SINAIS DE FOGO – “TONINHO DOS PENTES” – por Soares Novais

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Fiz a instrução primária na Escola da Ordem do Carmo. A escola tinha uma professora de Canto, Dona Luísa, que também dava aulas de piano. Foi com Dona Luísa que, entre a segunda e a quarta classe, tive lições de piano. Mais por vontade de minha mãe do que por desejo meu. Resultado: comigo as teclas do piano sempre soltaram dilacerantes gritos de dor…

 Foi há 50 anos e o meu mundo começava na Rua de José Falcão, onde vivia, e acabava na Travessa do Carregal, pois era por ali que entrava para a escola. Foram Dona Aida e Dona Teresa, uma jovem professora acabada de sair da Escola do Magistério Primário, quem me ensinaram a tabuada e as primeiras letras.

 Os manuais escolares apresentavam um tipo com a farda da Mocidade Portuguesa na capa e, se bem me lembro, os dedos de uma só mão chegavam e sobravam para os contar. As “profs” encarregavam-se de ensinar o resto: oralmente ou mandando-me fazer longos “ditados” nos cadernos, que minha mãe comprava na “Porto Editora”, na Praça Filipa de Lencastre.

As aulas começavam logo pela manhã e prolongavam-se para lá do almoço. Muitos de nós almoçávamos na Ordem tendo como companhia alguns “irmãos” que ali viviam os seus últimos dias – ainda hoje tenho saudade da sêmea com que acompanhava a sopa deliciosa que nos serviam.

A meio da tarde regressava a casa, sendo que antes ainda havia tempo para uma futebolada no recreio da escola e uma mirada para o Quartel do Carmo da GNR para apreciar os soldados a montar os seus belos e altivos cavalos.

Tal rame-rame só era interrompido à quinta-feira. Nesse dia, tinha a companhia de minha mãe. Subíamos até à Praça de Carlos Alberto e seguíamos em direcção à Praça dos Leões (1), tendo como destino a Padaria Ribeiro (2) na Praça Guilherme Gomes Fernandes. Na “Ribeiro” adquiria almendrados, mimos de ovos e tostas que nos deliciavam.

Até chegarmos à Padaria Ribeiro fazíamos várias paragens. A primeira junto a uma loja, que hoje alberga a livraria da Imprensa Nacional no Porto, mesmo por baixo da histórica UNICEPE (3)- que há 50 anos é útero quente da resistência cívica e cultural da cidade – onde minha mãe comprava amiúde um ramo de violetas ao “Toninho dos pentes” (4).

 O “Toninho dos Pentes” era o único homem no meio das mulheres que ali, nos “Leões”, gritavam os seus pregões na luta diária pelo direito à vida. O Toninho era um homem seco de carnes, meio calvo, moreno, e usava um pequeno avental sobre a cintura redondinha.

As mulheres vendiam hortaliças e peixe e o Toninho “meias de vidro” para as senhoras. E vendia também pequenos ramos de violetas, que colocava num pequeno cesto que dependurava no seu braço direito com evidente carinho.

“Ó freguesa, olhe como são lindas as minhas violetas” dizia o “Toninho”, enquanto tentava vender mais um par de “meias de vidro”. Feita a compra lá seguíamos rumo à “Ribeiro” para comprar as delícias já referidas.

Toninho dos Pentes” era um tipo muito educado e só ficava agitado quando tinha de dar corda aos sapatos quando por ali aparecia algum sujeito de farda cinzenta, normalmente gordinho e com rosto recheado de farfalhudo bigode. Ou seja: algum “guarda” da PSP. O “Toninho” pegava no cesto das “meias de vidro” e corria aos saltinhos em direcção à “Cordoaria”, seguido pelas outras vendedoras dos “Leões”.

 Só mais tarde, quando já tinha uns pelitos a saltar-me da cara e começava a “olhar para a minha sombra” é que percebi que afinal o Toninho era… Toninha.

Sempre que eu passava, agora já sem a companhia de minha mãe, ele piscava-me o olho…

  • A “Praça dos Leões” chama-se de facto Praça de Gomes Teixeira e homenageia o Matemático que foi o primeiro reitor da Universidade do Porto. Francisco Gomes Teixeira nasceu em Armamar, em 1851, e morreu em 1933, no Porto. Popularmente conhecida como Estátua dos Leões, o Chafariz dos Leões representa de facto grifos – figuras lendárias com características de leões e águias. Foi mandada fazer pela Companhia das Águas do Porto em 1882 e colocada quatro anos mais tarde naquela que já foi Praça dos Voluntários da Rainha. O Chafariz dos Leões é a única peça escultórica pública do Porto que foi feita fora de Portugal e a sua função era abastecer de água aquela zona da cidade.

  • A Padaria Ribeiro, fundada nos finais do século XIX, na antiga Praça da Feira do Pão, pois ali concentravam-se comerciantes vindos de Avintes e Valongo, e que desde de 1915 de designa por Praça de Guilherme de Gomes Fernandes, ainda existe, modernizou-se, abriu novas lojas e continua a servir biscoitaria, pão e pastelaria de altíssima qualidade. Hoje a “Ribeiro” é gerida por alguns dos filhos de antigos emigrantes de Arouca e Castelo de Paiva no Brasil que, no final dos anos 80 do século passado, a adquiriram e, assim, evitaram o encerramento da histórica padaria portuense.

  • A UNICEPE é uma cooperativa livreira fundada pelos estudantes do Porto há 50 anos. Por ali passaram e passam alguns das mais influentes figuras da Cultura portuguesa. Há 48 anos que resiste no 1º andar do 128 da Praça de Carlos Alberto.

  • Desconheço ainda hoje a razão pela qual era conhecido por “Toninho dos Pentes”.

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