CONTOS & CRÓNICAS – MAURÍCIO VILAR VAI COMPRAR UMA CANETA E ENCONTRA UMA SENHORA DE IDADE – por João Machado

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Imagine o meu amigo que hoje fui comprar uma caneta. É sábado, e não fui à faculdade. A Maria da Luz foi passar o fim de semana à Covilhã, e deixou-me uma série de coisas para fazer. Imagine que até me fez uma lista. Incluiu desde os títulos de vários textos para ler, que daqui a três semanas começam os exames finais, e eu ainda tenho duas cadeiras para fazer, passar coisas a limpo, entregar um requerimento dela na secretaria na segunda-feira, porque ela só vem na terça-feira e continua com uma ideia fixa de melhorar a nota de uma cadeira em que acha que foi prejudicada, até eu ir à loja escolher uma caneta para mim. Disse-me ela há dias (é melhor não dizer em que altura foi, pois não o quero escandalizar):

– Mauricinho, temos muito que fazer. Não chega fazer os exames que nos faltam com boa nota. Para começarmos a trabalhar, logo a seguir às férias, temos de estar bem preparados. Não chega conhecermos bem o direito, a economia. De pouco vale se não nos soubermos apresentar convenientemente. É importante apresentarmos um currículo bem elaborado, para começar. Mesmo que nunca tenhamos feito nada de particularmente relevante, há técnicas para conseguirmos arranjar um currículo apresentável. E sobretudo temos de nos apresentar bem.

– Como? – comecei a ficar bastante preocupado.

– Então, menino – fez-me umas festinhas que não lhe vou descrever.- Tem de andar bem arranjadinho. Um bom corte de cabelo. Casaco, gravata e uma camisa nova. Trazer na mão uma boa pasta. Computador portátil. E uma boa caneta para escrever notas na agenda, ou num bloco-notas novinho em folha. Deste modo, é sucesso garantido.

– É pá! Isso tudo é uma data de massa – foi o que eu consegui responder.

– Mauricinho, tem que se investir. Vamos começar a tratar disto já. Durante esta semana e na próxima estamos com muito trabalho, mas no fim de semana tenho de ir à terra. Não vou lá há quase dois meses. No sábado podias ir à Baixa e ver umas roupas. E uma caneta. Uma boa caneta. Uma que seja recarregável.

– Uma caneta recarregável? – perguntei eu aterrado? – Nunca usei uma coisa dessas. Quando entrei para a faculdade, a minha mãe ofereceu-me uma de tinta permanente. Ainda a devo ter, nalguma gaveta.

– Para essa já não deve existir tinta apropriada. Vê se descobres uma Montblanc. Ou uma Schiffer’s. Daquelas com cartuchos recarregáveis. Com uma assim na mão, fazes um sucesso em todas as entrevistas. Se vires uma de que gostes, compra-a. É para te ires habituando. Olha, eu ofereço-ta.

Dito isto, estendeu-se toda para alcançar uma gaveta da mesinha de cabeceira, tirou de lá umas notas e passou-me cem euros para a mão.

– Mas, mas… – gaguejei eu, todo purista – não quero que me dês o dinheiro.

– Não sejas tolo.

Não lhe conto como é que ela me calou. Mas talvez ache isto que lhe estou a contar é um completo disparate. Que eu não me devia preocupar com coisas tão insignificantes. E que a Maria da Luz se preocupa excessivamente com as aparências. Mas deixe-me continuar. Espero não estar a aborrecê-lo com isto tudo.

Hoje de manhã, expliquei à minha mãe que tinha de ir comprar uma caneta. Ela olhou-me, um pouco preocupada, e eu expliquei:

– Foi a Maria da Luz. Quer oferecer-ma. É para começarmos a ir a entrevistas para arranjarmos trabalho.

– Ah, muito bem. E onde vais comprá-la?

– Talvez vá à Baixa.

– Aqui na Avenida também encontras em várias casas. É melhor veres primeiro com cuidado.

Eram umas dez da manhã quando saí de casa. Desci calmamente até à avenida. Felizmente, o tempo estava bom, não muito quente. Senti-me muito calmo, para variar da lufa-lufa dos últimos tempos. Observei as raparigas que passavam, coisa que não fazia com vagar sei lá há quantos meses. Parei na Primorosa que, acredite, consegue ser bem melhor que a Esplendorosa, aquela mesmo ao pé da minha casa, de que já lhe tenho falado. Bebi um café e comi um brigadeiro. Senti-me regalado, acredite. Realmente, é bom às vezes ter um pouco de liberdade. Já sei que se vai rir de mim, que acha que o meu problema é eu ter liberdade a mais. Embora me pareça que, ultimamente, tem mudado um pouco de opinião.

Um pouco mais abaixo, numa praceta, onde há muitas lojas de proprietários de diversas origens, comecei a observar, a ver se via canetas à venda. Cansei-me e fui-me sentar num banco, ao lado de uma senhora idosa. Dirigiu-se-me, num tom bastante educado:

–  Diga-me por favor, tem horas?

– Sim, minha senhora. – Consultei o relógio – são dez e meia.

– É cedo ainda. – Olhou em volta. – Desculpe a pergunta. Mora por aqui? Prometi ao meu neto que lhe comprava um caderno, e não sei onde fica uma papelaria.

Não fazia ideia onde seria a papelaria mais próxima. Mas tive uma inspiração, e disse à senhora:

– Talvez no supermercado. No largo da igreja, fica mesmo em frente.

– Costuma lá ir?

– Às vezes. – Confesso-lhe que comecei, não sei porquê, a ficar farto da senhora. Ela respondeu-me

– Obrigado pela informação, cavalheiro. Não o quero aborrecer. Desculpe. – E levantou-se, para se ir embora

Fiquei preocupado. Teria deixado transparecer o meu aborrecimento?

– Não me aborrece nada. – afirmei, com bastante má fé. E arrependi-me logo, pois ela voltou a sentar-se imediatamente.

– É muito amável. Em minha casa, estão sempre a dizer-me que sou muito chata e que me meto em tudo. – Riu-se. – Só os quero ajudar. Moro com o meu filho, a minha nora e os meus dois netos. Não me deixam fazer nada. Hoje, depois do pequeno almoço, não quiseram que eu arrumasse a louça, nem que fosse estender a roupa. Os meus netos não quiseram ajuda para os trabalhos de casa. A única coisa que me deixaram fazer foi vir comprar o caderno. E agora, se não fosse o senhor, uma pessoa tão agradável, nem saberia onde me dirigir.

– Mora com eles há muito tempo? – atrevi-me a perguntar.

– Há uns dois anos. Desde que morreu o meu marido. Vendi a minha casa, para ajudar o meu filho a comprar a dele. A minha era pequena, mas para mim e para o meu marido chegava perfeitamente. A do meu filho é nova e muito maior. Com o dinheiro que lhe dei, conseguiu amortizar só uma parte. Mas sempre ficou mais aliviado.

Fiquei quase sem ar. Não sabia o que dizer à senhora. E que poderia eu fazer? Nada, claro. De repente lembrei-me da lista da Maria da Luz. Levantei-me e disse à senhora:

– Desculpe. É que tenho uma coisa urgente a fazer. Gostava de falar mais um pouco consigo, mas não posso.

Cumprimentei-a e fui avenida abaixo, até à Baixa. Vi algumas belas turistas, louras e morenas. Olhei vagamente as montras. Mas consegui encontrar uma papelaria com umas boas canetas na montra. Escolhi uma, que acho que vai satisfazer a Maria da Luz, e também a Heloísa. Fiquei a pensar se não deveria ter convidado a velha senhora do banco a vir comigo. Na papelaria havia tantos cadernos, alguns em saldo.

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