25 Abril 2015 – Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”: “Grândola, Vila Morena”
Quando José Afonso, no Outono de 1971, esteve em Paris a gravar o álbum “Cantigas do Maio”, se tivesse à mão um grupo coral alentejano muito provavelmente o teria convidado para participar na gravação de “Grândola, Vila Morena”. E quatro anos depois, o Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” teve a feliz ideia de a gravar no seu primeiro disco, de título genérico “Castro Verde É Nossa Terra”. É essa magnífica versão, da qual a melodia e as palavras de José Afonso emanam com uma força que até arrepia, que aqui apresentamos no 41.º aniversário do 25 de Abril, o primeiro depois do reconhecimento do cante como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Afigura-se pertinente voltar a apontar o dedo à rádio do Estado pela reduzidíssima visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) que continua a dar ao canto alentejano, decorridos que são cinco meses sobre a data da consagração pela UNESCO. É verdade que, de vez em quando, o cante entra nos exíguos “Cantos da Casa” (sendo de enaltecer os cuidados do seu realizador, Armando Carvalhêda), mas isso representa uma quantidade infinitesimal no cômputo geral da programação. Quem, por imperativos profissionais ou outros, não esteve sintonizado na Antena 1 àquele preciso momento, perdeu a oportunidade de ouvir cante nas ondas hertzianas nacionais. E quem diz “cante”, diz outros tipos de música tradicional portuguesa – atitude essa que não pode, de maneira alguma, considerar-se razoável na estação de serviço público, que tem a obrigação de divulgar com a necessária e cabal consistência o património musical do país. Nos antípodas, com tratamento de privilégio, está a produção pop de baixo quilate, deixando transparecer a ideia de que é essa a música oficial do regime político vigente. Uma situação em tudo equiparável – acrescente-se – à do nacional-cançonetismo na Emissora Nacional, a antepassada da Antena 1. Quem disse que o dirigismo do gosto é exclusivo dos regimes totalitários?
Grândola, Vila Morena
Letra e música: José Afonso
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”* (in LP “Castro Verde É Nossa Terra”, Valentim de Carvalho, 1975; 2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)
Grândola, vila morena Terra da fraternidade O povo é quem mais ordena Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena Terra da fraternidade Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo Em cada rosto igualdade Grândola, vila morena Terra da fraternidade
Terra da fraternidade Grândola, vila morena Em cada rosto igualdade O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira Que já não sabia a idade Jurei ter por companheira Grândola, a tua vontade
Grândola, a tua vontade Jurei ter por companheira À sombra duma azinheira Que já não sabia a idade
Nota do autor: «
Pequena homenagem à “Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense”, onde actuei juntamente com Carlos
Paredes.» (in “Cantares”, de José Afonso, Tomar: Nova Realidade, 1966; 4.ª edição, Coimbra: Fora do Texto,