linear que a nossa Academia preconiza, engodada pela novidade cultivada pelo vanguardismo de Orpheu, cristalizou a imagem de um Surrealismo à portuguesa periférico, copista dos modelos franceses, naturalmente culpado da divergência relativa à ruminante bajulação do objecto publicitário predilecto da academia e do universo editorial portugueses, o Fernando Pessoa que essa mesma academia e esse mesmo universo, com as evidentes e meritórias excepções, construíram para seu próprio usufruto. Tal perspectiva, que os nossos produtores institucionais têm preservado, peca por uma dupla falta: metodológica, ao abolir a circunstancialidade da visão sistémica que Even-Zohar bem definiu; e de rigor científico, ao relevar do desconhecimento do que foi efectivamente a raiz do movimento surrealista, na sua dimensão sinóptica que os nossos mediadores culturais não conseguem, auto-centrados como estão, entender em profundidade. Como é sabido, as modalidades mercantis de mediação, canonizadoras e marginalizantes, são tendencialmente unívocas, unidirecionais, homogeneizantes. Não é de estranhar pois que neguem ou silenciem aquilo que não podem abarcar: a pluralidade, a heterogeneidade, a contradição, marcas fulcrais da expressão surrealista, que oscilou entre cosmopolitismo e etnografismo, entre modernidade e tradicionalismo, numa dessoutras enunciações de Cesariny que a nossa crítica (?) e a nossa academia (?) preferiram sempre emparelhar nas grelhas das intencionalidades que para as mesmas elas se inventaram, rasurando a eficácia e a assertividade das propostas do artista, recusando sequer verter o olhar no conteúdo que trazem à consideração. O repertório instrumental tradicional e costumeiro dos estudos literários, afinal ainda em voga entre a nossa crítica e a nossa academia, não obstante as inegáveis conquistas de determinados campos de estudo blasfemos porque ausentes de seriedade e de cientificidade filológicas, impotente para abarcar o que não é iminentemente rotular, espartilhado, unidimensional, encontram no Surrealismo, como em tantas outras expressões, um caso tabu cuja omissão resulta ou da ignorância ou da auto-legitimação dos percursos trilhados nos círculos cada vez mais obsessivamente claustrofóbicos do mainstream institucional.

