CARTA DE ÉVORA – «Violência» – por Joaquim Palminha Silva

evoraA Humanidade talvez tenha acontecido sem maldade, mas a verdade é que aos poucos, milénio após milénio foi enlouquecendo…
(rifoneiro popular)

 

Uma espécie de vírus maligno impregna de tal modo a História desde o seu “início”, que a despeito de toda a variedade de defesas (filosóficas, religiosas e políticas) com o objectivo de tonar o Homem imune ao mal, sempre ele surge sob nova figuração e com redobrada energia. Independentemente de terem existido alguns casos de pacifismo actuante no decurso da História, não passaram de fenómenos isolados e os seus protagonistas mártires potenciais. O facto é que a violência não conheceu qualquer tratamento eficaz, capaz de a atenuar com alguma permanência e muito menos de a eliminar, nem nenhum dos medicamentos experimentados têm alcançado sucesso duradoiro.

            Explicam sociólogos, historiadores, antropólogos que a teima em fabricar “civilização”, “progresso” e “bem-estar” social e outro, no espaço e no tempo, acabou por excitar o vírus da violência e esterilizar a Paz no seio da Humanidade.

            Como no Homem as “glândulas” da Paz são geralmente preguiçosas, mais preguiçosas que as salivares, há que excitá-las artificialmente, o que desde os finais do século XVIII se tem vindo a conseguir, com a queda do «Antigo Regime» por obra e graça da “oratória” transformada em acção, fatiada em etapas com um nacimento político de lantejoulas: República, Liberdade, Democracia, Razão!

            Na realidade, as elites europeias rejubilaram, cumprimentarem-se umas às outras muito contentes, crentes que haviam encontrado o antídoto contra o mal endémico do Homem: – Montesquieu anuncia-o no seu «L’Esprit des lois» (1749), Condorcet estabelece-lhe etapas com «Tableau des progrès de l’esprit humain» (1794), Diderot julgou ter encontrado o grande “remédio” com a sua «Encyclopédie» (1751) e, a 26 de Agosto de 1789, a Assembleia Constituinte de França acredita ter descoberto a fórmula “mágica” para acabar de vez com a violência, contida na seguinte composição “química”: «Todos os homens nascem livres e iguais»!

            Entretanto, esquecem que um dos seus instrumentos cirúrgicos foi a guilhotina, lâmina que transformou a violência em remédio conta-gotas, decepando as cabeças dos homens e mulheres que não agradavam a estes ou aos outros!

            Foi talvez inevitável que toda a Humanidade se pusesse imediatamente a copiar esta poção “mágica” gaulesa. Foi talvez inevitável que ninguém visse que os tormentos da miséria humana não produzem necessária e obrigatoriamente a bondade, a fraternidade e a Paz.

            Enfim, a “enfermidade” não desapareceu, mudou apenas de aspecto e de “atitudes”, se assim posso dizer, acabou por tomar posse da «razão» em nome da «liberdade», e com a sua “fatal” assimilação à questão do Poder de Estado, fez que se aceitasse a violência como um mal “necessário” ao “dinamismo” da História humana. Em poucas palavras, da esquerda à direita política, o sentido de “libertação” produzido pelo terror e pela repressão, lançou de novo os homens contra os homens, mergulhados no trágico império da violência contínua.

            Tornou-se, pois, peculiar à atitude de todos os chefes destacados da revolução e da contra-revolução um fatalismo particular, que se apesenta como clarividência entristecida (ou “amargura” cínica?), sempre próxima da morte e da repressão violenta, em nome de projectos societários de Paz e felicidade humana.

            Não parece, portanto, exagerado afirmar que tem sido através dos efeitos do vírus da violência que os homens se relacionam, como também através da mesma se tem vindo a concretizar a História humana, conferindo-lhe, na banalidade mais imediata do dia-a-dia, um estatuto de privilégio, ganhando até territórios inusitados a que hoje se chama «violência doméstica»!

            A capacidade para sofrer a violência e simultaneamente ser violento, terminou por ser aceite como sendo a confirmação “científica” de que o elo natural entre os homens é a própria violência, sendo a Paz e outras modalidades suas irmãs “depravações” do natural espírito de guerra da Humanidade.

            O culto da Ordem democrática, da Paz e da possível felicidade dos povos é hoje uma devoção sagrada e sem descriminações. Mas é muita vez um culto cego, surdo e mudo, pois cada vez mais se apoia na bengala do paradoxo… E o número de bestas não cessa de aumentar…

            Desgraçada condição a da Humanidade, “condenada” à prática da violência que

é a perda da autonomia da Paz, do respeito por si próprio na pessoa do próximo! Desgraçada humanidade que só se acorda e se revolta quando ouve o rufar dos tambores de guerra!

            A violência tem provavelmente a sua justificação no passado histórico, apresenta-se como vírus maligno no presente, mas confirmando-se a sua presença no futuro, então a Humanidade está condenada ao suicídio permanente!

            Se a desgraçada condição a que estamos reduzidos é, como se supõe, obra do instinto agressivo do Homem, desde o próprio Sinanthropus pekinensis (que matava, grelhava e comia o seu companheiro de aventura), forçoso é concluir que a Humanidade “nasceu” louca! – E, até ao momento, não há vacina que a proteja!

2 Comments

  1. Este é um discurso radicalmente vazio, sem qualquer capacidade analítica, que parte de uma categoria filosofante, (a “violência”, jamais definida), para chegar a parte nenhuma. Existem estudos científicos sobre a “violência” (muitos, partindo de perspectivas diversas e até opostas) mas nem um único é analisado, e daí o vazio típico do ensaísmo moralisante, com uma tradição oratória de muitos séculos nas ordens religiosas e púlpitos dominicais, numa altura em que, antes de ser obra americana (que se mede por Milhões de mortos), era obra do Demónio ou de um qualquer “gene assassino”).

  2. O que quer dizer «radicalmente vazio»? Nao sabia com quem implicar, e eu sai-lhe na rifa?!
    Sabe como dizia o almirante Pinheiro de Azevedo, não sabe?! Vá também….

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