(continuação)
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Da Carta a Mariano Gago – Ministro de um Governo Sócrates
Quando jovem operário, um pouco perdido na amargura das horas trabalhadas a três escudos por hora, o custo de dois cafés a preço normal, onde cada livro lido, cada livro apreendido, muitas vezes à custa de um sono perdido, de um sono não havido, era mais um passo para quem procurava as referências do que era a vida, era mais um olhar de quem se queria situar num mundo que não compreendia, nessa altura um livro profundamente me marcou. Teria entre 17 e 19 anos, senhor Ministro, e o livro era A Condição Humana, um livro onde Malraux questionava o que é um Homem. Desse tempo, fiquei com a ideia de que o Homem era a intersecção do que foi e aprendeu com o passado dele próprio com o que deseja como seu próprio futuro, como seu próprio devir — fiquei com a ideia a partir de Kyo, ou do seu pai, duas das personagens relevantes desta obra literária, não sei qual delas, nem para aqui isso é agora relevante. O que é relevante é que, em cada momento, o Homem vale também pelo que quer como futuro e é esse futuro que com V.ª Ex.ª venho questionar.
Há já muito tempo que nos cruzámos nos corredores do Instituto Superior Técnico, ambos a aspirarmos a um outro tipo de sociedade, se a minha memória visual não me começa já a falhar, ela que foi feita passo a passo, sofrimento a sofrimento, para que deles não me esquecesse e com eles aprendesse, nos cruzámos várias vezes e eventualmente também em muitas camionetas, que todos nós estudantes de um devir solidário, a acontecer poucos anos depois, em Abril de 1974, enchemos numa marcha de solidariedade para com os sofridos do fascismo e das águas das cheias que tudo levaram pelos finais dos anos 60, na zona de Vila Franca de Xira. Por aí nos cruzámos, seguramente. Os filhos da burguesia do fascismo de então deslocavam-se em camionetas contratadas pelas associações de estudantes para irem ajudar os operários com rendimentos de pobreza, verdadeiras vítimas do regime de Salazar, atingidos pelas cheias, e com eles ia eu também. Aí me apercebi de um certo sentido da História que um pouco mais tarde haveria de redescobrir a um outro nível, muito mais abstracto, nos contactos com Hegel, e sobretudo com as explicações dadas por Jean Hyppolite ou por Kojève, o sentido da História, o sentido também da dialéctica do senhor e do escravo, através de páginas e páginas difíceis de entender que me levariam a seguir até Marx e muito mais tarde, já estudante em Economia, a Piero Sraffa, a Joan Robinson, a Kaldor, a Maurice Dobb e a Mário Nuti, que pessoalmente conheci recentemente em Coimbra. Na pobreza extrema daquelas gentes, pelo singelo das casas que lavámos, das ruas que limpámos, no sentir das pessoas que apoiámos, na simplicidade das pessoas com quem falámos, na força com que assumiam os desaires e o destino que os outros lhes impunham, apercebemo-nos, senhor Ministro, e se lá estava terá seguramente sentido o mesmo, que por ali também passava a força de um futuro a fazer. Bastava só saber ler e olhar para os milhares de papéis, de jornais do Avante, de documentos outros, dir-se-ia na época, subversivos, que nos apontavam uma certa ideia de futuro que mais tarde a História também viria a demonstrar que destino também não era, mas que estava ali, como uma parte da força imensa que sabia dizer não à barbárie do fascismo, organizada ou sustentada pelos pais de muitos daqueles que ali estavam a prestar ajuda.
De forma não visível, naquelas regiões de extrema pobreza e de extrema dignidade também, sabia-se, sentia-se, que a História também passava por ali, também se fazia por ali, entendida esta no sentido hegeliano e marxista do termo. As ligações sentiam-se, eram subterrâneas, disponíveis para se tornarem uma força viva quando os sinais da História o anunciassem, o admitissem. Anos depois, isso aconteceu, deram corpo a um movimento que se tornou depois Revolução. Face às águas sujas de Vila Franca, através das histórias que pressenti, aí eu senti que ainda estava longe, muito longe mesmo, do mundo que pensava que entendia. Aí me perguntei, o que é um Homem? E como é que os homens singularmente ajudam a fazer colectivamente a História, o seu próprio devir, afinal? Tanto me perguntei, que me desorientei. Já tinha lido e relido algumas coisas de Malraux, em francês ou em português, nem sei bem.
No regresso, a camioneta deixou-me na Rua Alexandre Herculano. Na época uma só peça de roupa tinha de jeito: uma camisola de caxemira, que pessoa amiga minha me oferecia anualmente, no aniversário. Quis ir ao Pestana e Brito, entrar no mundo dos ricos. Cheguei, pedi uma camisola de caxemira, de fio duplo, das marcas Bryant, Pringle ou Balantines. Todo sujo das lamas, o empregado tinha ar de estar a ver alguém vindo de um outro planeta. Ficou parado, a olhar. Irritei-me levemente. Puxei a camisola que tinha vestida pela parte de trás do pescoço e disse: desta marca, por exemplo. Era uma das marcas referidas e com a etiqueta Pestana e Brito. O empregado atrapalhou-se. Chamou um colega, pedindo-lhe que trouxesse todo o tipo de camisolas de caxemira que houvesse e depois desapareceu. Nunca tinha visto tanta camisola junta. Analisei-as uma a uma e durante muito tempo e depois disse: não gosto de nenhuma, e saí. Sentido de tudo isto? Nenhum, alguma raiva contida, de tudo o que durante o dia tinha sentido, talvez isso, mas disso não era o empregado o culpado, algum sentido de desorientação também por tudo o que tinha vivido e que não tinha bem apreendido.
Mas no tempo em que ambos éramos estudantes, senhor Ministro, os estudantes inquietavam-se, os estudantes respondiam às questões sociais a que aderiam, os estudantes desafiavam e sobretudo aprendiam a questionar, procuravam de forma difusa ou consciente mesmo o sentido da própria História que por ali corria. No após tempestade de Vila Franca, senti ter encontrado uma forte unidade silenciosa em todas as vítimas que apoiámos face ao fascismo, a mesma cumplicidade detectada nos silêncios entre elas, estando no entanto sempre disponíveis para uma primeira abertura política francamente pressentida. Naquele dia, naquela tarde, questionei o sentido da História, o sentido de se ser homem assim, o sentido de se arriscar a vida face ao fascismo, o sentido do que era a vida assim, eu que verdadeiramente nem vida tinha. A mesma cumplicidade também senti eu anteriormente, em 61-62, com a inauguração da reitoria da Universidade Clássica. Agora, não entre as gentes de Vila Franca a quem as águas mostravam com o que traziam para a luz do dia de que lado é que politicamente estavam, mas entre estudantes que face ao terrorismo de Estado se defendiam muitas vezes com o silêncio. Naquele caso, os estudantes como protesto tinham decidido não estar na sessão, de acordo com a RIA, mas uma ou outra associação como a de Medicina falhou e à sessão se apresentou. Cá fora e em sinal de protesto, os estudantes estavam sentados em duas alas, por onde passaria o ministro Hermano Saraiva, se não me engano. Colocámos a bandeira de Portugal no chão, eu era dos que a segurava para o vento a não levantar. O ministro teria que a pisar mas não, veio a PIDE que a conseguiu retirar, sem barulho devido à presença do corpo diplomático. Depois de a sessão de abertura se iniciar, um a um dos perturbadores da ordem oficial foram pela PIDE abordados e a identificação obrigados a entregar. Assim aconteceu e nesse dia, nessa noite, tudo se me tornou complicado: eu não era um filho da burguesia, as coisas eram diferentes para uns e para outros, como mais tarde Sttau Monteiro bem o mostrou.
Nessa noite, sem BI, desloquei-me ao café Tatoo, havia pouca gente e havia curiosamente uma cumplicidade que só com a cumplicidade se entendia, parecia que ninguém se conhecia, dentro dos que eu conhecia e que tinham estado no mesmo barco que eu. Mas assim não entendi. O mesmo aconteceu no café Nova Iorque. Voltei para casa e de medo estava cheio o meu imaginário. Amanhã serei preso, pensava. Nessa noite, senti-me a pessoa mais sozinha do mundo, e se nessa altura já tivesse conhecido o Principezinho, teria sonhado em ser por ele protegido, da mesma maneira que as suas plantas, as suas flores, protegidas do vento da vida. Mas não o conhecia ainda. No dia seguinte, na fábrica dos três escudos a hora, a meio da tarde, o chefe do escritório chegou e disse-me: “está ali a inspecção do trabalho; não te esqueças de dizer que trabalhas apenas três dias por semana”. “Estejam descansados, estão enganados. Vão-me levar para interrogatório na PIDE”, retorqui eu. Sublinho assim a minha preocupação com a entidade patronal que hoje significaria: “estejam descansados com a vossa ilegalidade que a nossa precariedade tornava legal, estejam descansados que nós vos protegeremos”. Tempos de fascismo, tempos de precariedade, eram assim. Uma tarde, uma noite na PIDE e nem a PIDE entendia: o meu patrão tinha-lhes pedido para não lhe levarem aquele que era para ele um dos seus melhores empregados, operário com salário de fome, e este andava nas greves dos “meninos” da Universidade. Na sala onde me colocaram, nos corredores por onde passei, outros do dia anterior encontrei e o mesmo silêncio, o mesmo desconhecimento de cada um, confirmei. Aí contrariamente à noite anterior, percebi, entendi que o desconhecimento de cada um era uma defesa para cada um dos outros, era uma outra forma de solidariedade, tão forte como a primeira, como aquela que nos colocou a segurar a bandeira. A diferença era ser silenciosa, foi bem o que senti. A mesma força silenciosa que mais tarde viria a presenciar em Vila Franca e já acima relatada. Interrogatório longo, as coisas não batiam certo. Disse-lhes que tinha acabado de deixar a profissão de marçano, que era católico, que quando me apanharam eu vinha do Rego para assistir à missa no Campo Grande e onde também visitaria as freiras que viviam ali bem perto, conhecidas da minha vida de marçano. Fiquei junto à Reitoria, fiquei por ali, a olhar surpreendido como uma criança que ia ver um espectáculo que não esperava. Para eles, estar preso não batia certo, eu seria apenas um marginal na roda da História, na roda do sistema, na roda da vida, um loser, sem mais nada. Eu era pois uma incógnita que não cabia no modelo dos inquiridores da PIDE, que não se enquadrava na visão que tinham do mundo, das pessoas. Depois largaram-me.
Tudo isto, senhor Ministro, porque também queria saber o que era um homem face ao seu destino, destino que necessariamente em cada dia criava e que criava com as interrogações que os outros me ensinaram a colocar, fossem eles Euricos de Figueiredo, Anas Dinis, Josés Eduardo Freire, Jorges Almeida Fernandes, Sottos Mayor, creio mesmo Jaimes Gama, ou fossem eles tantos outros que a história do movimento associativo estudantil traçaram e na luta contra o fascismo se evidenciaram. Eram as interrogações dos estudantes daquele tempo, do seu e do nosso tempo de então, que para aquelas vivências me levaram e que nem na PIDE e para a PIDE se compreendiam. Dito de outra maneira mais simples: eu próprio serei intelectualmente um produto de todos aqueles estudantes, de si também senhor Ministro, eu o jovem operário era levado assim a questionar no limite da sua capacidade o sentido da vida, o sentido da História, o sentido da dialéctica hegeliana, que um jovem de Direito de nome Furtado me terá carinhosamente ensinado, nas áleas do jardim do Campo Grande. Nesse tempo, os estudantes do nosso tempo comum estudavam, lutavam, liam, questionavam, e muitos deles, como eu, por Hegel e Marx passaram, fosse directamente ou por interpostos autores. Andámos perto um do outro, emocional e ideologicamente, vivemos e partilhámos as mesmas lutas e tanto assim que até com a sua primeira mulher muitas vezes me cruzei, pois era visita de pessoas amigas comuns. Andámos perto, muito perto senhor Ministro, no tempo em que a Associação do Instituto Superior Técnico era um exemplo de formação de cidadãos, era uma das bases da consciência política a partir da qual e de onde se terão formado muitos cidadãos que politicamente ao país deram alma num tempo de asfixia intelectual, como foi o período negro do fascismo que Portugal atravessou e contra o qual cada um de nós lutou.
Retratos do fascismo, traços da minha vida e daqueles tempos, tempos de fascismo. Mas que tem isto a ver com o 25 de Abril, agora?
O meu amigo acabou de contar a sua história. Não tinha ouvido nada a partir dos primeiros minutos. Pedi-lhe para repetir. “Estiveste a dormir ou quê”, perguntou-me. Não, dormi mal pelos vistos, passei pelas brasas logo que começaste a falar e fiquei preso nas minhas memórias. Voltou pacientemente a contar-me.
Em tempos morara para os lados de Benfica. Mais tarde mudou para o Restelo mas continuou cliente fiel do seu merceeiro, do seu merceeiro que lhe fornecia a melhor fruta que por aqueles lados poderia comprar. Todos os sábados se ia ali aviar. Mas havia uma enorme diferença entre o outrora e o agora, entre o ia e o vai. Uma diferença enorme escondida na diferença do tempo verbal. Havia entre os dois tempos, havia agora os efeitos arrasadores da crise.
Neste caso, estes efeitos foram dramáticos. Mas, sublinhe-se são do mesmo tempo dos que se verificaram noutros países, de economia aberta. Diminuindo as receitas monetárias, passa-se para produtos mais baratos, por efeito de substituição. Segundo o New York Times, este efeito foi espantosos nos Estados Unidos com o estalar da crise. Os clientes deixaram de comprar ou deixaram de comprar do melhor e passaram a produtos de menor sofisticação e genericamente passam a comprar o baixo de gama vindo da China ou de algures. O casal dispensou o empregado. De manhã cedo o marido ia ao mercado abastecedor, como sempre, ou fora dele mesmo, em fornecedores próprios de frutas e legumes, enquanto a mulher abria a loja. As vendas caíram a pique, porque há menos dinheiro, porque há um efeito de substituição de produtos mais caros por produtos mais baratos e, depois, há os efeitos de quem se sabe e pode defender relativamente melhor: há as grandes superfícies, com as suas promoções agressivas, semana a semana. No mercado onde a concorrência é selvagem, onde não há regulador, e o meu antigo colega Manuel Sebastião claramente não fez nada por isso, enquanto era a Autoridade da Concorrência, os pequenos estão condenados a morrer. Defendê-los? Não, isso não rende nem sequer curricularmente. Defender os pequenos, hoje, onde é que isso já se viu? Em lado nenhum, é verdade. O fim foi assim traçado, pela globalização e pela crise, a este merceeiro de outras gerações, de outros tempos, de outros códigos de comportamento que não são os de hoje.
Mas a história deste merceeiro é bem mais dramática, porque pode ser vista também como um exemplo da crise que afecta o ramo, e à escala nacional. Os custos fixos mantêm-se quase que estáveis, as receitas diminuem em queda livre. Os dois elementos do casal pedem a passagem à reforma. Com parte desse dinheiro, dessas duas reformas, cobrem os prejuízos mensais da loja e vivem do resto. Cruamente, dois cidadãos na casa dos setenta que trabalham desde crianças, como eu, e que depois de velhos pagam até para trabalhar.
Pagam para trabalhar. Eles sabem que o trabalho se torna cada vez mais necessário para dar a cada sujeito uma própria identidade social, para lhes conferir um papel na sociedade e ser por esse meio o veículo da sua inserção, em suma para lhe conferir, agora, um outro sentido ao termo “nós”, um outro sentido à vida, portanto. Sabem o que a vida lhe ensinou, não pelos livros, mas pelo que viveram e sofreram que parar de trabalhar é morrer. E trabalham e vivem.
E este meu amigo retoma a conversa no ponto em que deixei antes de o ouvir. “E sabes, continuou. Muitas vezes vou ao Continente ou a outra grande superfície, comprar o que ali não comprava, carne e peixe, e levo‑lhes sempre um pedaço de carne e de peixe que lhes deixo depois de ter feito as minhas compras na mercearia. Arranjo sempre uma desculpa, por vezes esfarrapada, mas tenho sempre que inventar, para lhes poder o que para eles comprei.
Uma geração que tem códigos de honra que não têm nada a ver com os tempos de hoje. Uma geração que aceitaria bem as sugestões de Merkel e dos seus vassalos, que sobretudo é preciso pagar a dívida, exatamente em nome da honra, é o que penso.
Uma geração que não entende a vida fora do trabalho. Fora deste, só a morte e ainda são novos para morrer, diz-me.
Tens razão, tens que imaginar, respondo. E lembrei-lhe uma verdade que o Padre da Igreja de S. João de Brito uma vez descobriu: os pobres que passaram a vida a trabalhar, não pedem, não esmolam. Dignos, preferem morrer de pé. Tens mesmo que imaginar e teres muita imaginação, acrescentei ainda, porque o teu casal de merceeiros é também desta mesma estirpe.
E lembro-me dos meus clientes que me davam comida. Dou um salto imaginário no El Corte Inglês e ouço-me a berrar para dentro de mim mesmo: mas que merda é esta, isto é pior que antes do 25 de Abril. Antes, os clientes davam-me comida, sempre que eu quisesse, sempre que eu não gostasse da que me era imposta, mas eu era marçano, era o fundo do fundo da escala de quem trabalha por conta de outrem. Agora, são os clientes que já não dão aos empregados, que já os não há, mas sim aos patrões. Do nunca visto, do nunca imaginado. E o 25 de Abril não foi feito para dar isto, para dar um 24 de Abril de bem antes, de muito antes do de 1974. Não, não e não, digo sem querer e já em voz alta.
E de novo sou assaltado pela visão da loja de brinquedos, hoje loja de coisas quase sem valor, lembro os meus passeios pelas ruas da Cova Piedade, observando e registando na minha memória as lojas que fecham e não mais abriram, as que fecham, abrem de novo e voltam depois a fechar. Imensas as lojas a viverem nesta dinâmica. Muitos delas são de gentes como os merceeiros deste meu amigo, perdidos nesta enorme floresta que se tornou a vida, à procura de um ramo de uma árvore a que se possam agarrar e sem o encontrar. Este vai e vem de lojas que se fecham para sempre, de lojas que abrem e estão sem clientes, de lojas que reabrem com outros donos mas de pouca permanência, mostram uma sociedade de párias, de gente sem rosto visível, e de vida completamente destroçada. Os tempos de hoje não lhes são favoráveis, diremos, os ventos de hoje sopram em sentido contrário ao das necessidades dos mais fragilizados, trabalhadores e pequenos patrões.
Quando pensei em patrões, foi entretanto assaltado pela ideia de uma situação tão paradoxal como a que me é contada pelo meu amigo e que se passou em Itália, exactamente a propósito dos pequenos patrões, de pequenos patrões que se suicidavam, por exemplo, porque não eram capazes de despedir os SEUS trabalhadores. Uma situação impensável, numa sociedade moderna, ou até em qualquer sociedade capitalista. Tão impensável como a situação que me contou o meu amigo, e esta sua história é o sinal de uma sociedade em profunda crise, a portuguesa, muito mais grave até do que a que se passou nas anteriores visitas do FMI com Mário Soares. Até por uma razão muito simples: os operários, os trabalhadores fabris ou de serviços ainda tinham uma retaguarda, o campo, o apoio das famílias que ai viviam. Hoje é o inverso: os produtores nos campos de então são os velhos de hoje e estes vivem das migalhas da cidade.
Falemos então de Itália. Nos anos de 2011 e 2012, em Itália o crescimento dos suicídios disparou e disparou mais ainda entre os pequenos patrões. Eram muitos os pequenos patrões que se suicidavam e o seu crescimento em taxa era talvez maior que o dos operários. Organizaram-se manifestações, vigílias.
Vale a pena lembrar o que se passou nesse país:
Desde o dia 1 de Janeiro de 2011, já se suicidaram 23 pequenos patrões italianos, segundo os dados publicados em 14 de Abril pelo Centro de estudos de CGIA, uma União de pequenos empresários e de artesãos. Face a este fenómeno que afecta toda a Itália – na Toscana, na tradição do “solidariedade”, até à Lombardia, na linha do “cada um por si” – uma forma de “rede de segurança” começou-se já a ser organizada.
Centros de escuta foram criados, como na província de Treviso, uma das mais industrializadas do país. Um número verde foi aberto para ajudar os empresários em dificuldade. As associações, como a Terraferma ou a muito Católica Caritas, instalaram uma rede de apoio e de escuta e na mesma sequência também a Confartigianato, o sindicato patronal dos pequenos artesãos .
“Esses suicídios são um verdadeiro grito de alarme lançado por quem já não pode mais.” ” As taxas, os impostos, a burocracia, a falta de créditos, os atrasos nos pagamentos, tudo isto têm criado um clima hostil que penaliza os empresários”, disse Giuseppe Bortolussi, Secretário de CGIA. “Muitos empresários consideram o suicídio como um acto de revolta contra um sistema surdo e insensível”.
“As pessoas sentem-se afogadas”
O governo é apontado a dedo, considerado o responsável. “ O meu pai matou-se por amor à sua empresa e aos seus empregados. “Ele vivia no terror de ter de os trair, de não ser capaz de lhes poder pagar os seus salários,” explicou Laura Tamiozzo numa carta dirigida a Flavia Schiavon, tornada pública pelo jornal diário La Stampa no dia 29 de Março. “Parece que o governo vive noutro planeta.” O plano de rigor de Monti não levará o país a sair da crise. “As pessoas sentem-se afogadas, as taxas aumentam e não há nenhuma ajuda para as empresas.”
Antonio Di Pietro, líder do partido A Itália dos Valores, acusa o Presidente do Conselho, Mario Monti, de ser o “responsável” por tais suicídios devido á política de austeridade e à caça muito mediatizada para as pessoas em situação de fraude para com o fisco que ele actualmente conduz.
(…)
Daniele Marini, director da Fundação Nordeste, que estuda o desenvolvimento económico e social da região, explica que, se é “difícil estabelecer um tipo de retrato destes empresários, pode-se no entanto identificar algumas características comuns”.
“A primeira é a dimensão modesta, senão mesmo mínima, das suas empresas, que na sua maioria exercem a sua actividade nos sectores bem definidos como a construção, o artesanato e outros. Depois, o facto de que, num sistema onde uma PME no nordeste está em média ligada a 274 fornecedores, os quais geralmente realizam cerca de 80% do produto acabado, todas as PME estão estreitamente ligados umas às outras”.
(…)
Se o suicídio mantém naturalmente a sua parte de sombra enquanto que morte de um ser humano, de uma identidade individual, o argumento de Durkheim é ainda actual na crise financeira por todo o mundo, e em especial na Europa: “o número de falências é um barómetro que reflecte com uma suficiente sensibilidade as variações pelas quais passa a vida económica.” “Quando, de um ano Para o outro, estas repentinamente se tornam muito mais, pode-se ter certeza que houve uma perturbação grave”.
(..)
Um sintoma social ou como a arma simbólica, as centenas de suicídios feitos separadamente por pessoas que não se conhecem acabam por se assemelhar a uma assinatura coletiva.
Uma assinatura colectiva, diz-se, penso eu, e sinto um frio pelo corpo todo. Abano a cabeça. Procuro algo em que me concentrar e esquecer o que me está a passar pela cabeça. Deixo de me interessar pelas gentes que passam à minha frente, gente elegantemente vestida e maquilhada que tem outras preocupações que não as minhas. Peço uma água das pedras, fresca. Bebo-a lentamente, concentrando-me nas bolhas desta água de sabor inimitável. Mas nada.
Olho para o jornal que tenho em frente, o Público, na altura. Fico segundos de olhos a olhar para as letras que não lêem e sou depois assaltado pela leitura de uma reportagem feita sobre as lojas a fecharem em Atenas publicado pelo Le Monde de outrora, pois o de agora é uma via elegante de transmissão das ideias de Bruxelas, lembro-me de um relatório da Cruz Vermelha Internacional, onde nos mostra por toda a Europa que o pior da crise ainda está para vir, quando os efeitos de desgaste se acumularem e se espalharem por todas as gerações, lembro-me de Tsypras ter levantado agora a questão da crise humanitária na Grécia, quando mais ninguém o fez, porque a precariedade que atravessa toda a Europa não tem nada a ver com a crise, como no-lo diz abertamente Passos Coelho, relembro tudo isto e lembro-me da frase de Conrad, em O Coração das Trevas “Exterminem todos estes brutos” que cito de memória, e que agora parece ter como versão moderna a expressão Exterminem todos estes pobres da Europa.
(continua)
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Para ler a parte I desta crónica de Júlio Marques Mota Sobre qual 25 de Abril?, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
SOBRE QUAL 25 DE ABRIL? uma crónica de JÚLIO MARQUES MOTA – I


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