* (José Luis Do Pico Orjais, é mestre de educação infantil, escritor, intérprete, divulgador e estudioso da música galega)
Na altura, para não variar, a mina obsessão investigadora consistia em devassar a quase desconhecida biografia dum músico galego. Ao violinista Isidoro Veiga apenas o conhecíamos quatro musicólogos esquisitos e mal-avindos. Porém, e contra todo prognóstico, resultou-me relativamente fácil elaborar uma bem documentada cronobiografia. Baseando-me na imprensa da época, nas certidões de nascimento e óbito e na escassa, mas muito valiosa, bibliografia existente pude reconstruir boa parte da sua história que começa em 1870 na rua Real da Cidade Velha, numa casa que comprara seu pai, um escrevente liberal aderente ao cheftain O’Donnell.
Na igreja paroquial começou os seus dias como menino de coro baixo a férrea disciplina do organista cego Sr. Táboas. Este, velho e embolorecido pelas humidades das paredes, via no menino ao seu herdeiro natural, porventura a pessoa que trouxera de volta o esplendor perdido ao monumental órgão paroquial. Mas o pequeno Isidoro adorava outras músicas mais mundanas, num tempo em que sochantres e organistas pareciam ante seus olhos tão anacrónicos como os próprios instrumentos que tocavam.
Cada dia, às seis da tarde, o menino músico sentava num banco diante do café Regional. A modo de pregão, um garçom abria portas e janelas deixando escapar os sons do quarteto misturados com olor a habano e anis. Pouco tardou em trocar o banco da praça pela cadeira do primeiro violino do Regional, e do Espanhol, e do Méndez Núñez, e do Universal… Foi protagonista na chegada à cidade do gramofone, do cinematógrafo Lumiere… Acompanhou às grandes divas da capital de turnê por províncias—e a muitas outras não tão notáveis—. Enfim, durante um par de intensas décadas senhoreou com o seu quarteto na vida musical da Cidade Velha.
Depois de várias semanas de trabalho, o meu dossiê Isidoro Veiga era mais que suficiente para começar a redação dum opúsculo que situasse a este músico no lugar que lhe correspondia. Metodicamente fui situando cada dado numa grelha ordenada por ano, dia e mês. Foi quando cheguei a 1900 que reparei numa circunstância que se me tinha passado por alto. O maestro Veiga não cassara nem na sua cidade nem tampouco na da sua mulher, isto último o acostumado entre nós. Cassara no Santuário da Nossa Senhora, um lugar intermédio, como uma terra de ninguém pactuada pelas famílias. Obviamente tinha de haver uma razão lógica que não podia obviar meu –quiçá?– exagerado rigor documental.
A Nossa Senhora ficava a pouco mais de média hora da minha casa assim que sem reflexiona-lo muito peguei no carro e dirigi-me ao santuário de imediato. De caminho ia pensando no estúpido da minha decisão. Era pouco provável que o templo estivesse aberto e que de está-lo, a paróquia conservasse ainda os livros de matrimónios, porventura custodiados no Arquivo Diocesano. Mas tanto tinha, far-me-ia bem esticar um bocadinho as pernas depois de vários dias nos que apenas me separara do computador.
Estacionei o carro cerca do adro, justo quando um ancião teimava com o fecho duma porta lateral. Peguei na minha mochila e caminhei em direção à igreja. Quando cheguei ao pé dela já não ficava rastro do velhote e agora era a grande porta principal a que começava a reger desde dentro. Demorei em ajudar a uma mulher a transportar uma grande trouxa na que devia levar todas as suas pertenças. Estava feita com um lençol cinzento atado pelas pontas. Pareceu-me que o seu peso era muito inferior ao imaginável pelo seu volume. Colocamos o vulto no interior do grande caixão de madeira com portas laterais que serve a modo de hall nos templos católicos. A senhora sentou sobre a trouxa e pegou numa metade de tetra pack que lhe servia como esmoleiro.
Já no interior, uma luz iluminava o sacrário a modo de ponto de fuga, assim que o visitante dirigia a sua olhada indefetivelmente cara ao altar-mor. Detrás da ara, um ancião rezava de costas ao público com os olhos cravados no luminoso sacrário. Não quis molestar; sentado num banco aguardei pacientemente a que terminasse as suas orações.
No pequeno retábulo do lado da epístola reparei num São Miguel armado e violentíssimo que espezinhava o corpo abrasado dum indefenso demónio. No escudo do anjo militarizado podiam-se ler três letras: Q. C. D.
Quando o padre terminou de falar com seus superiores virou-se e cruzou uma olhada comigo. No instante que advertiu meu ademã, o sacerdote assinalou a sacristia para onde nos dirigimos sem mediar palavra. Entre estolas, casulas e dalmáticas apresentei-me. Ele correspondeu oferecendo-me cinco círios tão frios e ausentes que achei estar a pegar na mão dum cadáver. Contei-lhe ao que vinha, o nome do músico investigado, o da sua mulher, as datas do casório… Sem mais falas pediu-me que o acompanhasse um instantinho à Reitoral que se encontrava a só uns centos de metros de onde conversávamos.
Pegamos de carro. O padre guiou e acho que aquela foi a primeira vez que subi na viatura dum sacerdote. Quando chegamos à Reitoral, e depois de traspassar uma monumental portada de pedra, entramos na casa onde nos recebeu uma mulher tão velha como o Padre, a quem tratou de Você e com a qual apenas intercambiamos umas breves frases de cortesia.
A biblioteca da Reitoral só podia ser chamada assim polos livros de registo do santuário, apenas uma dúzia. Ao resto dos volumes faltava-lhe o aristocrático feitio do transcendente. Tiramos duma prateleira o volume de matrimónios que continha os celebrados em 1900 e não tardamos nem cinco minutos em encontrar o que buscávamos. Pedi ao Padre se podia fotografar o fólio com o telemóvel, observando como no seu rosto se debuxava a incerteza de se aquele proceder era legal, ímpio, contranatura… Mas, felizmente, ele esteve de acordo.
Enquanto o sacerdote tirava pela porta, reparei em que nos batentes ficavam restos duma fita adesiva policial. Por alguma razão não lhe dei demasiada importância. Voltei com o padre até onde estava estacionado o meu carro e despedimo-nos. Antes de separar-nos lembre-me de algo:
-Desculpe Padre. No escudo da imagem de São Miguel que está no santuário pude ler três letras: Q C D. Suponho que são as iniciais duma divisa, mas que significam?
–Quem Como Deus, respondeu secamente.
De volta em casa sentei novamente diante do computador que ficara acesso todo este tempo. Na pasta Isidoro Veiga abri um documento de word com o título:
Santuário da Nossa Senhora.
Motivo da visita: Casamento de Isidoro Veiga. Pessoa de referência…
Então, como era que se chamava o padre? Esqueci? Não, acho que nem lho perguntei. E haverá uma página com o nome dos titulares de cada paróquia? Abri o Google e escrevi. A primeira entrada que apareceu foi uma manchete de jornal de fazia uma semana: Um sacerdote e a sua criada assassinados trás assalto à Reitoral. Movi o rato do computador e situei o cursor acima do texto. Premi. Num quadrinho, ilustrando a notícia, estava a fotografia do meu informante, segundo se dizia, o sacerdote assassinado fazia uma semana. Fiquei abalado contemplando aquele rosto com mais vida no papel que o que eu olhara só uma hora antes. Continuei a abrir páginas, notícias em outros jornais, comentários em blogues e webs. A matança da Reitoral tivera grande repercussão mediática e eu, como sempre a morar virtualmente noutro século, nem me tinha inteirado. Do que não havia dúvida é que a pessoa que me guiara no carro até a casa paroquial levava uma semana morto e sepultado. E o documento que fotografara com o meu telemóvel? Pois lá estava, com todos os dados certinhos de parentes e datas que já tinha contrastado noutras fontes.
Passaram as semanas e finalmente publiquei a Cronobiografia do maestro Isidoro Veiga. Por primeira vez saiam à luz certidões de vida e óbito, programas e partituras, dados biográficos até agora desconhecidos ou ignorados. Porém, decidi não publicar o registo de casamento que tão amavelmente me amostrara o sacerdote fantasma.
Depois de tanto tempo e de tão inabituais circunstâncias, apenas penso no acontecido aquele dia, só de vez em quando me vêm à memória três palavras que perturbam a minha alma descrida: Quem Como Deus.
