Era uma vez um menino que andava na escola e brincava, brincava…
Era uma vez uma menina que andava na escola e ria, ria…
Um dia o menino começou a ficar triste e calado.
Um dia a menina começou a ficar triste e calada.
A tristeza destes meninos não tinha a mesma cara.
O menino fugia, fugia…
A menina batia, batia…
Ninguém reparava no menino.
Todos apontavam a dedo à menina que batia, batia…
O menino não era muito bom aluno.
A menina era boa aluna.
Estes meninos ficaram vazios.
Os olhos do menino eram os de um menino assustado.
Os olhos da menina eram os de uma menina revoltada.
O menino vivia a sofrer no corpo e na alma a sua existência.
A menina vivia a sofrer no corpo e na alma as noites na companhia do amigo do pai, na cama do pai.
O menino sofria em casa com a presença do tio.
Estes meninos filhos da Natureza e do acaso deixaram de ser crianças muito cedo.
Apesar de alguém olhar para eles com um sorriso nos olhos as suas infâncias nunca mais lhes foram devolvidas.
De lágrimas e de silêncio eram feitas as suas infâncias.
O menino não era ninguém, não era nada, era apenas lixo e, aí sim, tinha o seu trono: um caixote do lixo.
A menina era uma pessoa, não aceitava a sua dolorosa infância, procurou outro trono e rodeou-se de pessoas que a ajudaram a crescer.
O menino foi para casa de uma avó no Norte.
A menina continuou no seu bairro.
O tio do menino e o amigo do pai da menina eram agressores sexuais. Para eles não houve castigo. A agressão sexual não era ainda crime público.
Por causa de milhares de crianças sofredoras como estas, por causa da indignação social, por causa de instituições de apoio à criança, por causa de denúncias feitas pelas escolas, por assistentes sociais e pelos hospitais, o abuso sexual foi tornado crime público.
É crime público! Em boa o foi. Mas…e depois?
Depois, são pequenas árvores da floresta a quererem crescer no meio de árvores de grande porte. Mas há sempre alguma que consegue pôr um raminho de fora e fazer a diferença.
É por essa diferença que os meninos e meninas esperam para se sentirem pessoas de corpo inteiro e de alma cheia.