O GIGANTE COM PÉS DE BARRO – de PHILIPPE LEGRAIN – II

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Philippe Legrain, Don’t envy Germany-Its success is lauded by politicians of all stripes, but the model is breaking down/Le colosse aux semelles de plomb

Prospect – the leading magazine of ideas/Books – le monde à la lumière des livres, 20 de Agosto de 2014/Dezembro de 2014 

(conclusão)

Ligados pela burocracia

Mas há sinais de mudança no ar. Depois do falhanço dos seus precedentes parceiros, os liberais do FDP perderam todos os seus assentos no Parlamento aquando das últimas eleições, o CDU de Angela Merkel teve que formar uma grande coligação com os social-democratas (o SPD). Estes exigiram a criação de um salário mínimo de 8,50 € da hora (progressivamente será posto em lugar daqui até 2017). Cerca de um assalariado em cada quatro ganhava menos que em 2011 na antiga na Alemanha Oriental, e um em cada sete na antiga Alemanha Ocidental. Da mesma maneira que, à escala nacional, metade do pessoal dos hotéis e dos restaurantes, e um quarto dos empregados da distribuição. Mas se a instauração do salário mínimo vai provocar um aumento bem-vindo dos mais baixos rendimentos, nada diz que os outros receberão o que deveriam – em especial na indústria.

Visto da Grande-Bretanha, onde a indústria representa 10% do PIB   (6), a gigantesca indústria alemã pode parecer uma força. Não é no entanto uma vantagem tão forte como se tem dito. Primeiramente, fabricar objectos não tem nada de excepcional. Produzir automóveis tem mais valor que os cuidados de saúde? Fazer máquinas de lavar é mais importante que programar computadores? O sector industrial ocupa um lugar ainda mais importante na República Checa, na Irlanda e na Hungria. Será que isso faz destes países economias mais prósperas do que a Alemanha?

O essencial, não é o que as pessoas fazem, mas o valor acrescentado que produzem– e mesmo na Alemanha, mais dos três quintos do valor acrescentado provém dos serviços. Infelizmente, a produtividade nestes sectores – que vão desde os transportes às telecom passando pela distribuição e pela restauração – é frequentemente lamentável, nomeadamente porque estão amarrados pela burocracia. A regulamentação dos serviços é mais apertada na Alemanha que em vinte e dois dos vinte e sete países que figuram na classificação da OCDE. Nas profissões liberais, que representam um décimo da economia alemã, as regras rígidas ditam quem pode na verdade oferecer tal tipo de serviço, as despesas que os profissionais são autorizados a fazer e como podem fazer a sua publicidade. Por exemplo, somente os farmacêuticos diplomados podem possuir farmácias, e não mais de quatro. Os outros comércios não lhes podem fazer concorrência, mesmo para os medicamentos sem prescrição   (7). Em numerosas profissões, o investimento feito por terceiros (exteriores à profissão) é regulamentado.

Esta fraqueza dos serviços é preocupante porque a indústria não vai provavelmente continuar a desafiar por  muito tempo a gravidade. A exemplo da agricultura antes desta, o sector transformador tende, com o tempo, a ter cada vez menos peso na economia – isto é verdade  mesmo na China, a fábrica do mundo. À medida que a tecnologia se aperfeiçoa e melhora, todos nós seremos capazes de fabricar produtos de melhor qualidade e cada vez menos caros. E mais as pessoas se enriquecem, mais elas preferem consagrar uma parte importante dos seus rendimentos aos serviços – férias, saúde, ajuda aos domicílios – do que estar a acumular objectos. A dependência excessiva da Alemanha relativamente à sua indústria torna-a por conseguinte vulnerável. Se a sua economia não se adaptar, arrisca-se a ser atingida duramente por uma baixa da procura para os seus bens manufacturados, nomeadamente porque a China sobe na sua cadeia de valor e porque as suas empresas começam a fazer concorrência directamente aos produtos alemães de elevada gama. Nos domínios onde as firmas germânicas têm já de enfrentar plenamente os seus concorrentes chineses, em especial na fabricação de painéis solares, os alemães não souberam melhorar os seus resultados e pediram à União europeia que tomasse medidas proteccionistas. A posição da Alemanha é tanto mais precária quanto assenta a sua força em metade das suas exportações sobre quatro sectores – o automóvel, as máquinas, os aparelhos electrónicos e os produtos químicos.

O aumento dos preços da energia constitui uma ameaça imediata para as indústrias que são grandes consumidoras, como a química. O custo da electricidade já mais do que duplicou desde o ano 2000. E de acordo com um estudo do gigante SIEMENS, as empresas alemãs gastam quase três vezes mais com a electricidade que os seus concorrente americanos, que beneficiam da revolução do gás de xisto aos Estados Unidos. Cereja sobre o bolo, o Estado prevê sair progressivamente da energia nuclear para a substituir pelas dispendiosas energias renováveis, rejeitando ao mesmo tempo a exploração do gás de xisto, que é mais barato.

Se a Alemanha quiser prosperar amanhã, a sua economia deverá adaptar-se. Infelizmente, esta está  frequentemente artrítica. Os mercados de produtos são muito regulamentados, o que limita a concorrência e privilegia as empresas em vez dos potenciais concorrentes, e privilegia mais os interesses dos produtores do que os dos consumidores. As reformas Schröder contribuíram certamente para criar empregos de baixo de gama e incitaram os desempregados de longa duração a reencontrar um emprego, mas não tornaram o mercado do trabalho mais flexível ”. Com efeito, é mais difícil despedir um trabalhador em CDI na Alemanha do que em qualquer outro país da OCDE. E isto não se resolve: de acordo com a OCDE, Berlim lançou desde 2007 menos  reformas favoráveis ao crescimento do que qualquer outra nação desenvolvida. Resultado, a sua economia é mesmo muitíssimo rígida e letárgica. O país sabe reduzir os custos, mas não sabe mudar de direcção.

A Alemanha enfrenta também um desafio demográfico particularmente sério, que vai travar o crescimento futuro. A sua população é a mais velha da União Europeia, com uma idade média de 46 anos, contra 40 na Grã-Bretanha   (8) e 36 na Irlanda. Extrapolando a partir das tendências actuais, a Alemanha contará menos habitantes que a Grã-Bretanha ou  a França nos anos de 2040. Sem um milagre em termos de produtividade ou um afluxo de imigrantes, esta realidade significará então  uma redução proporcional da dimensão da sua economia.

 Um país de população envelhecida, onde as remunerações (e por conseguinte as despesas) sejam fracas, o investimento anémico e onde o Estado não vai aos mercados obter fundos produzirá sempre um enorme excedente de poupança   (9) – ou seja um excedente da balança corrente. Vê-se nisto e muito frequentemente um símbolo da competitividade alemã. Mas se o país tem êxito a este ponto, é porque as empresas não querem investir na Alemanha.

Um credor igual à China

Em consequência dos seus excedentes, Berlim tornou-se o maior credor da Europa. Em 2000, os activos alemães no exterior excediam apenas um pouco mais das suas dívidas. No fim de 2013, a sua posição líquida no que diz respeito ao estrangeiro atingia a soma colossal de 1.300 mil milhões de euros – quase tanto quanto a China. Em plena crise da dívida, esta situação de credor líquido confere uma enorme influência à Alemanha. Mas os seus empréstimos ao estrangeiro frequentemente foram mal investidos. Durante os anos de bolha financeira, igualmente os seus colossais bancos privados, como Deutsche Bank e o Commerzbank, assim como os bancos públicos dos Länder colocaram dinheiro nos duvidosos créditos hipotecários americanos, financiando igualmente as bolhas imobiliárias espanholas e irlandesas, alimentado a forte expansão do consumo em Portugal e emprestado imprudentemente ao Estado grego, que se tornou insolvente. Contrariamente ao mito segundo o qual os contribuintes alemães, depois, teriam resgatado a Europa do Sul, os seus empréstimos aos Estados da Europa do Sul resgataram sobretudo os bancos e os investidores alemães que tinham tão mal investido a sua poupança no período antes da crise.

Um estudo do Instituto de Investigação Económica de Berlim considera que a Alemanha teria perdido 600 mil milhões de euros, o equivalente de 22% do seu PIB, sobre a valorização da sua carteira investida no estrangeiro entre 2006 e 2012. Actualmente que a Alemanha teme as perdas sobre os seus empréstimos aos estrangeiros, é particularmente perverso continuar a acumular excedentes, obrigatoriamente investidos no exterior. Quando se tornar claro que os devedores não podem ou não querem pagar – o que a recusa alemã de contribuir para o crescimento europeu torna ainda mais provável –, a sua enorme exposição ao risco estrangeiro conduzi-la-á a pesadas perdas.

Os excedentes tanto elogiados da balança corrente alemã são o sintoma de uma economia doente, não de uma economia sã. A estagnação dos salários amplifica os excedentes das empresas, enquanto a fraqueza das despesas, a sufocação do sector dos serviços e a atonia doas empresas startup restringem o investimento, o que tem como efeito desperdiçar a poupança no estrangeiro.

“Das Modell Deutschland” [o modelo alemão] deve ser repensado e com toda a urgência. Os assalariados devem gozar dos frutos do seu trabalho  através de salários mais elevados. Para criar o nível de vida a longo prazo, as instâncias de decisão devem concentrar-se sobre a melhoria da produtividade, mais do que sobre a da competitividade. É necessário investir mais no crescimento futuro, primeiro modernizando as infra-estruturas degradadas do país e o seu sistema educativo em decomposição. É necessário também desenvolver as oportunidades de investimento, introduzindo a concorrência nos mercados esclerosados e facilitando a criação de empresas. É necessário também que sejam mais acolhedores para com os imigrantes, gente essencial para evitar à Alemanha um declínio demográfico anunciado, e para ajudar a criar empresas e a desenvolver ideias. O país sabe à maravilha reduzir os custos, e inovar à pequenos passos, mas deve tornar-se muito mais dinâmico e mais flexível para se adaptar a um mundo em plena perturbação tecnológica. Sem estas reformas, o seu futuro não nos parece que venha a ser particularmente brilhante. A águia germânica nunca terá subido tão alto como nunca o tínhamos pensado. Por fim ela também têm que poisar [e como diz o ditado português quanto mais alto maior pode ser a queda].

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Notas

6| 18,8 % em França .

7|  É também o caso de França .

8| Como em n France.

9| Trata-se da poupança total da Nação, não apenas a das famílias, , que é actualmente equivalente em França e na Alemanha .

Fontes:

  • Jean-Michel QuatrepointLe Choc des empires. États-Unis, Chine, Allemagne: qui dominera l’économie-monde ?, Gallimard, 2014. Uma obra que constata o domínio  da Alemanha sobre a Europa. Jean-Michel Quatrepoint é  um antigo  journalista do Le Monde.

  • François RocheUn voyage en Allemagne, Le Passeur, 2014. Uma exploração do país e das suas particularidades, entre a descrição e a análise, encontros e anedotas. .

  • Emmanuel ToddLa Diversité du monde. Famille et modernité, Le Seuil, 1999. Reagrupa duas obras publicadas entre 1983 et 1984, mas que nada envelheceram. Todd nelas mostra principalmente o dinamismo da família « de cultura alemã».

Philippe Legrain,  Don’t envy Germany-Its success is lauded by politicians of all stripes, but the model is breaking down.

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Texto disponível em :

http://www.prospectmagazine.co.uk/features/dont-envy-germany

 

Publicado igualmente em francês com o título  Le colosse aux semelles de plomb em:

http://www.books.fr/le-colosse-aux-semelles-de-plomb/

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Para ler a Parte I deste texto de Philippe Legrain, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

O GIGANTE COM PÉS DE BARRO – de PHILIPPE LEGRAIN – I

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