Hoje começo por lhe dizer que a noite passada dormi mal. Nunca tomei comprimidos para dormir, nem calmantes, ou coisa parecida, felizmente. Mas esta noite cheguei a pensar que talvez fosse bom. Acredite que hoje não venho escrever-lhe só para o entreter. Nunca o fiz, e hoje ainda menos, insisto. Mas talvez ache estranho o que lhe vou contar. Antes de entrar no assunto propriamente dito, deixe-me descrever-lhe o que se passou ontem ao fim da tarde, quando eu chegava a casa, vindo da faculdade e de estar com a Maria da Luz. Julgo que já percebeu que a rua de Santo Ambrósio, onde eu moro, entronca com outra, que é a de Santa Eufémia, que é um bocadinho inclinada (a D. Gertrudes Acabadinho diz que é íngreme, mas já deve ter percebido que ela gosta bastante de exagerar) que vai dar lá baixo à avenida. Se subirmos a rua de Santa Eufémia até lá cima, vamos dar a um miradouro. É um bocadinho puxado mas como passeio não é mau. É frequente encontrarem-se por ali pessoas com ar de turistas, a subir ou a descer a rua. A vista lá de cima vale a pena o esforço. Mas, regressando ao que lhe estava a contar, vinha eu a dar a curva para começar a subir a minha rua, quando ouvi alguém a chamar-me. Olhei e vi a Maria Antónia a chamar-me. Fui ter com ela. Apostrofou-me (desculpe, ando a escrever mais caro. A Maria da Luz diz que é bom para os trabalhos futuros.) logo:
– Por aqui, tão tarde? Esteve com a serigaita desde de manhã, não é verdade? Ela puxa mesmo por si. Anda mais magro. Não me diga que é do trabalho.
– Boa tarde, Maria Antónia. Folgo em vê-la. Tem andado arredia – resolvi armar de vez em bem-falante.
– Pois olhe, vou-lhe contar uma forte. Imagine que o Álvaro foi preso. Está na esquadra, no Penhão. A D. Henriqueta mandou-me lá levar-lhe umas coisas, a pedido da D. Josefa. Mas logo à noite conto-lhe tudo. Já sabe. Às onze horas e cinco, esteja a empurrar a porta. Descanse, que fica alguma coisa para a doutoreca trincar.
Pois lá fui. Não se zangue, meu excelente amigo. Confesso que tenho continuado a “visitar” regularmente a Maria Antónia. Mas passando por cima dos “detalhes” que já conhece, vou contar-lhe o seguinte:
A Josefa, a Henriqueta e a Generosa são amigas desde há muito, como já sabe. Nasceram numa terra da Beira, e vieram para Lisboa ainda pequenas. Os pais da Josefa montaram logo uma mercearia, que na altura era na rua de Santa Eufémia, e conseguiram sobreviver com muita dificuldade. Tinham dois filhos, a Josefa e o Álvaro, e se ela ficava todo o dia a trabalhar na loja, o irmão (ele é um ano mais novo que a Josefa) começou logo desde muito novo a vaguear pelas ruas. Entrou na vida de ladrão, e, segundo me referiu a Maria Antónia, trazia o produto para casa. Houve muitas vezes que sem o que o rapaz abarbatava nas suas andanças, não teriam jantar em casa. Parece que o pai deles também chegou a andar no “trabalho de carteiras”. Mas foi internado num sanatório, uns cinco anos depois de terem chegado a Lisboa, e por lá morreu uns dois anos depois. A muito custo, a vida foi melhorando, a mãe da Josefa conseguiu manter a filha de fora das negociatas escuras, e entre as duas foram aguentando a mercearia. O Álvaro é que nunca mais deixou a vida do crime. Disse-me ainda a Maria Antónia, que a Josefa queixa-se muito, mas que adora o irmão. Que ele, antigamente, para além de trazer comer e dinheiro para casa, depois do pai morrer, apareceu na mercearia várias para espantar “colegas” que por ali “andavam”, a procurar tirar partido de só terem de enfrentar uma mulher (e também era bem doente, a mãe da Josefa) e uma miúda.
Entretanto, os pais da Generosa e da Henriqueta abriram a pensão, e lá se foram aguentando, alojando raparigas que faziam ali a sua vida. Também passaram por grandes dificuldades, mas, ao que parece, o pai era um homem muito certo e vigoroso, que se impunha a toda a gente. A toda, toda a gente não seria, mas pelo menos conseguiu que a família sobrevivesse, sem que as filhas seguissem o caminho das “pensionistas”. Chegaram a acusá-lo de ser chulo, mas a Maria Antónia disse-me que lhe garantiram que isso não era verdade. Ela nunca o conheceu, que ele morreu há alguns trinta anos, mas durante a nossa conversa lembrei-me de que o conheci, só assim de vista, quando comecei a rondar pela pensão, andava eu ainda no liceu. Mas as duas irmãs também tiveram sorte em a Henriqueta ter encontrado o Norberto. Que este, com todos os seus defeitos, tarado por rapariguinhas novas, ajudou-as também muito a segurar o barco.
A minha amiga Maria Antónia (é verdade, meu amigo, também gosto dela) foi-me contando estas coisas e outras pela noite dentro. De repente, dou por mim estendido na cama dela, muito confortável, é verdade, mas eram quase três da manhã. Por pouco não adormecia ali. A Maria Antónia olhava-me com um ar um divertido, mas acho que também um pouco afectuoso.
Entretanto, mesmo com a porta bem fechada ouvia-se o ressonar da Henriqueta. Tinha que me vir deitar. E se a Heloísa dava pela minha ausência? Levantei-me. Foi então que uma onda, uma sensação estranha, que não lhe sei explicar, subiu por mim acima, apertou-me, e tive de perguntar:
– Oh Maria Antónia, fazes ideia de que maneira a minha mãe terá conhecido a D. Henriqueta?
Ela olhou para mim, muito a direito, e bem… amanhã