RUI MÁRIO GONÇALVES – APRENDER A VER A ARTE MODERNA

Imagem1

Pintura de Nikias Skapinakis, “Os Críticos”, Rui Mário Gonçalves é o pimeiro à esquerda.

O amigo Adão Cruz enviou há dias um vídeo em que um tal Robert Florczak pergunta «Por que é a arte moderna tão má?»  – à pergunta, algo disparatada do professor americano, poderíamos responder assim: De um modo geral, pode dizer-se que as obras modernas realizadas durante o século XX não foram explicitamente solicitadas pelo público, mas resultaram essencialmente da  vontade dos artistas. A liberdade interior dos artistas que as produziram apela, porém, para a liberdade de cada um dos indivíduos componentes do público. A história da arte precede a história do gosto. São os artistas que estão formando o público. São palavras de Rui Mário Gonçalves na apresentação de um livro que, em 1991, organizámos, ele como autor, eu como editor.

Tive com Rui Mário Gonçalves uma relação de amizade que sempre se sobrepôs ao relacionamento profissional. Conheci-o em 1971 ou 72, quando iniciei a preparação da edição portuguesa de uma  História da Arte.  Muitos amigos comuns, gente ligada ao grupo do Café Gelo, sobretudo, criou uma cumplicidade que nos permitia um entendimento perfeito para além das divergências políticas a que nunca demos muita importância. Porque, estando de acordo nas questões básicas e no diagnóstico das situações que se viveram após 1974, discordávamos nas soluções. Discutíamos muito, mas nunca nos zangámos. Quando foi professor de minha filha, perguntando-lhe ao ler o seu nome se era minha familiar, fez-me um elogio perante a aula – O seu pai – disse – é um editor quese coloca sempre do lado do autor. Numa dedicatória aposta num livro que escreveu para a editora onde eu trabalhava, escreveu – «Para o Carlos Loures , em  homenagem ao surreal que o habita, e agradecendo o cuidado com que acompanhou esta obra, um abraço de admiração e amizade….»

Sabendo do corte de relações entre Mário Cesariny de Vasconcelos e a minha pessoa, decorrente de uma polémica violenta que, animou durante algumas semanas as páginas do jornal Letras & Artes,  tentou reconciliar-nos; mas a zanga do poeta era irredutível – eu estava banido para toda a eternidade! Durante um almoço, com ar compungido, comunicou-me a sentença inapelável – animei-o parafraseando o Raul Leal – «Se o papa me excomunga, eu excomungo o papa!»  E rimo-nos.

Uma coisa que o irritava profundamente eram opiniões como a deste professor e artista (?) norte-americano. Não desculpava a falta de humildade.  Apreciar a arte moderna implica uma aprendizagem – ver umas obras ensinam-nos a ver outras.  Mas a arrogância leva muitas pessoas a querer dispensar essa aprendizagem; perante as outras áreas do conhecimento, aceitam a necessidade de aprender a compreender, entendem que lhes basta olhar para um quadro para terem o direito de emitir um juízo.

Rui Mário Gonçalves, um excelente crítico de arte, um grande professor. Um bom amigo.

 

<

1 Comment

  1. Caro editor, eu de arte não percebo mesmo nada. Mas ao ver o (lamentável) video desse sr Florczak, enviado por um amigo, a minha reação foi esta:
    «Eh pá, tive o cuidado de ver o video até ao fim. Mas, desde muito cedo só me lembrava aqueles velhinhos que dizem “….no meu tempo é que era bom…..”. O que dirá este tipo dos cubistas e do Dali e semelhantes? Porque não relembra por exemplo que os impressionistas foram postos de rastos na época em que apareceram [pelos Florzacks de então…]?
    Eu não percebo de arte, mas lá que é subjetivo, ah isso é! Volta e meia encontro alguém que sempre pergunta qual o interesse de um quadro como o da Mona Lisa.
    E se entrarmos no campo da música………………..
    Como dizem os nuestros hermanos: “Para gustos, colores!” ».

Leave a Reply