A figura de Karl Marx transcende a de um filósofo ou a de um economista – mesmo que não a de um mero filósofo ou a de um simples economista. Karl Marx transformou, não a sociedade como preconizou, mas toda a maneira de pensar a política e, ainda no século XIX, em todo o século XX e já neste século XXI, o marxismo e o anti-marxismo dominam a cena política ou, pelo menos, a linguagem das Ciências Humanas e Sociais, a Ciência Política, eivadas de conceitos marxistas e dos anti-conceitos, profundamente impregnados o negativo pelo molde do positivo. Homenageamos Marx sem ser com uma nota biográfica que podeis ler em qualquer enciclopédia, mas lembrando a importância que, a três anos do seu bicentenário, conserva.
A linguagem marxista entra com frequência no discurso de direita. E muitas formulações do neo-liberalismo são construídas com uma terminologia marxisante. A direita invadiu o território «sagrado» da esquerda e, ao invés, o «pragmatismo», ou seja, a rendição ao que parece inevitável, assalta, por vezes, gente que globalmente é de esquerda. Os partidos de direita regem-se, tal como os de esquerda, por um sistema que tem a ver com o «centralismo democrático» e, por vezes, no discurso oficial da esquerda entram conceitos subsidiários da moral burguesa.
E para definir esquerda recorremos a duas recorrentes ajudas – ao poeta francês Jean-Arthur Rimbaud, que disse ser preciso «mudar a vida». E a Karl Marx que, embora, como Engels, nunca tenha dito ser «de esquerda», afirmou que era indispensável «transformar o mundo». A mudança da vida, isto é, dos valores mercantilistas e da lógica consumista, que regem a sociedade em que vivemos, e a transformação do mundo, ou seja a Revolução que varra as desigualdades, as injustiças sociais, são duas excelentes definições do que deve enformar um pensamento de esquerda. Quem aceita os valores actuais como bons e apenas lamenta que nem todos tenham acesso a bens de consumo, não quer mudar a vida – apenas contesta a forma como a distribuição da riqueza é feita. E muito menos quer transformar o mundo. E é esse conformismo, essa aceitação dos modelos políticos e sociais que nos foram impostos que parece retirar força à esquerda.
Marx é uma figura dominante da História da humanidade. E dois séculos depois continua a fazer da Utopia dos que anseiam por um mundo justo e por uma terra sem amos.
