A IDEIA – SOBRE UM LIVRO DE ANTÓNIO TELMO – por AGOSTINHO DA SILVA [apresentação e transcrição de Pedro Martins]

 

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[O título é da nossa responsabilidade. Agostinho da Silva refere-se, neste seu escrito, a um livro de António Telmo, autor que, à data, havia apenas publicado Arte Poética (1963), presumivelmente oferecido a Agostinho, no Brasil. Todavia, quer pelo tom prefacial do escrito agostiniano, quer pelas sucessivas referências que ele encerra, seja à estrutura formal da obra de Telmo (uma “colecção de ensaios”), seja ao seu teor (maniqueísmo, priscilianismo, culto do Espírito Santo), é evidente tratar-se de outro volume que não aquele seu livro de estreia, e cujo paradeiro hoje se ignora. Na transcrição do escrito, procedeu-se à actualização da ortografia e à correcção de um ou outro lapso manifesto. António Telmo esteve entre 1966 e 1968 na Universidade de Brasília, onde conheceu Agostinho da Silva e com ele trabalhou. P. M.]

É bom reconhecerem os intuitivos ou poéticos uma vez por todas, mesmo quando tenham a habilidade de pensar e o talento de escrever como António Telmo os tem, que nada há no mundo de verdadeiramente compreendido, isto é, aprisionado numa cadeia de coerências, o que ainda é, apesar de tudo, um critério de verdade, que não indique no início ou no desenvolvimento um trabalho dos científicos, bastante maltratados neste livro, e se não deva à paciência, à erudição, à humildade, à modéstia crítica, à resignação do recomeçar que são qualidades do verdadeiro homem de ciência qualquer que seja o campo em que as exerça.

Parece, por outro lado, que se não aceita suficientemente que a parte mais importante da construção científica não é o colectar de dados e que ciência resulta fundamentalmente de uma invenção, de uma ideia criadora, de uma adivinhação, se assim se prefere, que depois é testada uma e outra vez pelo critério do fenómeno e posta implacavelmente de lado se um só facto parece opor-se ao que de início se apresentara como plausível. O científico é um criador, como o poeta, o músico ou o pintor e é ainda um de nossos primitivismos o de supor que cultura e ciência são dois domínios diferentes e que é mais culto o literato de esquina de livraria, que nunca raciocina em termos gerais e se encontra todo envolvido nas pequenas intrigas de suas medíocres prostituições, do que o químico ou o físico que buscam através de tudo leis universais e sistemas de comportamento válidos para qualquer lugar e para qualquer tempo, o que é, provavelmente, uma definição de cultura bastante válida.

É evidente que não são esses os que António Telmo quer atingir, como não devem ser também, dentro do domínio filológico – e era bom que, no campo da língua portuguesa, se deixasse definitivamente de dizer literário ou de letras – um Menéndez Pidal ou um Adolfo Coelho ou um Américo Castro ou um Lindley Cintra; o que tem em vista é assestar um bom golpe, golpe nada misericordioso do teólogo e do homem de acção que ainda estão sem emprego dentro do escritor, ou nos que se desviaram por força de seus temperamentos e convicções, poremos por exemplo um Menéndez Pelayo e um Teófilo Braga, ou nos que, por literatura falhada, recorrem à crítica e à história, e aqui não poremos exemplo, mas faremos um monte, futuramente incendiável, de todos os chamados suplementos culturais.

Combinaremos, pois, salvar um grande número dos que estavam já condenados ao inferno e, sobre essa concessão, faremos outra, a de que é extremamente útil haver por estes prados de caça o que poderíamos chamar de perdigueiros culturais, os quais são os que, embora ensinados, e com mão de ferro, pelos tais científicos – e o próprio António Telmo os vai com inteligência e saber disciplinando nas suas funções de professor de cultura latina na Universidade de Brasília – repousam, no entanto, muito mais nas suas qualidades de faro. Taxinomia e caça são, efectivamente, duas qualidades distintas e é bom que tenha sido o mundo provido das duas raças de trabalhadores; pena que tão frequentemente rosnem uns contra os outros, sem se reconhecerem companheiros e sem quererem confessar, posto que muitas vezes o aceitem, que uns aos outros se ajudam, por aquilo a que na história dos organismos se vai chamando de retroacção positiva.

O que António Telmo nos vai levantando neste seu livro ou colecção de ensaios e depois de, apesar de tudo, ainda dar um ar de sua graça académica no primeiro capítulo, é extremamente importante para o entendimento do que somos no mundo, nós galegos, ou nós brasileiros, ou nós portugueses. Bom seria que os científicos pusessem de lado a irritação que talvez o escrito lhes cause e averiguassem tudo o que por ali se diz a respeito de maniqueísmo na mentalidade de cultura lusíada, de priscilianismo ainda tão mal averiguado, de culto do Espírito Santo de que tão imperfeitamente se conhecem as ligações aragonesas e catalãs ou os caminhos sicilianos, de conceitos de paraísos futuros, que conviria talvez ir ligar com a história da Comuna de Münster e as ideias de Jan de Leide quanto a uma Quinta Monarquia e a uma segunda vinda de Cristo.

O mal dos nossos científicos não está propriamente em serem científicos, o que é excelente; está em se fazerem de científicos, como se bastasse para isso passarem seus concursozinhos de cátedra e ficarem depois remoendo, plácidos, a ração da alcofa oficial; e está muito em se educarem em escolas de Europa, aplicando depois ao que não é Europa, e espero nunca o seja, critérios europeus, casos de história cultural europeia, perspectivas europeias. O resultado é que nunca ninguém se debruçou sobre o complexo galaico-português, que vem desde Paio Soares e D. Sancho a José Régio e Castelao, quaisquer que tenham sido as aventuras da História, e daí, atravessando os mares, se enriqueceu produzindo o Brasil, futuro senhor cultural do mundo, com olhos verdadeiramente portugueses, porque só se encontra no exterior o que se é por dentro. O heterodoxo de pensamento e de vida que é António Telmo logo deu pela nítida linha heterodoxa que atravessa a cultura portuguesa, não como um fenómeno de menor importância mas como a espinha dorsal do que somos; o inquieto ou dividido que talvez seja logo tocou o maniqueísmo com um dos nervos-chave, e apenas um deles, que vai a medula fundamental por outros caminhos, como ele próprio o apontou quando viu como os maiores não foram maniqueístas e passaram, não com implicações de Nietzsche mas com algum colorido de Lao-tse e Zen, para além da linha do bem e do mal, do Céu e do Inferno, cujas bodas, mais que Blake, celebrou durante setecentos anos o melhor da literatura portuguesa.

Só os portugueses menores, e é óptimo que haja portugueses menores chamados Sá-Carneiro ou Régio, foram monovalentes; os grandes são plurivalentes, o que se liga ao mesmo tempo com valentia e valência; Camões, soldado, Bocage, marinheiro de navio e taberna, Antero, conspirador, todos eles tiveram a coragem de assinar com um nome só a sua obra; Fernando Pessoa, tímido desempregado de escritório, fez como o caramujo da Inês Pereira; não saiu senão à porta e foi lançando seus pedúnculos oculares, ou seus variáveis pseudópodos de ameba para aquela exploração do mundo do sol e da verdade a que não ousava ir, bravo inteiro guerreiro; tudo isto viu muito bem António Telmo.

Mas são só plurais os Portugueses? Talvez não. O maior no mundo não é ser isto ou aquilo, e já bastante se citou Pascal a este respeito. O que há de maior num Fernão Lopes ou num Vieira é terem sido tudo isto e aquilo; terem reunido numa gema única todas as livres rutilações da vida e terem, apaixonados, desapaixonadamente contemplado o verdadeiro além do bem e do mal que não vem de se ser do Tao, como ficou acima, mas de ser dele e de Confúcio, numa perfeita reunião dos contrários. Como o consegue o português? Sabendo que a noção de contrário não está no mundo mas no nosso espírito, pondo o universo como inteiramente objectivo e natural em si próprio e reservando para si toda a imensa e dolorosa carga de paixão e juízo, com o desejo de que ele próprio se torne, morto ou vivo, um ser natural na naturalidade dos seres; o ideal do português é ser coisa entre coisas, o que é talvez apenas outra forma de se ser deus entre deuses. Talvez, por isso tudo se tenha um dia de considerar como o maior dos nossos poetas, como o mais representativo dos portugueses, não um Camões, ou um Vieira, ou um Pessoa, mas um quasi obscuro homem, que viveu desconhecido numa aldeia e desconhecido morreu: Alberto Caeiro, tuberculoso e loiro.

Belém de Cachoeira, 7.3.68

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