LIBERDADE, LIBERDADE QUERIDA, ONDE ESTÃO SEUS DEFENSORES? – por RÉMY HERRERA

OBRIGADO A RÉMY HERRERA, INITIATIVE COMMUNISTE, DOUGLAS ESTEVAM e CAMILO JOSEPH

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Delacroix – a liberdade a guiar o povo

 

Liberdade, liberdade querida, onde estão seus defensores?

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Por Remy Herrera, professor da Universidade de Paris 1 e investigador no CNRS – Liberté, liberté chérie, où sont tes défenseurs ? #charliehebdo [une tribune de Rémy Herrera]

INITIATIVE COMMUNISTE, 3 de Fevereiro de 2015

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Os eventos dramáticos que aconteceram em Paris no início de janeiro intervêm num contexto de avanço das extremas direitas, do islamismo político assim como da islamofobia.

O presidente François Hollande disse: a França está em “estado de choque” e deve “se unir”. Que seja. Ele vai assim face a barbárie. A barbárie é assassinar a criança que vai à escola, é abater o transeunte que não teria a “boa religião”, é arrombar a porta de uma redação para assassinar os jornalistas porque o que eles escrevem, ou desenham, desagrada. É por isso, frente a essa barbárie, que tantos franceses querem que seu país continue a colocar tão alto entre seus propósitos a questão da liberdade de consciência e de expressão, da laicidade e da educação. Eles serão numerosos, muito numerosos mesmo e estarão completamente decididos a não recuar nem um passo face aos ataques que esses princípios progressitas sofreram. Reunir contra o fanatismo religioso e seu obscurantismo medieval é coisa fácil. Por outro lado, muito mais difícil – e principalmente sob o estado de emoção frente ao horror, em uma certa confusão naqual talvez também se veja o amigo e o inimigo políticos repentinamente  lado a lado, e que ofereça oportunidade de recuperações – muito mais difícil é se entender sobre a interpretação desses eventos dramáticos. Tanto sobre suas causas, ou as responsabilidades últimas e múltiplas, quanto sobre as consequências que se pode chegar ou as soluções que parece desejável explorar.

A França atacada… mas qual França?

O fato é que essa tragédia aconteceu na França. E certamente, não por azar. Essa França que, é certo, faz muito tempo, gerou uma revolução tão grande que deixou traços inesquecíveis, irreversivelmente positivos e da qual saíram os princípios fundamentais: liberade de expressão, inscrita já na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e leva adiante; laicidade, pela qual foi preciso lutar por ainda mais de um século, depois de 1789, para que ela estruturasse a sociedade; educação pública, com certeza, gratuita, obrigatória, promotora da República. Um país onde o racismo tinha recuado (tinha mesmo?). E inicialmente nos bairros mais populares, entre as famílias mais pobres, mais misturadas, anti-racistas e, no entanto, as menos bem tratas pelos nossos governos. País onde se via (víamos mesmo?), por toda parte e sempre, as culturas, cores e religiões se fundirem, a “mestiçagem” progredir, mais que em qualquer outro país na Europa. Um país que soube (será?) acolher gerações de estrangeiros, todos reputados em seu tempo como “problemáticos” mas finalmente “integrados” e que pode, que deve se orgulhar disso. Um país que conta com a mais importante “comunidade mulçumana”e a mais importante “comunidade judáica” da União Européia. Um país onde talvez não seja totalmente inimaginável que um dia as lutas de massas, orientadas internamente para o progresso social e exteriormente para a solidariedadde com os povos do sul, se coloquem de novo em movimento. Não é também o que essa França pode representar aos olhos do mundo o que esses fanáticos religiosos atingiram?

A liberdade de expressão… para melhor se calar?

Seria um acaso se os golpes desfechados contra essa França, essa mesma que nós queremos, essa de todos os combates anti-escravocratas, anticoloniais, anti-imperialistas, anti-fascistas, essa França que no momento atual se confronta com o desafio de reinsuflar os valores de progresso (do programa do CNR[1]), estabelecendo ao mesmo tempo uma sociedade de tolerância, seria realmente um acaso se esses golpesviessem também das políticas neoliberais acionadas pelas potências do dinheiro? Em breve teremos meio século dessas políticas que, através de seus ideólogos, se chocam contra a razão do Iluminismo, detratam a herança revolucionária – Robespierre, que aboliu os privilégios e a escravidão, seria o primeiro dos “terroristas”!-, abandonam a escola aos mercados e às capelas confessionais, vendem os serviços públicos que são, no entanto, indispensáveis para o exercício da cidadania, abandonam a soberania nacional, inflamam os comunitarismos e seus ódios, criminalizam a revolta desde que ela não é mais pro-sistêmica ou manipulável.

Tal é a linha da finança, tal será o dogma das mídias dominantes que lhe pertencem. Para formar, ou melhor, formatar a opinião. Qual liberdade é essa de que falam bruscamente os porta-vozes dos oligopólios financeiros, comerciantes de armas ou bilhonários “filantrópicos”? Ela se limita à besteria televisionada por esses cronistas econômico-político-esportivos retrógrados rivalizando em provocações? É o alcance esperado do debate democrático? O comprimento justo da coleira de um cão de guarda que rosna e late para agradar seu mestre e merecer seu osso?

Trata-se de defender a liberdade de um sistema que hoje silencia sobre os abusos do exército ucraniano na Bacia do Donets, assim como ontem sobre o despedaçamento da Iugoslávia pela Otan? E os gritos das crianças destroçadas em Gaza? São livres, essas mídias derramando seu fluxo incessante de propaganda contra os avanços revolucionários latino-americanos? É livremente informado o cidadão a quem não se diz nada (ou quase nada) sobre as inumeráveis vítimas das guerras que mutilam o mundo árabe-muçulmano desde a guerra do Golfo – na realidade, desde o fim da URSS? Mesmo quando essas vítimas, evidentemente que na maioria dos casos mulçumanas, e às vezes jornalistas, são executadas por fundamentalistas salafistas…

Responsabilidades…equitativamente divididas?

São essas potências da finança, a quem obedecem nossas mídias dominantes, que pressionam há vinte cinco anos o governo dos Estados Unidos a seguir uma lógica de guerra militar permanente. São elas que os dirigentes franceses atlantistasrenunciaram a combater para aceitarem se submeter a sua loucura destrutiva. Elas que, para manter a ordem tão violentamente desigual que impõem ao mundo, tem necessidade de retornar contra os povos do sul – e do leste – os trabalhadores do norte, contra os quais elas no entanto encabeçam uma guerra social. São essas potências que, no fundo, são responsáveis por esta barbárie de mil criaturas.

São delas essas criaturas que se tornaram demônios. Talibãs que os serviços estadunidenses incubaram, formarame lançaram contra os comunistas afegãos apoiados então pelos soviéticos. Integralistas da FIS[2]degolando na Argélia, mas dispondo de escritórios em Washington. A AQMI[3] semeando o terror no Mali, mas que surgiram do caos no qual a França (do presidente Sarkozy) mergulhou a Líbia de Mouammar Khadafi (ao mesmo tempo autocrata e muralha contra o integralismo). Dae`ch[4]agora, fruto envenenado da invasão do Iraque de Saddam Hussein (autocrata e anti-integralista) pelos EUA, mas também fruto da ajuda militar da França (desta vez do presidente Hollande) aos “opositores moderados do regime sírio” (Al-Nosra[5] até o fim de 2012?) e do apoio da Arábia Saudita e do Qatar, financiadores do terrorismo e aliados dos EUA e da França (e, portanto, de Israel). Essas criaturas serviram e servem ao interesse comum dos imperialistas. Evidentemente não por toda parte e nem sempre, mas muitas vezes e em muitos lugares. Por que elas não serviriam ainda no futuro, de uma outra maneira? Por exemplo, ganhando para sua causa guerreira a maioria das classes populares do norte? Aqui está toda a utilidade das “perturbações” islamofobistas atuais.

Será então preciso uma guerra contra o Irã, quando seus Pasdarans[6] são, com os Peshmergas[7] curdos (e com certeza os combatentes do PKK[8], considerados como “terroristas” pela Turquia do Recep Tayyip Erdogan[9] e Bruxelas), os mais eficazes para conter a marcha de Dae`ch? Precisará encarniçar-se, na Síria, contra um outro autocrata, lutando ele também contra o integralismo? Uma guerra aberta contra o Yémen, o Paquistão? E depois? Uma outra ainda na Russia? Na China? Será preciso mais sangue, ruinas e miséria? Uma terceira guerra mundial? Deixaremos saquear o globo inteiro para que alguns proprietários continuem a nos escravizar? Quantos erros reconheceremos depois, quantos mortos vamos contar para compreender? Estas são as vozes da desrazão, esta é a via do caos.

Não se encontra na França “livre”, “democrática”, “civilizada”, nem no Norte em geral, um único canal de televisão suficientemente progressista e alternativo – do tipo da Telesur na América Latina, por exemplo – para tolerar uma exposição argumentada, justificada, prolongada, repetida por uma chamado de paz com estas palavras: não às guerras imperialistas, não às injustiças capitalistas que são na sua origem, não aos racismos que são seus efeitos!

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[1] O Conselho Nacional de Resistência – CNR organizou e articulou as diversas forças socias que resistiram ao governo de Vichy e à ocupação da França pela Alemanha nazista.

[2] Frente Islãmica de Salvação

[3] Al Qaida no Magreb Islâmico

[4]Estado Islâmico do Maxerreque

[5]Frente da Vitória para o Povo da Grande Síria

[6]Exércitos dos Guardiães da Revolução Islãmica

[7] Grupos armados do Curdistão

[8]Partido dos Trabalhadores do Curdistão

[9]Presidente da Turquia desde agosto de 2014. Foi primeiro ministro de 2003 a 2014.

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Ver o original em:

http://www.initiative-communiste.fr/articles/culture-debats/liberte-liberte-cherie-ou-sont-tes-defenseurs-charliehebdo/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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