Aos poucos a Galiza vai espreguiçando-se do seu sono histórico. E os galegos, com toda a sua antiga e longa história, parece que só se estão a tornar visíveis, nestes tempos de já-e-depois-da-modernidade, ou de depois mesmo do Nunca mais.
Por que é que acontece isto? sem dúvida por causa de dous fatores fundamentais: primeiro, a forte pessoalidade individual dentro de sólidos vínculos dos galegos, de cada galego e galega, espalhados por toda a parte; segundo, a internet.
Os galegos que sempre foram gente persistente na sua galeguidade e vínculos, foram por isso, ávidos comunicadores e cambiadores de novidades e melhora: palavra, papel, impressos, navios, táxis, comboios, telégrafo, telefone, mapas, ferramentas, maquinarias, sistemas, negócios… imaginem hoje, que cada computador é ao mesmo tempo um telefone e uma antena de comunicações, uma revista e um serviço postal, cada programa de edição é uma imprensa, cada computador é um elemento, cada blogue é uma revista, cada site um espaço de comunicação e as redes sociais são a um mesmo tempo, taberna, enciclopédia, parlamento, ágora, teatro, academia, informativos.
A rede oferece hoje a possibilidade de estabelecer relacionamentos, de compartilhar conteúdos, de sindicar-se e fazer parte de espaços comuns; as afinidades, os relacionamentos, abertos agora ao mundo continuam estabelecendo novas identidades, grupos e fidelidades saltando as fronteiras mas moldurando-se do mesmo jeito que as pequenas paróquias, comarcas e países.
Diz um bom amigo, o J. R. Pichel, que a internet chegou, para os galegos como cavalaria nos filmes do faroeste, para resgate dos sedentos sitiados já nas últimas. Abrindo o seu mundo cheio de tesouros ao mundo, e permitindo compartilhar os fragmentos herdados cá e lá para ir formatando um conjunto em relação e reconstrução.
As línguas, num mundo virtual e globalizado, ocupam o espaço dos códigos de uso em que os utentes podem se relacionar. A rede por causa disto, não apenas está a introduzir os galegos em sites e espaços lusófonos, obriga-os a dar resposta, em bom e claro português.
É por isto que emerge essa galegagem dispersa e difusa de todos cantinhos da rede, parecendo dizer ao resto dos lusófonos, como naquele princípio famoso da Fastiginia, em que à queixa de amigo agravado de lhe não escrever, o autor diz plagiando Angelo Poliziano: “Queixastes-vos, porque vos não escrevi; já vos escrevo…”
