CARTA DE ÉVORA : A “alma”, o coração e o show – por Joaquim Palminha Silva

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            A partir de 8 de Abril e durante quatro dias, a cidade de Fafe é palco do I Encontro Internacional de Causas e Valores da Humanidade. Esta 1ª edição do evento, segundo o Diário do Minho (4/4/2015), tem como objectivo homenagear personalidades e organizações internacionais. Acrescente-se que também tem como finalidade «alertar, provocar e envolver os cidadãos na importância das causas e valores da humanidade», diz o citado jornal diário.

            Neste espaço de tempo, a cidade de Fafe é inundada com exposições de arte pública, tertúlias de café, representações com actores profissionais, exposições de rua ou em espaços próprios, música, etc..

            E lá vamos nós!… – Assiste-se, portanto, a uma explosão humanitarista e socorrista (Amnistia Internacional, Médicos do Mundo, etc.) onde pontifica o exibicionismo dos bons sentimentos, entrando todos em cena no “circo” mediático, tanto as personalidades galardoadas (na verdade autênticos empresários da caridade e do humanitarismo) como as organizações… Enfim, quanto mais o sentimento cristão do dever de ajuda ao próximo ou a solidariedade cívica parece enfraquecer, mais a generosidade se transforma num produto de exibição; quanto maior é o progresso dos valores individualistas, mais as encenações mediáticas das boas causas se multiplicam em busca de audiências.

            A época da globalização capitalista, da difusão internacional dos mercados e do consumo a preço popular não significa obrigatoriamente a expulsão do referencial ético. Assistimos à sua sujeita exposição mediática, de acordo com as necessidades de protagonismo cultural, político, social e, inclusive, religioso deste(a) e daquele(a), e seus supostos e respectivos valores morais, reciclados de acordo com as leis do espectáculo, da comunicação de massas. Em vez do dever humanitário rigorista, respeitador da fragilidade e ignorância dos humilhados e ofendidos, pratica-se a combinação da “generosidade” com o marketing, utilizando a eventual sedução da personalidade, tal qual no “show-biz”.

            Neste acontecimento de Fafe, são homenageados o Cardeal hondurenho Óscar Maradiaga (presidente da Cáritas Internacionalis) e Maria de Jesus Barroso Soares (presidente da Fundação Pro-Dignitate). Depois, durante quatro dias, entre decibés, felicidade consumista, espectáculos vários e entertainment avulso (sem o aborrecimento das lengalengas e sermões de outrora) o público espectador de Fafe e os forasteiros assistem ao desfile das “estrelas” destas e de outas causas “nobres”: José Lamego (da OIKOS), Graça Morais (artista plástica), Augusto Santos Silva (ex-ministro da Educação e Cultura), Sampaio da Nóvoa (Prof. da Universidade de Lisboa), Rui Nabeiro (Café Delta), Carvalho da Silva (ex-dirigente da Intersindical) Pe. Vítor Melícias, Manuel Alegre, Diogo Freitas do Amaral…

            Acabaram, assim, as sóbrias e discretas campanhas de outrora, começou desde há algum tempo a caridade hedonista, que usa os pobres e os deserdados da terra para reabilitar personalidades, fabricar currículos e, claro, angariar fundos. Variedades diversas e exposições de fotografias de pobres e esfarrapados, de campos de refugiados, valas comum de matanças horríveis por esse mundo fora, parecem desejar reconciliar o impossível: idealismo e boas intenções com o horror e a miséria; avalanches de tristeza sentidas algures com a alegria do show e a felicidade da beneficência festiva…

            No fim de tudo ficamos perplexos…Porquê esta cidade portuguesa para tal evento? – Será que Fafe se pode identificar com um centro financeiro e bolsista onde a angariação de fundos se torna apetecida e desejável? Será que há algo de semelhante em Fafe a Wall Street (Nova Iorque) ou à City de Londres?

            O tempo da ética humanitária foi substituído pelo tempo da moda, e da teatralidade do “bem” – Vanitas vanitatum, et omnis vanitas (vaidade das vaidades, tudo é vaidade)!

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