Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala
Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]
Uma colecção de artigos de Onubre Einz.
VI – A Alemanha e o investimento: uma potência com os pés de barro
Onubre Einz, L’Allemagne et l’investissement: une puissance aux pieds d’argile
Criseusa.blog.lemonde.fr., 6 de Junho de 2013
(CONTINUAÇÃO)
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B – A lógica do investimento e a lógica de crescimento.
É necessário compreendermos como é que se podem articular os níveis de investimento, o alargamento enorme das diferenças nos níveis de rendimento e os stocks de capital acumulado. O modelo de crescimento alemão permite esclarecer estes pontos.
1º O stock acumulado de capital produtivo de que o seu acréscimo é resultante das baixas taxas de investimento em capital fixo bruto e líquido e reflecte as condições de produção do valor depois da queda do muro de Berlim. A queda do investimento produtivo alemão e o volume de capital acumulado marca a passagem do Made In para o Made By Germany: a taxa de investimento produtivo bruto e líquido em capital fixo produtivo resulta de que uma parte crescente da produção é feita nos países da Mitteleuropa (Hungria, República Checa, Polónia), ou mais longe ainda. Essa realidade envolve uma alteração na dimensão do aparelho produtivo alemão nas condições de produção do valor produzido dentro e fora da Alemanha.
2 ° Por dominar a cadeia de produção material, a Alemanha também se coloca na posição de controlar a cadeia de valor de que ela se apropria na maior parte impondo condições de formação de preços que lhe são favoráveis. O sistema de produção alemão evolui pois para uma lógica mista de produção e/ou de montagem final. O capital acumulado na Alemanha só pode pois aumentar ligeiramente.
3 ° Esta lógica geral permite reduzir os salários alemães no quadro de regulação do salário directo e indirecto cada vez menos generoso que opera como uma condição sine qua non para a concentração de rendimento a favor do alto da pirâmide social.
Pode, portanto, haver na Alemanha, uma sub-acumulação de capital, uma queda das taxas de investimento em capital fixo produtivo e uma produção de valor ainda mais importante. Uma parte da riqueza é produzida noutros lugares e não paga a um preço justo, é o objectivo de toda a subcontratação. Ela concentra-se na Alemanha pelo volume de crescimento de rendimento e concentra-se cada vez mais e mais fortemente nas mãos dos alemães que estão no topo da pirâmide social no final de uma série de condições que podem ser simplesmente enumeradas: limitação de investimentos residenciais, limitação dos investimentos públicos e produtivos e uma distribuição do rendimento cada vez mais desigual.
Nestas condições, a Alemanha pode- se tornar a base dos fluxos de capital, marcados pelo IDE que permitem produzir a melhores preços no exterior e IPD (juros, lucros, dividendos) que aumentam o rendimento nacional. A financeirização por procuração permite registar um saldo líquido de rendimentos de capitais favoráveis à transferência de rendimentos para o topo da pirâmide social.
2 ° A lógica do investimento e a lógica de crescimento.
A compressão do investimento é única: tende a permitir um equilíbrio entre a produção de valor gerado fora do solo alemão e a partilha da riqueza nacional entre investimento e rendimento favorável à transferência dos frutos do crescimento para o topo da escala social. O Presidente Schröder acelerou este processo e alargou exageradamente as diferenças de rendimentos enquanto dirigia a Alemanha para níveis de muito baixo investimento público e privado, Frau Merkel não pôs em causa esta orientação, simplesmente temperou-a um pouco.
Merkel moderou um processo que enfraquecia exageradamente o investimento alemão devido a um enriquecimento muito rápido das classes mais altas. Deve ser notado também que o agravamento das desigualdades foi menos polarizado para o topo. São especialmente os percentis 1-50 dos rendimentos que vieram a sofrer mais com os efeitos da moderação salarial sob Schröder. A política menos dura de Merkel em matéria de agravamento das desigualdades explica a sua popularidade.
3° Alienação da produção e alienação da Europa.
A Alemanha conseguiu muito habilmente combinar elementos que se excluem habitualmente.
1° A Alemanha combina uma sub-acumulação de capital (taxas e volume de capital acumulado) relativamente à riqueza nacional (valor do PIB) que a Alemanha importa para repartir e ficar com a parte do leão[2]. No caso contrário, a riqueza criada pela Alemanha seria mais baixa devido ao nível de investimento e de stock de capital demasiado fraco.
2° Esta riqueza importada (e não paga) é a consequência exacta da riqueza importada pelos EUA sob a forma de fluxos de mercadorias e do saldo líquido dos capitais financeiros (Entrada-saída de capitais). Mas onde os Americanos consomem em excesso (sobre-consumo) sem se estarem a preocupar em produzir (a sua balança dos pagamentos é deficitária) ou em poupar, os Alemães produzem com a preocupação de aumentar a sua riqueza nacional pela via das trocas desiguais que permitem a sua posição final na cadeia de produção dos valores
3° O método para aumentar o rendimento das classes mais favorecidas produz efeitos similares (queda da taxa de investimento, base produtiva em contracção relativa) mas há diferenças sensíveis em termos de contas externas. A Alemanha limitando a procura – que deve reduzir-se se o sistema produtivo estiver em contracção relativa – de uma parte dos seus concidadãos (é a célebre moderação salarial) tem de encontrar vias de retransmissão do crescimento fora das suas fronteiras. Vimos que a Alemanha o conseguia em zona mole (Zona Europa, Europa comunitária para lá dos 17, Europa fora da UE, América do Norte e Médio Oriente) e menos bem na zona dinâmica (Ásia e América do Sul) devido à especificidade das suas exportações e à qualidade-preço dos seus produtos. Segue-se que numa tal situação, era indispensável encontrar clientes sempre mais numerosos fora das suas fronteiras. O enriquecimento dos alemães de rendimentos elevados e dos muito ricos supunha por conseguinte a retransmissão do crescimento principalmente na Europa e acessoriamente no resto do mundo como o mostra o delta persistente entre as exportações para a Europa e para o mundo inteiro.
4° É assim que a Alemanha se tornou uma base de produção e de montagem que permite aumentar o volume de produtos exportados e vendidos pela Alemanha, em que uma parte crescente desse valor deve ser vendida para o exterior. Pode-se assim constatar, como o fizemos, que a parte das exportações alemãs no PIB não deixa de crescer. Isto seria impossível com taxas de investimento produtivo a evoluírem em sentido inverso. O balanço é o enriquecimento de uma fracção da população alemã e a existência de desequilíbrios que ameaçam todo o edifício europeu. Estaríamos errados efectivamente se considerássemos esta situação como apenas um efeito do dinamismo da indústria alemã, e com a economia alemã a sofrer de uma sub-acumulação relativa de capital, a não ter o poder, a robustez, que representa o volume do seu comércio externo. Mais o tempo passa, mais esta produz fora das suas fronteiras, mais a Alemanha se enfraquece. Este enfraquecimento é visível na queda na parte de riqueza consagrada ao investimento produtivo e na queda da parte do investimento público.
5° Os EUA ao criarem desigualdades na repartição do rendimento distribuído tiveram que construir um compromisso nacional patrimonial que parte do aumento do preço da habitação que vem assim compensar as formidáveis desigualdades de rendimento e de património financeiro. O modelo alemão é diferente. A Alemanha não construiu um vasto sistema financeiro, as famílias privadas exportam os seus rendimentos para os sistemas financeiros estrangeiros sem esquecer o repatriamento dos juros e dividendos. O sistema produtivo alemão centrado sobre a produção na Mitteleuropa é apenas uma base que permite acumular valor para as camadas de topo na repartição do rendimento e em que estas o exportam para o estrangeiro sob a forma de aplicações financeiras. Em suma, não há necessidade de uma corrida à dimensão dos patrimónios financeiros que permitem captar uma fracção dos rendimentos pela via de formas derivadas dos rendimentos das propriedades das empresas (dividendos) ou das aplicações financeiras (Juros ). É o que explica que o investimento na habitação seja assim muito fraco na Alemanha. Não se trata de uma simples política imobiliária a permitir evitar uma inflação dos preços e dos alugueres imobiliários. Trata-se de uma variável que estrutura o modo de criação e distribuição do rendimento na Alemanha. Uma fraca taxa de investimento no imobiliário permite proteger o nível da procura do (e o escoamento dos produtos alemães sobre o mercado interno), condicionando também a captação pelas camadas superiores de parte crescente de rendimento.
(continua)
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[1] O título dado à colecção é da responsabilidade do tradutor.
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[2] O autor faz aqui referência a um tema hoje banido dos manuais de Economia Internacional: a Troca desigual. Em termos simples, se os preços estivessem correctamente formulados, os produtos alemães que hoje valem 100 euros alemães valeriam 80 euros alemães, por exemplo. Em contrapartida, se os preços estivessem correctos e em euros alemães, o que é importado do exterior em vez de valer 100 euros valeria 120 euros alemães. Simplesmente quer isto dizer que para as mesmas mercadorias importadas ao valor de 100 (valem 120) os alemães teriam de pagar mais 50% do que pagam, teriam de exportar mercadorias avaliadas em 120 euros, quando as que exportam agora valeriam apenas 80 euros.
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Ver o original em:
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