BISCATES – Na morte de Mariano Gago – por Carlos de Matos Gomes

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Homens diferentes escolhem campos diferentes para viver a vida, para lutar, para construir o presente e o futuro. Essas diferenças e esses campos têm raiz em diferentes concepções da vida e do mundo. A moral é o grande separador de campos.

Na sua última homília dominical, Marcelo Rebelo de Sousa reconheceu que há homens que têm uma moral e que marcam uma época, como Mariano Gago, mas que esses homens nunca estão no campo dele e dos seus correligionários. Estão sempre do outro. Referiu Marcelo que só se recorda de dois ministros que tiveram uma política para a ciência e a educação: Veiga Smão nos anos 60/70 e Mariano Gago. (Não é completamente verdade, como nunca é com Rebelo de Sousa: Veiga Simão teve uma política de expansão da oferta de ensino superior, muito dirigida para a política ultramarina dos últimos anos do Estado Novo, quando Marcelo Caetano ensaiava a uma tímida autonomia das «Províncias Ultramarinas». Quem, à época, teve uma política de investigação cientifica, foi a Fundação Gulbenkian e um conjunto de quadros que ali trabalhavam. Mas é um facto que Veiga Simão foi importante na definição de uma política de educação, pelo menos percebeu que o seu ministério não podia ter como livro único da 3ª classe uma imagem de crianças a fazerem a saudação nazi e fardadas da Mocidade Portuguesa, como os Balilla do fascismo ou as juventudes hitlerianas.)

Mesmo tendo estas visões do alargamento da formação escolar a um maior número de portugueses com um atraso de 50 anos relativamente aos países europeus (em 1974 a taxa de analfabetismo situava-se entre os 30 e os 40%, enquanto na Europa para lá dos Pirinéus era inferior a 5%) ainda assim Veiga Simão veio a integrar formações políticas que não a de Marcelo Rebelo de Sousa, à esquerda. A direita nunca teve uma política de educação e do conhecimento.

No programa História da História, da RTP2, também no domingo, e por mero acaso, Fernando Rosas falava da incipiente e anémica industrialização portuguesa do século XIX até meados do século XX (em 1970 ainda existiam 10 mil máquinas a vapor na zona de Lisboa, a mais industrializada do país!) e atribuía-a à mentalidade das elites parasitárias e à falta de uma política de educação científica que formasse técnicos e operários qualificados, capazes de construir máquinas geradoras de energia – a energia gia a vapor – e máquinas ferramentas que aproveitassem essa energia na indústria transformadora, na agricultura, nos transportes. Tudo era importado.

Uma das mais elucidativas medidas que expõem a moral dos políticos ultramontanos que são os antepassados dos correligionários de Marcelo Rebelo de Sousa, gente que vivia de favores do Estado, do comércio de importação e da especulação. Gente como a de hoje do compromisso Portugal, por exemplo. Fernando Rosas falou de um proscrito da direita portuguesa, um cientista que tinha uma ideia para o desenvolvimento de Portugal: Bento de Moura Portugal, nascido em 1702, que morreu no forte da Junqueira, em Lisboa. Insigne físico, o rei D. João V enviou-o com bolsa de estudos a diversos países europeus. Entre os seus trabalhos contam-se o processo de pesquisas do ouro ao longo dos rios; projetos de um dique em Vila Velha de Ródão para evitar as inundações dos terrenos agrícolas marginais do rio Tejo, uma roda hidráulica para enxugar terras alagadas, o aperfeiçoamento do mecanismo das azenhas, entre outros. Em 1742, segundo a Gazeta de Lisboa, demonstrou perante a corte portuguesa, na zona de Belém, a sua “Máquina do Fogo”, que as Philosophical Transactions, da Royal Society, de Londres, para a qual foi eleito membro em 1740 – haveriam de divulgar ao mundo científico uma década mais tarde. Em 6 de fevereiro de 1742 a “Gazeta de Lisboa” publicava a notícia de que a rainha e os príncipes foram a uma das casas reais no sítio de Belém, “e ali viram as operações de duas máquinas as quais por meio do peso do ar e da força do vapor levantavam água, dando o frio ocasião a que o peso do ar pudesse a tornar a reduzir em água os vapores, em que o calor a tinha transformado. Bento de Moura Portugal morreu aferrolhado nas prisões da Junqueira, por ordem de Pombal em 1760.

Demorou quase 78 anos, até que a máquina a vapor fosse aplicada industrialmente em Portugal (1820), ao contrário do que tinha ocorrido na maioria dos países europeus. Bento Moura Portugal foi autor de inventos e vários planos de melhoramento para o reino, escritos nas prisões da Junqueira, onde morreria em 1776, na miséria e louco, após dezasseis anos de clausura. Durante esses 16 anos de reclusão, conseguiu achar maneira de empregar o papel pardo e o fumo da candeia para redigir escritos notáveis, um tratado de 28 cadernos, em que descrevia os seus inventos e investigações, acabando por enlouquecer. Os seus contemporâneos chamaram-lhe o Newton português.

A ideia dos perigos do conhecimento, da inovação, fazem parte da estrutura mental da direita portuguesa e, quanto à sua moral, Marcelo Rebelo de Sousa, o seu grande pastor, confessou a propósito da venda ao desbarato das empresas que eram os centros de e inovação criados pela política de Mariano Gago, ninhos de jovens cientistas, serem gente que não se rege nem pelo bem, nem pelas vantagens a longo prazo, nem pela solidariedade, nem sequer pela inteligência, mas pela predação do saque e do lucro imediato.

Para fechar o círculo que explica o nosso atraso e a nossa pobreza, surgiu na segunda feira Paulo Portas, o videirinho, a falar de tudo e até de atractividade de Portugal para os empresários de qualquer parte do Mundo, afirmando com a sem vergonha dos pastores da Igreja dos Santos dos Últimos Dias a venderem condomínios nas nuvens que venham e invistam por que temos cientistas e operários do melhor. São os formados nos programas gizados por Mariano Gago. Centros de competência como os falecidos da Telecom, ou da EDP, ou até da TAP, ou das nanotecnologias, dos materiais compósitos e é de aproveitar porque estão a acabar e não há mais. Segundo o professor Rui Bebiano, a maior parte dos cientistas portugueses tem mais de 50 anos e não há renovação. O doutor Crato não é Mariano Gago. O primeiro-ministro, compungido, reconheceu que Mariano Gago, apesar de socialista, tinha feito qualquer coisa. Nada de comparável, presume-se ao que ele próprio fez na Tecnoforma, o grande centro de inovação e competividade à qual deu o seu inestimável contributo. Faliu, um fantástico evento na recomposição do tecido industrial português!

Enfim, tal como aconteceu com o físico Bento Moura Portugal, a herança de Mariano Gago, deixada nas mãos da gente do costume e de que Portas é o pregoeiro e Passos Coelho o fogueiro, talvez daqui a 70 anos permita que aqui cheguem as novidades do mundo que se desenvolvem diante de nós. Tal como as primeiras máquinas a vapor em Portugal, serão esquecidas as tecnologias desenvolvidas por cientistas portugueses de produção de energia eólica, ou hidráulica, as novas baterias para mover automóveis, ou aviões… Daqui a 70 anos importaremos essas novidades, com rendas como as que pagámos pelos comboios de todas as linhas, pelos Telefones de Lisboa e do Porto, pelos carros eléctricos…

Enfim, nisto do progresso e do desenvolvimento existem dois campos: aquele onde estava Mariano Gago e aquele onde está Paulo Portas. Existem dois campos, um que produz Mariano Gago e outro que produz Vitor Gaspar. E duas morais: a que defende o homem como um ser social dotado de dignidade individual e colectiva e o que defende o homem como um sujeito entregue a si próprio e à mercê dos predadores.

Carlos de Matos Gomes

5 comments

  1. Tito Manuel Grijó Poças

    Desejo felicitar, pessoalmente, o tenente Matos Gomes, assim o conheci como seu instruendo na extinta Escola Prática de Cavalaria – Santarém, no 3º turno do Curso de Formação de Sargentos Milicianos, em 1968.
    A 16 de Abril de 1969, embarcamos no Vera Cruz com destino Angola, ele para a formação de Comando na Região dos Dembos, norte Luanda, e eu para o Kuando Kubango, Sudeste de Angola.
    Sobre o que acabei de ler, referente ao Cientista Mariano Gago, assim como à seita do Ali babá e os mais que muitíssimos ladrões, subscrevo!

    Tito Manuel Grijó Poças

  2. Joaquim Ribeiro

    Sr coronel, cada vez admiro mais a forma como o sr. expõe as suas ideias sendo estas de forma tão clara que até ao mais humilde dos mortais não deixa margem para dúvidas. Espero que continue a presentear-nos com tão apetitosos “pitéus”.
    Entretanto vou partilhar esta postagem na minha página do face.
    Cordiais cumprimentos.

  3. Jorge Sousa Correia

    Era muito importante que esta indignação racional que o texto reflecte fosse transportada para a rua. Na verdade, nós, os sem vós, apenas servimos para justificar os outros, aqueles cuja ambição perdeu o respeito por tudo quanto entrave o seu caminho para a riqueza e bem estar. Os pobres? Para que servem os pobre senão para servir os ricos!

  4. José Portela

    Estou absolutamente de acordo consigo. Obrigado.

  5. Bela síntese! Devia ser lida por todas as pessoas!!!

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