A CRISE NA ESPANHA JÁ PERTENCE À HISTÓRIA? por Edward Hugh – VIII

Temaseconomia1

 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A crise na Espanha já pertence à história?

Edward HughIs The Crisis Now History In Spain?

A Fistful of Euros – European Opinion, 14 de Abril de 2015 

(CONCLUSÃO)

Incerteza política em frente

Quando o FMI disse no ano passado que o nível de desemprego da Espanha era inaceitavelmente elevado, fui muito crítico pelo facto de que eles não explicitavam as consequências desta realidade nem ofereciam qualquer alternativa política substancial. O mais óbvio impacto dessa falha para encontrar uma alternativa está agora a ser vista, com o surgimento de movimentos políticos que bem poderão virar o actual sistema de dois grandes partidos do país completamente de cabeça para baixo e o constante fluxo de jovens talentosos a saírem para fora do país em busca de trabalho.

De acordo com a mais recente sondagem de opinião de Metroscopia realizada para o jornal El País (12 de Abril de 2015), quatro partidos (Podemos 22,1%, PSOE 21,9%, PP 20,8% e Ciudadanos 19,4%) estão em competição renhida para o primeiro lugar nas próximas eleições. A mais recente chegada à cena política nacional é o partido (Ciudadanos), um movimento que, apesar de ser difícil de definir em termos de política própria, parece estar algures, como centro-direita, entre o PP e o PSOE em termos de sua ideologia política. É muito difícil prever qual vai ser o resultado das próximas eleições gerais ( a realizar no final deste ano), mas parece claro que nenhum dos partidos irá ter uma maioria. Então a aritmética governamental pode-se tornar uma coisa complicada.

edwardhugh - XXXVII

O primeiro indício de que um tal panorama político pode começar a ser visto, vêm-nos agora da Andaluzia, com as suas eleições regionais em 22 de Março. Então haverá em Maio eleições regionais em Madrid e Valencia e nos municipais das grandes cidades como Madrid, Valencia e Barcelona. Tais eleições, no entanto, apenas nos darão uma vaga impressão, já que aqui haverá factores pessoais e lealdades locais que também serão importantes.

Quanto às questões que estão na base deste terramoto, as sondagens de opinião são suficientes claras: o desemprego, a corrupção e as questões relacionadas com a sua situação económica são de longe as questões mais importantes que estão na cabeça dos eleitores, sem nenhuma dúvida, e isto tanto é assim que, apesar de toda a conversa sobre a retoma da economia espanhola, a grande maioria dos eleitores continua a pensar que a situação económica actual é ou má (41,8%), ou muito má (33,8%).

As alianças que se possam vir a fazer são muito difíceis de prever. Ideologicamente, o partido Podemos e Ciudadanos podem parecer muito distantes entre si, mas as preocupações dos eleitores que os estão a apoiar são muitas vezes surpreendentemente semelhantes, mesmo que as soluções que estes partidos oferecem são bastante diferentes. Por exemplo, sobre a questão da corrupção, deve existir a possibilidade de uma aliança de facto entre os dois movimentos para forçar os dois grandes partidos “tradicionais” a fazerem uma reforma importante..

Outra questão que provavelmente que os irá unir é a questão da dívida. Muitos cidadãos da Espanha estão muito endividados, e muitos ainda se debatem com muitas dificuldades em pagar as suas hipotecas apesar de taxas de juro serem muito baixas. Além disso, há a famosa regra de “recurso completo”[1], que significa que as pessoas que não podem pagar não podem simplesmente regressar a sua casa e pagar depois a sua dívida. Há um grande sentimento de injustiça associada ao facto de que os promotores imobiliários receberam hipotecas de responsabilidade limitada (muitos dos quais agora acabaram com o banco ruim Sareb, cujas perdas serão pagas pelos contribuintes) enquanto os cidadãos comuns não tiveram direito a nenhuma ” cláusula escape”. “Resgatar os cidadãos não apenas os bancos,” é um slogan que muitas vezes se ouve nos dias de hoje.

Não é que claro o que Ciudadanos pretendem fazer sobre este problema, mas a opinião do partido Podemos é suficientemente clara, e sobre esta postura gozam de amplo apoio popular, indo bem além daqueles que na verdade vão votar neles: irão revogar a cláusula de recurso completo. Não é um simples detalhe a posição que Pablo Isglesias sublinhou na sua entrevista com Michelle Caruso-Cabrera para a CNBC, “queremos governos que funcionam para as pessoas e não para os bancos,” e como o entrevistador comentou, “uma coisa que aqui é banal… é que em Espanha podem-nos expulsar da casa e ainda obrigar-nos a continuar a pagar a hipoteca. É um empréstimo garantido”.

A outra grande questão é a austeridade. A Espanha ainda tem um grande défice orçamental – 5,6% do PIB em 2014 – o maior da zona do Euro. À primeira vista, com tantas eleições a ocorrerem não parece provável que este se vá reduzir muito este ano e em 2016 é difícil imaginar que não haverá uma maioria parlamentar a favor de se dar prioridade à diminuição do desemprego relativamente à redução do défice, e a criação de um certo confronto com a Comissão Europeia não é improvável. No entanto, tanto quanto a QE do BCE permanece em execução os investidores dificilmente se irão preocupar demasiado com isso, uma vez que os seus rendimentos não sejam afectados. Mas,  e se o BCE fizer ao contrário, e decidir em qualquer altura apertar as válvulas do crédito?

Edward Hugh, Is The Crisis Now History In Spain? Texto publicado em A Fistful Of Euros-European Opinion, disponível em:

http://fistfulofeuros.net/afoe/is-the-crisis-now-history-in-spain/

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[1] Full Liability. The Guarantor is liable for the entire debt should the Borrower default on their mortgage payments and must be able to show that can afford at least 100% of the mortgage, in addition to their own existing commitments. The Guarantor must be at least 25 years of age, and no older than 75 at loan maturity.

Limited Liability. The Guarantor’s liability is limited to the just the Borrower’s shortfall amount (plus an additional 10%) this is expressed as a fixed percentage of the debt (up to a maximum of 30%). Limited liability mortgages opens up new possibilities for those who are willing or able to guarantee only a smaller proportion of the loan. A Limited Liability Guarantor must be a least 25 years of age, but no older that 65 at time of application. The mortgage term will be based on the age of the applicant with this type of Guarantor.

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Para ler a Parte VII deste trabalho de Edward Hugh, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

https://aviagemdosargonautas.net/2015/05/21/a-crise-na-espanha-ja-pertence-a-historia-por-edward-hugh-vii/

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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