Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A minha grande crise grega
Satyjait Das, My Big Fat Greek Crisis
Economic Monitor, 26 de Março de 2015
(conclusão)
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Não há boas opções …
As escolhas da Grécia são bastante claras.
Na primeira opção, a UE concede subsídios. Os prazos de vencimento dos empréstimos, especialmente perto da data de liquidação, são prolongados. Fazem-se concessões sobre as taxas de juros. A dívida existente pode ser substituída com títulos sem maturidade e com um cupão ligado ao crescimento, assim chamado de títulos ao estilo de Keynes com cláusulas de suporte, ditas cláusulas bisque. O excedente do orçamento primário necessário é então reduzido, talvez com alguns novos investimentos da UE para aumentar a actividade. O BCE continua a apoiar as necessidades de liquidez dos bancos gregos. A Troika odiada torna-se no conjunto as ‘instituições’ que está a remover a odiosa associação com o passado.
Apesar da redução do valor económico da dívida pendente, a UE e os credores evitam explicitamente uma dívida que em termos políticos é muito difícil de perdoar. O SYRIZA pode pretender ter cumprido seu mandato por se erguer contra a UE e contra a Alemanha e recuperar a sua auto-estima e a soberania grega.
Na realidade, pouco muda. O professor Stephen Lubben assinalou que os títulos de cláusulas Bisque são semelhantes aos títulos usados pelo velho J.P. Morgan para reestruturar a dívida dos caminhos de ferro americanos durante a idade de ouro das falências neste sector. Muitas destas reestruturações falharam quando os seus mutuários foram deixados com níveis de dívida insustentáveis e foram incapazes de obter novos financiamentos.
Na base deste cenário, a Grécia e a UE vão voltar à mesa das negociações, dentro de 6 a 12 meses, enfrentando os mesmos problemas.
Na segunda opção, a Grécia entra em incumprimentos sobre a sua divida, mas permanece no Euro, uma opção originalmente favorecida pelo actual ministro das Finanças grego, quando ele era um normal académico. Não é claro como é que uma nação em incumprimento pode permanecer dentro do Euro por outra razão que não seja a ausência fortuita de um mecanismo de ejecção.
Os bancos gregos entram em colapso se o BCE decide retirar-lhes o financiamento. As fugas de capitais aceleram-se, forçando a implementação de controles de capital. O governo grego é deixado sem nenhuma fonte óbvia de financiamento para as suas operações, para além de uma moeda paralela ou IOUs utilizados durante algumas blocagens do governo nos Estados Unidos. A posição competitiva da Grécia permanece inalterada tanto quanto se propõe utilizar o Euro. A UE e os credores incorrem em perdas substanciais imediatas nos seus empréstimos.
Na terceira opção, a Grécia entra em incumprimento e deixa o Euro, substituindo a moeda comum por um novo Dracma. Esta entra em incumprimento ou o seu equivalente, tem de reembolsar a dívida nominal na nova divisa, uma moeda fraca. Os bancos nacionais têm de ser apoiados pelo banco central grego. Estabelece-se uma situação de caos. Desencadeia-se a curto prazo, o colapso da economia. A UE e os credores enfrentam o mesmo problema tal como na segunda opção. Além disso, o Euro está desestabilizado.
A terceira opção permite que a Grécia recupere o controle de sua moeda, da oferta de moeda e das suas taxas de juros. Dá-se uma acentuada desvalorização do novo dracma o que melhora a competitividade, por exemplo, no sector do turismo. A capacidade do banco central para criar e controlar o fornecimento de dinheiro ajuda a restaurar a liquidez no sistema bancário e fornece um mecanismo de financiamento para o governo.
Um novo dracma barato, se adequadamente gerido, pode reverter a fuga de capitais, tanto quanto a ameaça de uma perda de poder de compra for reduzida. Uma moeda desvalorizada pode ajudar a atrair fluxos de fundos à procura de bons negócios. Entretanto, a Grécia recupera o acesso aos mercados de capitais como o fez a Rússia depois da sua entrada em incumprimento, em 1998.
A Grécia recupera a soberania económica mas à custa de reduzida qualidade de vida, tal como os preços dos bens importados sobem em flecha e o poder de compra internacional é diminuído. Mas após a deslocação inicial e com a implementação de políticas correctas, deve seguir-se uma forte recuperação económica..
A quarta opção implica que a Grécia passa a ceder às exigências da EU, continuando com os mesmos termos de resgate obrigatório e com o mesmo programa de ajustamento, ou seja, continua com a austeridade. SYRIZA pode ser capaz de gerir a reacção contra a sua capitulação face a Bruxelas mas se o consegue fazer será apenas de curta duração. Porém continuar no seu insucesso em termos de políticas pode resultar em problemas internos e eleitorais, provocar um colapso da coligação governamental. Por sua vez, irão ocorrer novas eleições.
SYRIZA pode regressar com um mandato específico de incumprimento e de deixar o Euro. Alternativamente, o povo grego desiludido com os principais partidos e agora com Syriza, poderá voltar-se para o partido fascista, fanaticamente anti-Europa e anti-Euro, o partido Golden Dawn. A guerra civil e a desagregação da sociedade podem então ocorrer. Não pode ser excluída um regresso à implantação de um regime militar que só terminou em 1974. Os problemas económicos subjacentes permanecem todos eles.
Guerra controlada…
Tendo em conta os efeitos das políticas existentes, será improvável que os gregos sejam ameaçados por dificuldades contínuas ou outras. Eles podem estar dispostos a suportar a dor e a fazer grandes sacrifícios, desde que haja a esperança a prazo mais longo para eles e para o seu país.
A posição negocial da UE e da Alemanha de que um incumprimento grego e a saída do Euro (“Grexit”) são geríveis é semelhante à crença do Dr. Strangelove em termos de sobrevivência numa guerra nuclear.
Com cerca de 85% da dívida grega na mão dos credores oficiais, Grexit provocaria imediatamente significativas perdas sobre os empréstimos governamentais bilaterais, sobre a detenção de obrigações no BCE, os empréstimos feitos pelos fundos de resgate e no âmbito das compensações realizadas no âmbito do sistema TARGET II. A quantidade total em risco é de cerca de € 256 mil milhões. A exposição da Alemanha, França, Itália, Espanha, Holanda e Finlândia são €73, 55 €, 48 €, €33, 15 € e € 5 mil milhões respectivamente.
As perdas converteriam garantias contingentes em fluxos de saida de caixa. Se os gregos entram em incumprimento, o FEEF, por exemplo, exigirá que cada fiador faça as dotações orçamentais para cobrir quaisquer deficiência. O BCE pode precisar de ser recapitalizado. As perdas potenciais são significativas em relação aos recursos e aos orçamentos de cada um dos países, especialmente para a Espanha, Portugal, Irlanda, França e Itália, que se defrontam com os seus próprios problemas financeiros. Cobrir os défices s seria mais difícil para todas as nações para conseguirem satisfazer os seus objectivos de dívida e de orçamento conforme estabelecido pela UE.
O custo político seria maior, com os eleitores a perceberem que as verdadeiras implicações dos resgates e da sua exposição a perdas não foram totalmente divulgadas pelos seus políticos e pelas suas elites tecnocráticas.
Grexit provocaria a fuga de capitais de outros países vulneráveis. Os depositantes não teriam confiança em governos fracos, sem um regime de seguro de depósito garantido e com potencial apoio do BCE. O acesso aos mercados monetários o para países suspeitos de estarem expostos cairia. Os custos em contrair empréstimos para estes países aumentariam.
O Euro tornar-se-ia volátil, impulsionado pela especulação da sua futura composição e da dinâmica do seu valor. Se o pressuposto é que o Euro se torna o novo Deutschmark para um grupo menor de países da zona do Euro então, e de imediato, o seu valor pode disparar fortemente nos mercados cambiais, reduzindo a competitividade das exportações alemães.
O efeito sobre a economia real e sobre o comércio internacional é difícil de prever. A volatilidade e a incerteza seriam ruins para o investimento e para o consumo.
Fluxos em …
O efeito na política interna da Europa pode ser significativo. Mesmo não fazendo parte da moeda única, os problemas actuais terão forte impacto sobre as eleições no Reino Unido e sobre as perspectivas dos partidos eurocéptico como o UKIP. Na França, na Alemanha e na Finlândia, irá mostrar um forte impulso dos partidos nacionalistas anti-Euro como a Frente Nacional, AfD e os Verdadeiros Finlandeses.
Em Espanha, o partido Podemos, que tem posições semelhantes sobre algumas questões ao Syriza, está à frente dos dois principais partidos nas sondagens para as eleições para mais tarde, em 2015. Os acontecimentos na Grécia também são relevantes para os defensores da anti-austeridade em Portugal, Irlanda, França e Itália.
Uma vez que a Grécia entre em incumprimento e/ou deixar o Euro, será difícil parar a especulação sobre as outras nações periféricas, minando-se assim toda a base da moeda comum. Mesmo sem um completo Grexit, quaisquer concessões à Grécia resultariam em concessões em outros países como a Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e França, procurando-se o abrandamento das pressões orçamentais e das reforma. A sustentabilidade da dívida e a sustentabilidade orçamental dentro da zona do Euro tornar-se-iam inatingíveis.
Não há, agora, melhores opções para a saída da Grécia. Seja qual for o resultado, a falta de vontade da Europa para enfrentar a realidade significa que os problemas vão continuar a apodrecer, condenando o continente a uma estagnação prolongada ou a pior ainda.
Satyajit Das, Economonitor, My Big Fat Greek Crisis, 26 de Março de 2015. Texto disponível em: http://www.economonitor.com/blog/2015/03/my-big-fat-greek-crisis/
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