ERA UMA VEZ por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Era uma vez…

Era uma vez um menino que andava na escola e brincava, brincava…

Era uma vez uma menina que andava na escola e ria, ria…

Um dia o menino começou a ficar triste e calado.

Um dia a menina começou a ficar triste e calada.

A tristeza destes meninos não tinha a mesma cara.

O menino fugia, fugia…

A menina batia, batia…

Ninguém reparava no menino.

Todos apontavam a dedo à menina que batia, batia…

O menino não era muito bom aluno.

A menina era boa aluna.

Estes meninos ficaram vazios.

Os olhos do menino eram os de um menino assustado.

Os olhos da menina eram os de uma menina revoltada.

O menino vivia a sofrer no corpo e na alma a sua existência.

A menina vivia a sofrer no corpo e na alma as noites na companhia do amigo do pai, na cama do pai.

O menino sofria em casa com a presença do tio.

Estes meninos filhos da Natureza e do acaso deixaram de ser crianças muito cedo.

Apesar de alguém olhar para eles com um sorriso nos olhos as suas infâncias nunca mais lhes foram devolvidas.

De lágrimas e de silêncio eram feitas as suas infâncias.

O menino não era ninguém, não era nada, era apenas lixo e, aí sim, tinha o seu trono: um caixote do lixo.

A menina era uma pessoa, não aceitava a sua dolorosa infância, procurou outro trono e rodeou-se de pessoas que a ajudaram a crescer.

O menino foi para casa de uma avó no Norte.

A menina continuou no seu bairro.

O tio do menino e o amigo do pai da menina eram agressores sexuais. Para eles não houve castigo. A agressão sexual não era ainda crime público.

Por causa de milhares de crianças sofredoras como estas, por causa da indignação social, por causa de instituições de apoio à criança, por causa de denúncias feitas pelas escolas, por assistentes sociais e pelos hospitais, o abuso sexual foi tornado crime público.

É crime público! Em boa o foi. Mas…e depois?

Depois, são pequenas árvores da floresta a quererem crescer no meio de árvores de grande porte. Mas há sempre alguma que consegue pôr um raminho de fora e fazer a diferença.

É por essa diferença que os meninos e meninas esperam para se sentirem pessoas de corpo inteiro e de alma cheia.

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