NO DIA MUNDIAL DO LIVRO – A MARAVILHOSA DESCOBERTA DA LEITURA – por Rachel Gutiérrez

                     

Artigo transcrito da Carta do Rio nº 27

Manuel BandeiraRelendo o maravilhoso “Itinerário de Pasárgada”, de Manuel Bandeira, encanto-me de novo com a revelação que ele faz da descoberta do mundo paralelo que os livros nos proporcionam porque por meio deles adquirimos “a noção de haver uma realidade mais bela, diferente da realidade quotidiana”. É o prenúncio de uma Pasárgada que não mais deixará de nos acolher e consolar. E isso me remete, fatalmente, a uma das citações mais famosas de Nietzsche, segundo a qual “temos a arte para não morrer da verdade”.

No período da alfabetização, é deslumbrante a descoberta dos sons das letras, suas consonâncias, suas ressonâncias, suas combinações e o poder da rima nas cantigas de roda. Bandeira evoca uns versos trágicos sobre uma menina enterrada viva que assombraram a sua infância:

“… Minha mãe me penteou. /

Minha madrasta me enterrou /

Pelo figo da figueira /

Que o passarinho bicou. /

Xô, passarinho!”

E por uma extraordinária coincidência, no outro extremo do Brasil, (pois Bandeira era pernambucano e eu sou da fronteira com o Uruguai) uma empregada alagoana me contava a mesma história e cantava a mesma cantiga. E ele diz que o “Xô, passarinho!” lhe cortava o coração. Na minha experiência infantil, os versos que soavam mais tristes e me emocionavam eram: “Minha mãe me penteou / Minha madrasta me enterrou / Pelo figo da figueira /…” Tudo aquilo era estranho, misterioso, cruel. Mesmo assim, histórias infantis tantas vezes terríveis, quando repetidas, provocam na criança uma espécie de prazer assustado.

O meu grande “alumbramento”, porém, foi o da leitura de um primeiro livro sem figuras, um livro onde as palavras poderosamente descreviam paisagens, acontecimentos, personagens, seus conflitos e seus sentimentos, suas aventuras e desventuras. Foi um romance que ganhei ao completar oito anos: “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882). – É muito cedo para ela! deve ter dito minha mãe. Para mim, foi um prêmio. Eu já andava fascinada pelos livros que se acumulavam no escritório de meu pai, e também pelos mais bonitos, os especiais, sobre Arte e sobre todos os Museus da Europa, que as estantes com portas de vidro abrigavam, na sala de visitas, cujas janelas davam para a rua silenciosa e calma. A casa era grande, tinha um pátio sombreado por uma parreira, um pequeno jardim e, subindo uma escada no fundo do terreno, havia um outro pátio com muitas árvores frutíferas. E tinha até um galinheiro. E nesse segundo pátio, minha mãe plantara umas flores coloridas e muito cheirosas, as “ervilhas do jardim”. Pois na sala de visitas, onde me isolei para a leitura do precioso livro, havia um vaso cheio de ervilhas do jardim. E o perfume que as flores exalavam pela sala toda incensou o livro e a minha leitura. Foi uma bela iniciação.

Minha paixão pela leitura começou cedo e só fez crescer. E é com imensa alegria que, além dos trabalhos de tradução, tantas décadas mais tarde, dirijo um pequeno grupo de leitura, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Minhas companheiras são senhoras maduras, todas, como eu, apaixonadas por ler e ávidas de conhecimento. Já abordamos alguns contos de Clarice Lispector e agora estamos percorrendo as “Primeiras Estórias” de Guimarães Rosa, o gênio mineiro de Cordisburgo, que A Viagem dos Argonautas homenageou no dia 16 de novembro, data da sua posse na Academia Brasileira de Letras, em 1967, três dias antes de morrer.

Carlos Drummond de Andrade, sob forte emoção, ao ter tomado conhecimento da morte súbita do escritor e amigo escreveu versos inesquecíveis que começam assim:

João era fabulista?

fabuloso?

fábula?

Sertão místico disparando

no exílio da linguagem comum?

E eu não posso deixar de evocar o que escreveu o grande crítico e historiador português Óscar Lopes, no prefácio da sexta edição de “Sagarana”, da Editora José Olympio:

Ele explicava que depois da leitura de Guimarães Rosa, “… as nossas relações com as coisas se reanimaram: certas intenções humanas descobrem novas coisas, (…) . E redescobrimos até que a vocação humana mais profunda é a de realizar milagres, é a de aspirar ao que nem mesmo nos atrevemos a dizer-nos. Isso faziam dantes os mitos. E quando um escritor volta hoje a fazê-lo, é porque atingiu a altitude da epopeia.”

Como não sermos gratos aos escritores, aos artistas e aos poetas?

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