A IDEIA – ANTÓNIO TELMO E TEIXEIRA DE PASCOAES: SETE NOTAS E UMA OITAVA, ACIMA, PARA UMA KABBALAH PÓS-ATLÂNTICA – 3 – por Pedro Martins

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A referência geográfica ao arquétipo de Portugal remete para o Mapa Metafísico da Europa de Carlos Aurélio, livro do final de 2003 que Telmo prefaciou, e cuja factura responde no tempo à sua introdução do volume pascoalino. Deduzido este ensaio de geografia simbólica e sagrada segundo as categorias cabalísticas da árvore sefirótica, Portugal surge ali identificado com Kether, a Coroa, a mais alta das sefiras.

Quanto à história secreta, ou fantástica, de Portugal, sabemos já, pelo que foi visto, que, na época da sua vida, consideravelmente avançada, em que Telmo prefacia Pascoaes, a mesma deve ser entendida à luz da kabbalah, e não da Gnose.

Por fim, diga-se sumariamente que a alusão à Gramática Secreta encerra também um apelo à dedução sefirótica, desta feita com respeito à manifestação linguística.

O que António Telmo, por este modo, nos vem simplesmente dizer é que vai estudar o pensamento poético de Teixeira de Pascoaes à luz da kabbalah, ciência que, segundo se apreende no prolóquio de Filosofia e Kabbalah, representa o já adquirido no conhecimento da verdade, e que nem os poetas, nem os demais artistas (onde se incluem os filósofos, cultores da arte da palavra), devem ignorar[12]. Nesse lugar, afirma Telmo ser ela “a Coisa, a nossa Coisa, o objecto constante do nosso estudo, o que nos irmana com os outros povos e seus pensadores” – para, porém, a antepor ao que no pensamento seja, “como a ave Fénix, uma energia, um fogo, uma actividade do espírito que todas as manhãs renasce das próprias cinzas, não se sabendo nunca em que forma, na multiplicação infinita da mesma essência”[13].

A partir da matriz hebraica, António Telmo retoma assim a kabbalah como uma peculiar sorte de organon tradicional (kabbalah significa transmissão ou tradição), que irá afeiçoar e afectar ao desvelamento filosofal operado pela sua hermenêutica. Daí que, em Congeminações de um Neopitagórico, chegue mesmo a referir-se à “arte poética, essa Cabala dos loucos”[14]. E daí que, seja pela adopção do sistema de pensamento teosófico, teúrgico e teodiceico que a árvore sefirótica lhe faculta (e há disto uma prova real na sua genial identificação das dez sefiroth com as dez categorias aristotélicas[15]), seja pela assunção das regras metódicas da Guematria (de uso proverbial nos seus estudos camoninos e maçónicos), da Notaria e da Themuria, grande parte da reflexão filosófica de Telmo possa ser vista como a demanda de um cabalista (mais exactamente: daquela parte que está dialogalmente referida a Nathan, metade essencial do seu alter ego, Thomé Nathanael, como expressão irruptiva do represado na fundura do subconsciente hebraico).

  1. Vários índices o revelam no prefácio a Pascoaes. Antes de mais, a afirmação de que Leonor – nome simbólico que o eterno feminino cedo toma no poeta –, “pelo som, e pela etimologia hebraica, é como um som outonal ao entardecer todo oiro num ar quase lírico”[16]. A tradição judaica, imposta pela incidência nominal, é assim chamada a iluminar o sentido anagógico operado pela remissão do símbolo: o de uma gnose que, ao invés da cognitio matutina de que nos fala Henry Corbin em meio islâmico – maxime persa –, Telmo, em lance de invenção criacionista, nomeia de cognitio vespertina, segundo a condição reconhecida ao homem ocidental da finisterra marítima.

 Notas:

 

[12] António Telmo, Filosofia e Kabbalah, p. 10.

[13] Idem, p. 11.

[14] António Telmo, Congeminações de um Neopitagórico, p. 141.

[15] António Telmo, “No Hades”, in Filosofia e Kabbalah, pp. 45-54.

[16] António Telmo, “Introdução” a Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, de Teixeira de Pascoaes, p. 9

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