A NOSSA RÁDIO – “Em memória de Herberto Helder (1930-2015)” – 1 – por Álvaro José Guerra

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Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Herberto Helder (os ditos/recitados e os cantados), há que aceder à página http://nossaradio.blogspot.com/2015/04/em-memoria-de-herberto-helder.html e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”. 

 A obscura luminosidade

Herberto Helder - IIDo tamanho das mãos faço-lhes o poema da minha vida, agudo e espesso […] / o movimento que imita a terra com seus elementos, sem / ministérios do tempo, a aguarrás, o sal grosso, a tinta das rosas / – e é tudo quanto se pode aprender até que a noite venha e desfaça / a noite amarga” (Herberto Helder) Se a poesia pode ser o estiramento, a ampliação ou a procura de uma plasticidade semântica das palavras em movimento; se a poesia, como diz Blanchot, lendo Mallarmé, pode, no movimento que instaura, ser a procura de um espaço que há entre as palavras e o lugar onde elas se projectam, então a poesia de Herberto Helder, no contexto da evolução das formas poéticas em Portugal na segunda metade do século XX e ainda início deste século, é a que mais longe terá levado as possibilidades de manipulação semântica da palavra. O lugar onde a palavra de poesia herbertiana se projecta é, para além da página em branco (esse cosmos sempre a reconfigurar-se), um lugar outro, transformado e transformante, onde o verbo parece inexistir, ou estar a um passo de explodir numa rede de significados tão radical quanto mortal. Dir-se-ia que o estiramento do sentido parece levar a poesia herbertiana a um rasgão, de tal modo a capacidade metafórica surpreende sentidos inauditos. O espaço poético do poeta é, por isso, o espaço reservado àquilo que já em Rimbaud era a epifania, a iluminação de um mundo dito nos interstícios de uma palavra sacral. Por isso também o poema joga-se no próprio limite da sua linguagem: modificando-a, convertendo-a naquilo que ela, em princípio, não poderia significar: “[…] a laranja faz rodar os dedos, torna / leve, pelos dedos, / aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua / tão transbordante, / dói no fino frio do açúcar, / e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa / com a ferida na boca, o gosto / magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma, / golpe a golpe, / como um estrangeiro brutal, / ou inexpugnável, / que faz ela? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau de virgem e folha de ouro, / mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se, / que escola de laranja terrestre não pode mais que esta leveza”. Se os poemas de Herberto vêm dizer o que têm a dizer através de uma forma que só pode ser aquela – turbilhonante, labiríntica, desejante – o que eles dizem é o modo como a palavra pode ser, quando levada ao extremo da sua capacidade de sentido, não o signo verbal, acústico, mas uma espécie de som criador de imagens. Esclareça-se: imagens carnívoras, palpáveis, palavras-matéria-orgânica, de tão fulgurantes que são as cenas (quase as podemos tocar assim que a imaginação é convidada a associar o impossível) postas em andamento nesse universo em expansão que é a sua poesia toda. É essa a ruptura que Herberto Helder estabelece de forma definitiva ao publicar, em 1958, o seu primeiro livro, O Amor em Visita. O que neste livro acontece é o que não mais deixará de acontecer em todos os livros que irá publicar posteriormente: a imersão da experiência poética numa imersão, mais funda e vasta, no mundo em combustão da linguagem humana. Ao sentenciar: “Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira / e a eternidade das mãos. / Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas / lâmpadas, todas as coisas. / As coisas que são só uma no plural dos nomes. / – E nós estamos dentro, subtis, e tensos / na música.” (in As Musas Cegas), Herberto resolve um dos problemas que o surrealismo tinha colocado à poesia portuguesa, o da relação entre palavra nomeadora e a dimensão mágica da visão surrealista do real. Como nomear o denominável humano e o inominável divino de forma radical? Como superar, no regime da imagem, a mera evocação dos sonhos e das profecias, a simples retoricidade da alusão e do metafórico? Herberto, as magias de um verbo que dinamitasse o real do mundo humano, concretiza, na dicção, no ritmo e na esfera do significante esse problema: o poema, operação xamânica, e o poeta, visionário, podem nutrir esse real daquilo mesmo que, algures no tempo, esse real perdeu: a pureza de uma gramática incorruptível. Essa incorruptibilidade levá-lo-á a libertar-se de um substrato surrealista, para conquistar territórios inexplorados da poesia em língua portuguesa. Com efeito, um desses territórios ou lugares tinha sido deixado em aberto por Caeiro e por Rilke, poetas para quem o poema é uma vidência que torna evidente, desvelando, a aura dos objectos e dos seres. Que essa aura está longe, em Herberto Helder, do mais puro angelismo, isso fica comprovado quando o autor de Cobra nos vem falar da cegueira que causa a “carnagem sonora” do poema. É de carne que os textos de Herberto se pretendem tecer. Por isso também, ao longo do seu percurso, o texto é o poemacto que abre o dizer a uma gramática excessiva. Gramática, isto é, estilo, tessitura ou trama textual que articula as “circulações imprevistas” presentes na vida da linguagem, com aquilo que literalmente se pode referir (a laranja, por exemplo). Daí que, numa obra que, eventualmente se poderia dividir em três fases, haja, em todo o caso, uma coerência para com esse impulso inicial que levou à escrita da poesia: cumprir, numa vida “subtil, unida e invisível”, o fogo das imagens. Uma vida que, em termos práticos, se traduziu no afastamento de Herberto em relação à festa literária, rechaçando, repudiando, sem hipocrisia e encenação, prémios e consagrações. No limite, a vida de Herberto Helder foi, poeticamente, como quis Rimbaud, a procura de uma outra vida, devotada à limpidez gramatical de um dia-a-dia ferozmente tenso, esperando a loucura lúcida que a poesia promete. Assim, podendo ser hermético, mas fiel à obscuridade iluminante, que é uma forma outra de compreensão do Aberto rilkeano e da lição de ver que Caeiro nos legou, há nos seus livros finais – A Faca Não Corta o Fogo (2008), Servidões (2013) e A Morte sem Mestre (2014) – uma absoluta urgência da poesia como “pensamento da linguagem”, como bem viu Manuel Gusmão. Ao mesmo tempo procura-se, pensando o poema, fazer deflagrar, num combate titânico com as imagens, o mundo humano, pejado de servidões várias. Partindo de uma “ironia mansa” e de um pessoalíssimo surrealismo inicial, feito de anarquismo, a primeira fase da sua obra (de O Amor em Visita, de 58, a Vocação Animal, de 1971) caracteriza-se por essa inquietação poética em face do terrível mistério da criação, a mais alta: a materna criação dessas mães que levitam nos sonhos dos filhos. O poeta contempla num deslumbramento inominável “o sorriso louco das mães”, tange a sua “harpa de sombra” e persegue o canto, como Orpheu, que possa encantar a noite, a morte, o inferno. Uma segunda fase, que pode corresponder ao momento em que reúne, em 1973, Poesia Toda (inicialmente em dois volumes), traduz-se na procura de novas combinações entre linguagem encantatória e as fórmulas mágicas que reenviam a William Blake ou a Whitman e o fazem mudar para português – isto é, no português dele, Herberto – tradições poéticas diversas, ameríndias e outras, num sistema de vasos comunicantes que, de algum modo, acabam por nos levar aos próprios poemas desse oficiante da palavra que é o “poeta obscuro”. Essa fase, quanto a nós, encontra em O Corpo o Luxo a Obra a sua mais alta expressão (“Também as mulheres se alumiam / pela abundância, / pela boca até ao fundo, o pêlo que salta / omoplatas, / mãos redondas, os borbotões / da seda / escoada. / / Estas / têm caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as / o movimento dos quartos, a matriz / secreta / do ouro afundada entre / a vulva e o coração / a órbita / das laranjas em torno / da estaca / viva.”), já pela poderosa fulguração imaginística, já pela montagem que melhor revela “o espírito enfático da magia” que coloca a sua obra nos antípodas de todos os “ismos” da segunda metade do século XX. A terceira fase, que se pode iniciar com Última Ciência, de 1988, prolongando-se até ao volume de 2008, livro de ruptura aparente, A Faca Não Corta o Fogo, pauta-se por um erotismo ousado, mas temperado de forte carga mística, concentrando-se o poema numa espécie de compulsão da escrita centrada na pergunta que a anima e lhe dá sentido: “Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?” Trata-se, aqui, de questionar como quem destrói: antropofagicamente, o poeta alimenta-se do que mata e, matando, renova-se. Uma outra pergunta, feita por essa caneta/escrita “dolorosa” convoca o demoníaco, considerando que uma realidade concebida demoniacamente teria de nos levar a perguntar ao Demónio se Deus existe. Entre carnalidade, ritualismo místico, xamanismo e energia endemoninhada (a morte como mistério da vida), a fase final da poética de Herberto Helder, feita de um léxico ora quotidiano, concreto, ora abstracto, religioso, conglomera os volumes de 2008, 2013 e 2014. É a secreta verdade dos seres o que se procura apreender através de palavras que rompem com a obscuridade, literalizando, numa “língua plena”, o que não pode mais adiar-se. Reveladora dos “selos”/sinais da sua íntima verdade de homem perante a morte, declara o poeta: “a morte tem uma doce habilidade doméstica / abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos”. Nesses três livros à beira do fim, Herberto vê na morte o magistério da vida humana e a poesia, se tem lugar no tempo da redundância (o nosso tempo, o que vem depois da indigência que Hölderlin invectivou) acaba por ser um constante procurar “pôr a vida na sua oculta loucura”. Podem esses três livros chocar por nos parecer Herberto um outro Herberto Helder… Nada mais errado: fazendo da obra, do Livro, o espelho dessa outra obra, a do Ser, os livros continuaram sendo o lugar da alquímica transmutação da palavra em acto. Herberto Helder foi o poeta que teve da poesia a compreensão cosmogónica da sua natureza. Foi-lhe, por isso, possível escrever, como quem olhasse para si vendo-se já de longe, versos lapidares: “Este que chegou ao seu poema pelo / mais alto que os poemas têm / chegou ao sítio de acabar com o / mundo: não quero / para o enlevo, o erro, disse, / quero-o para a estrela plenária que / há nalguns sítios de alguns poemas / abruptos, sem autoria”. Morrendo exactamente cem anos depois do primeiro número da revista Orpheu (foi a 24 de Março de 1915 que veio a público), com Herberto morre o século passado. António Carlos Cortez (in “JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias”, 01-Abr-2015, p. 7-8)

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