FRATERNIZAR – Jubileu extraordinário da Misericórdia – por Mário de Oliveira

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Jubileu extraordinário da misericórdia
UM DOCUMENTO PAPAL INTRAGÁVEL QUE NENHUM DOS MEDIA DIVULGARÁ

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+ 1 TEXTO FRATERNIZAR,
Edição 108, Maio 2015

Dei-me ao trabalho de ler o documento-convocatória do Jubileu extraordinário da Misericórdia. O título vem escrito em latim, “Misericordiae Vultus” (= O rosto da Misericórdia), a língua oficial do império romano, do qual a igreja católica romana é a sucessora até ao presente. Imperador morto, papa posto. De Roma dos imperadores, a Roma dos papas, pois claro. Todo o planeta é, hoje, o seu império. Inclusive, aquelas zonas onde ainda não há nenhuma diocese, com bispo nomeado pelo papa de Roma, com voto de obediência incondicional ao sucessor de Pedro, o traidor-mor de Jesus e, logo depois, o seu negador-mor por três vezes. A letra diz bem com a careta. Dois mil anos depois, o sucessor de Pedro e do imperador romano, escolheu o nome Francisco, já que o nome posto pelos nossos pais biológicos diz o ser humano que somos, ao nascer, não diz o Poder monárquico absoluto que, neste caso, o papa de Roma aceitou ser, é. Traidor-negador mor de Jesus, como Pedro. Ou se comporta como tal, ou é assassinado na hora! A Cúria romana não perdoa. Por mais que nos seus discursos, também neste Documento, o papa de Roma refira o nome Jesus, nunca é de Jesus, o filho de Maria, que fala. É sempre de Cristo/Messias, ou Jesuscristo/Jesusmessias davídico, cujo evangelho Saulo/Paulo, S. Paulo para o cristianismo, se encarregou de escrever, sob a forma de Cartas. Autênticas, umas, de alguns discípulos dele, outras. Todas, porém, com o mesmo valor para o cristianismo que, sem o falso evangelho que elas contêm, nunca teria sobrevivido à hecatombe/destruição de Jerusalém e do seu templo, ano 70, em consequência da invasão dos exércitos do império de Roma, a mesma Roma que, dois séculos mais tarde, habilmente, fez do cristianismo de Pedro-e-Paulo, a sua religião oficial e única. Contra Jesus e o seu Projecto político maiêutico.

O documento papal começa logo, na primeira linha, por referir “Jesus Cristo (“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”) e fazer de seguida uma referência a S. Paulo, na Carta aos efésios (“O Pai, «rico em misericórdia» (Ef 2, 4). Por este começo, logo se e vê que os povos da Terra não são a realidade para o papa, para o poder, para o cristianismo que molda ideologicamente um e outro. Para o cristianismo, a realidade são os mitos que o fundamentam-justificam-canonizam. Fora do cristianismo, não existe nada. Só o cristianismo é. Há dois mil anos que tem sido assim. Continua a ser assim, embora, hoje, o cristianismo mais transversal aos povos das nações seja cada vez mais o secular-laico, sob a máscara do Poder financeiro global. Sem que, ao longo dos séculos, os grandes filósofos, historiadores, teólogos, artistas, pensadores, o tenham visto-denunciado-enfrentado-combatido. Pelo contrário. Como elites que são sobre as maiorias empobrecidas-oprimidas, estão todas bem salvaguardadas com o cristianismo e, de nenhum modo, querem deitar tudo a perder. São oportunistas, hipócritas, q.b. Ou, então, elites ilustradamente ingénuas, as mais perigosas de todas, porque se pensam as únicas que estão certas e, consequentemente, tudo o que fazem, dizem, escrevem, é por convicção. Um horror!

O documento revela que quem o escreve – o papa ou alguém da Cúria por ele – continua a viver, neste início do terceiro milénio, escorado nas traves mestras do cristianismo davídico-bíblico, que aprendeu na catequese infantil. Calculem que, a dado passo, inicia um parágrafo, textualmente assim: “Depois do pecado de Adão e Eva (…)”. Compreende-se, mas não se tolera, nem se perdoa. É esta visão da humanidade, totalmente à revelia da Ciência e dos seus inquestionáveis dados, que continua a formatar, como um demónio, as mentes-consciências do papa, dos cardeais, dos bispos, dos párocos/pastores, dos fiéis de todas as igrejas cristãs. Uma ideologia-teologia absurda. De pernas para o ar. Completamente fora da realidade, da história, do quotidiano das populações, dos povos. O oposto, precisamente, de Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, como frisa bem o Evangelho de Marcos, o primeiro dos 4 Evangelhos de Jesus em 5 volumes. Escritos para denunciar o cristianismo nascente de Pedro-e-Paulo e, ao mesmo tempo, anunciar Jesus, as suas práticas maiêuticas entre e com as populações sofridas e excluídas, no âmbito do seu Projecto político, o mesmo de Deus Abba-Mãe que nunca ninguém viu e que nem a Bíblia, nem quaisquer outros livros sagrados conhecem, nem podem conhecer, porque foram escritos para fundamentar-legitimar o poder instituído.

Praticamente nada neste documento é verdade. Tudo é mito. Pior, delírio papal. Mesmo quando mergulha em certas passagens de algum dos 4 Evangelhos. Lê-interpreta as narrativas, como se fossem outras tantas reportagens jornalísticas, o que imperdoável num papa. Uma leitura só possível, porque o cristianismo até dos 4 Evangelhos de Jesus se apoderou, sequestrou. Acabou por impor uma interpretação, de acordo com os seus objectivos, não de acordo com os objectivos de Jesus. O que perfaz uma nova traição-negação de Jesus em tudo idêntica à de Pedro e do seu grupo dos Doze, os fundadores do cristianismo, depois do próprio Jesus ter passado o seu curto tempo de missão, até ser morto na cruz, a combater semelhante interpretação que queriam fazer dele, do seu ser-viver. Tudo neste documento-convocatória é macho. O Cristo ou Jesuscristo é macho. O Pai  de Jesuscristo, macho é. O feminino é desconhecido. É o grande ausente no documento. Como é ausente na Cúria romana. Ainda que haja por lá algumas mulheres, todas súbditas dos machos. Ou com comportamentos de macho. Quando Jesus sempre fala de Deus Abba que, em aramaico, significa mais Mãe do que Pai. Admitir Deus Abba-Mãe, o feminino, seria a o princípio do fim do cristianismo, da Cúria romana, da Cristandade. Uma coisa de todo impensável. Nunca a igreja cristã se converterá a Jesus, à sua Fé, ao seu Projecto político maiêutico, o mesmo de Deus Abba-Mãe. Terão de ser as populações do planeta a afastar-se dele, deixá-lo a falar sozinho. Compreende-se, agora, à luz deste documento-convocatória, porque é que o papa é tão adorado, aplaudido, elogiado pelas populações e pelos grandes media. Só pode. Fosse ele outro Jesus, já estaria crucificado pelos poderes, com o apoio das mesmas populações que agora o adoram, aplaudem, elogiam.

O Jubileu abre as suas portas no dia 8 de Dezembro 2015, o dia da festa litúrgica da “Imaculada Conceição”. Fecha as suas portas no dia 20 de Novembro 2016, o da festa litúrgica de “Cristo-Rei”. Dois mitos cristãos que só o delírio dos eclesiásticos foi capaz de conceber-impor. Contra a realidade, que somos nós, mulheres, homens, de carne e osso. Para cúmulo, são dois dogmas de fé cristã católica que assassinam de vez Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, e o próprio Jesus, o filho de Maria, que, depois deles, nunca mais são vistos-tratados como seres humanos, apenas como uma mítica deusa, ela, um mítico deus, ele. De modo que, por mais vezes que a palavra “misericórdia” se repita ao longo do extenso documento, do que realmente se trata, com este Jubileu da misericórdia, é de um novo reforço do poder papal, eclesiático, dos eclesiásticos. O perdão de que aqui se fala e se falará até à exaustão, no decorrer desse ano, não muda o ser-viver das pessoas, dos povos das nações. Pelo contrário, é uma arma mais, para manter as pessoas e os povos sob o férreo controlo emocional, via mente-consciência, do poder cada vez mais concentrado em pouquíssimas mãos. Ninguém se iluda. É assim o cristianismo. São assim todas as suas iniciativas. Aparentemente boas, cheias de “misericórdia”, na verdade, cheias de veneno, de mais infantilização das pessoas e dos povos, importantes fontes de enriquecimento, nenhuma autonomia. Verão como os grandes media e as grandes multinacionais do turismo religioso e outras estarão em peso, especialmente, nos ritos de abertura e de encerramento do Jubileu. Quem puder divorciar-se de todos estes mitos, negócios sujos, mentiras, misericórdias-faz-de-conta, divorcie-se. Será muito mais humano, ao modo de Jesus, a Misericórdia-em-acção, que o poder, nos três poderes, matou como o maldito. E logo depois substituiu pelo mítico Cristo. Até hoje. De tal modo que ninguém conhece Jesus. Todo o mundo conhece o Cristo ou Jesuscristo, de Pedro Paulo-império de Roma!

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