A IDEIA – CARTA INÉDITA DE ARNOST BUDIK A CRUZEIRO SEIXAS

ideia1

Arnost Budik

51/109 rue du Bon Pasteur

1140 Bruxelles

Belgique

le 12/9/2013

Cher ami Artur,

Je vous remercie pour votre lettre que j’ai reçu en retard, parce que comme chaque année je suis à Brno trois ou quatre mois comme d’habitude.

On a organisé une grande exposition, que vous connaissez bien parce que vous avez y participez en raihaussant si on peut dire ‘le niveau de la collection’.

Cette fois nous avons aborder le sujet très intéressant – l’érotisme. Avec une subtilité extraordinaire – aucune vulgarité mais beaucoup de poésie. Il n’y jamais de trop – de poésie, malheureusement c’est une chose très rare.

J’admire votre ouverture vers le monde, votre éternelle jeunesse, il y a tant de choses ce qu’on pourrai mesurer votre vitalité seulement para un simple regard sur vos œuvres plus ou moins récentes…

C’est dommage que le Portugal est relativement très loin, géographiquement parlant. Mais vos présences dans le cadre de nos expositions diminue l’espace – tout devient possible.

Cher Artur, j’espère que vous avez reçu notre dernier catalogue et j’espère qu’ils vont suivre.

Encore une fois merci pour votre lettre.

Bien amicalement

Arnost

NOTA DE APRESENTAÇÃO

Arnost Budik nasceu em 1936 em Brno, capital da Morávia, na fronteira da actual República Checa com a Eslováquia. Estudos na universidade de Lovaina, na Bélgica, em História de Arte. Membro do Movimento Surrealista Checo. Fundador da revista surrealista internacional Stir Up – Styx, tem cidadania belga, vive parte do ano na Bélgica e outra em Brno, onde organiza mostras anuais de pintura. O surrealismo tocou na antiga Checoslováquia sucessivas gerações de poetas e de artistas plásticos, desde que Vitezlav Nezval (1900-1953) e Karel Teige (1900-1951) no início do ano de 1934 criaram, em Praga, o primeiro Grupo Surrealista checoslovaco. É provável que em nenhum outro país da Europa o surrealismo tenha tido um impacto tão precoce, tão fundo, tão duradouro. Arnost Budik, tocado pela acção surrealista no país desde o final da década de 50 do século XX, é um dos admiráveis exemplos desta intervenção. Ligado às actividades surrealistas que viram a luz durante a Primavera de Praga de 1968, antes de mais a grande exposição internacional em Abril “Princípio do Prazer”, Budik, com a invasão soviética de 21 de Agosto do mesmo ano, refugiou-se na Bélgica, onde prosseguiu e prossegue a sua acção. Solidário com o manifesto dos exilados surrealistas, “Ninguém há-de calar a Primavera”, que Cesariny incluiu na magna antologia Textos de afirmação e de combate do movimento surrealista internacional (1977: 247-253). Na mesma colectânea, reproduz-se capa de panfleto poético de Arnost Budik, À mi-chemin d’ici à là – accusation surréaliste (1971), classificado por Cesariny como “um notável livro de poemas” (p. 247).

Foi no quadro das primeiras acções do grupo de Praga que André Breton, Paul Éluard e outros visitaram Praga entre Março e Abril de 1935. A 29 de Março, Breton pronunciou uma conferência, diante de 700 pessoas, “Situation surréaliste de l’objet”, texto integrado hoje em Position politique du surréalisme. Pouco depois, a 1 de Abril, faz nova intervenção pública, num comício da Frente de Esquerda (Levá Fronta), “Position politique de l’art aujourd’hui”, também incluído no mesmo livro. O texto refracta bem as urgências políticas da época, com a consolidação do nazismo na Alemanha, a divisão da esquerda depois da revolução russa de 1917, primeiro com o afastamento dos anarquistas e depois dos trotskistas. As variáveis em jogo terão um epílogo trágico, quase imediato, no golpe fascista espanhol de Julho de 1936, nos processos de Moscovo em Agosto de 1936 que terminaram na execução de parte da velha guarda bolchevista (Kamenev e Zinoviev), nas jornadas de Barcelona de Maio de 1937, na derrota definitiva da República no Inverno de 1939 e no rebentar da segunda grande guerra no Outono do mesmo ano. Com a anexação dos Sudetas em 1938, o desmembramento da recente República Checoslovaca pelos nazis e por fim a ocupação do país pelos alemães, os surrealistas de Praga dissolvem-se. Uns passam à clandestinidade, outros exilam-se. Dos que ficaram, alguns desapareceram na guerra, como Stirský. Com a queda do nazismo, o grupo de Praga volta a reconstituir-se e resiste três curtos anos, até 1948, altura em que o partido comunista toma o poder. A vitória do estalinismo foi ainda mais dura para o surrealismo na Checoslováquia do que o nazismo. Dos primitivos surrealistas, Nezval alinhou pelas posições estalinistas e abjurou o surrealismo, tornando-se no “poeta nacional”, Toyen (Maria Germinova) exilou-se em Paris em 1948 onde veio a falecer em 1980, Karel Teig ficou, bateu-se pelo surrealismo, foi detido e morreu em 1951. O mesmo sucedeu a Zavis Kalandra, condenado à morte em 1950, na primeira grande purga política do novo regime, em que os surrealistas foram acusados de tentarem sabotar o partido. O surrealismo na Checoslováquia nasceu no quadro da ligação de Breton e do grupo de Paris à denúncia dos processos de Moscovo e do seu apoio à revolução social espanhola de 1936; foi, por esse motivo, denunciado entre 1948 e 1950 como um dos mais perigosos grupos da nova sociedade. O surrealismo não morreu porém e terá depois do desaparecimento de Kalandra e de Teig sucessivos animadores até à explosão de 1968, que marcou o nascimento duma nova fase, que só com a queda da União Soviética já na década de 90 e o desmembramento do país chegou ao fim, permitindo que muitos exilados regressassem ao país, ao menos de forma sazonal, como foi e é o caso de Arnost Budik.

Esta carta foi-nos dada para publicação por Cruzeiro Seixas, a quem vivamente agradecemos. As relações de Budik e Cruzeiro Seixas são recentes e datam de 2008. A carta está dactilografada (duas últimas linhas manuscritas) e dela deixamos de seguida uma versão: Caro Amigo Artur, /Agradeço-lhe o seu livro, que recebi com atraso, já que como acontece todos os anos fui a Brno três ou quatro meses. / Organizámos uma grande exposição, que você bem conhece, visto que nela participa, elevando, se assim se pode dizer, “o nível da colecção”. / Desta vez abordámos um caso altamente interessante – o erotismo. Com extraordinária subtileza – sem qualquer vulgaridade e muita poesia. Nunca esta é de mais – a poesia, infelizmente é coisa muito rara. / Admiro a sua abertura ao mundo, a sua eterna juventude; há tantas indicações da sua vitalidade que podiam ser medidas apenas com um simples olhar sobre as suas obras mais ou menos recentes. / Que lástima Portugal estar relativamente longe, geograficamente falando. As suas presenças nas nossas exposições diminuem todavia o espaço – tudo se torna possível. / Caro Artur, espero que tenha recebido o nosso último catálogo e outros se seguirão. / Mais uma vez obrigado pela sua carta. / Com muita amizade / Arnost [ACF]

Leave a Reply