A CRISE NA ESPANHA JÁ PERTENCE À HISTÓRIA? por Edward Hugh – VII

Temaseconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Mapa_Espanha_CC_AA

A crise na Espanha já pertence à história?

Edward HughIs The Crisis Now History In Spain?

A Fistful of Euros – European Opinion, 14 de Abril de 2015 

(CONTINUAÇÃO)

O nível actual das pensões não é sustentável

A pensão média que está a ser paga também está a aumentar. Em Fevereiro de 2015, o montante total pago pelo sistema de pensões tinha aumentado de 3,1% em variação anual. Mas o número de pensionistas aumentou apenas 1,3%, o que significa então que a pensão média subiu 2,1%, devido ao facto de que os aposentados mais recentes terem estado a ganhar mais que as coortes anteriores e, portanto, têm direito a pensões superiores. Ainda não temos dados sobre os rendimento do sistema de pensões pagos este ano, mas no final do ano passado aumentou em cerca de 1,5% ao ano, deixando um défice crescente para o sistema cobrir.

Como escrevi, sob o antigo PSOE o défice foi financiado pelo orçamento geral do governo, e possivelmente 1,5 pontos percentuais do défice fiscal de 2011, que foi de 9,6%, foram o resultado deste financiamento. Esta política mudou com a chegada do PP ao governo, e o financiamento das pensões passou a ser feito pela via do fundo de reserva. O atrito tem sido uma constante e o fundo está agora a começar a diminuir. Em 2012 foram 7 mil milhões de euros retirados, em 2013 foram 11,6 mil milhões de euros e em 2014 foram 15,3 mil milhões de euros (ou seja 1,5% do PIB). Se quisermos comparar maçãs com maçãs e peras com peras, ( e não estar a somar alhos com bugalhos, como se diz em Portugal) seria necessário adicionar este 1,5% do PIB para o défice orçamental de 5,6%, obtendo-se assim um défice de 7,1%, para utilizarmos assim os mesmos critérios de contabilidade que foram utilizados em 2011. Dito de outra forma, o défice realmente foi reduzido de 9,6% para 7,1% em 3 anos, mas através de uma tão dramática e difícil austeridade. Em vez de pagar a lacuna de pensões com os rendimentos actuais, o governo está a utilizar um cartão de crédito emitido pelas “futuras pensões” para manter os actuais pagamentos, mesmo que a situação esteja obviamente a piorar, ou seja, será ainda mais difícil pagar os níveis de pensões actuais no futuro do que agora. Como resultado de todas essas retiradas a dimensão do fundo de reserva tem estado a cair desde o seu valor de pico de 66,8 mil milhões de euros em 2011 para o nível catual de 41,6 mil milhões de euros. No momento o governo orçamentou outra retirada do fundo e de 8,4 mil milhões de euros para este ano, mas este número pode facilmente tornar-se maior. Assim, em 2015 deve fechar com cerca de 30 mil milhões euros de disponibilidades – dinheiro para cerca de mais 3 anos à taxa corrente. É claro que, logo após as eleições, terão de ser introduzidas mudanças. Mesmo que o número de contribuintes para o sistema esteja a crescer ainda mais rapidamente..

Desalavancagem do Sector Financeiro ou menos procura de crédito solvável?

Mario Draghi entende que as expectativas de inflação a caírem fazem subir as taxas de juros reais influenciando a percepção dos custos do crédito no futuro. Se os consumidores antecipam a inflação, então isso faz com que os empréstimos se tornem [em termos reais] mais baratos e as pessoas, antecipando a inflação, tendem a avançar com as suas compras no presente. Com as descidas dos preços espera-se o inverso pois fazem com que o custo real dos empréstimos seja maior, fazem com que as pessoas desejem antecipar menos as suas compras pela via do crédito e nesse sentido constituem um endurecimento sobre a procura via contenção monetária. Estou consciente do actual debate sobre se as taxas de juros são realmente um factor chave quanto à influência sobre as decisões de investimento, mas eu nunca vi nenhum argumento que sugira que o custo do crédito não influencia o consumo. E então assim é em Espanha, uma vez que a procura de obtenção de empréstimos pelos agregados familiares não se está a ver, mesmo que os bancos do país nos digam que agora estão prontos para os conceder[1].

Na verdade, a concessão de empréstimos ainda está a cair e a uma taxa anual de 3,2% para o sector privado em Fevereiro. Pode haver muitas razões para além da capacidade dos balanços dos bancos que possa explicar porque é que não temos um aumento no crédito do sector privado em Espanha. Alguns simplesmente podem não ser capazes de obter empréstimos, porque já não conseguem pagar as suas dívidas actuais. Os quatro milhões de espanhóis actualmente na lista negra do crédito gerida pela firma de consultoria ASNEF terão ainda à sua frente um tempo muito difícil até alcançarem a situação do “boom” do consumo actual, mesmo que eles tenham um emprego. A afirmação do ministro da economia da Espanha Luis De Guindos pode ser vista graficamente quando ele disse: “em primeiro lugar, é difícil não adiar compras quando não se tem nenhum dinheiro para as pagar. No caso de desempregados espanhóis eu acho que eles têm mais preocupações do que estar à espera de um novo conjunto de sofá, quando o seu preço caiu cerca de €50.”

Então, parte da razão para não haver “nenhuma expansão do crédito” é o alto nível de dívida existente e o grande número de desempregados ou pessoas que trabalham em empregos precários e de baixas remunerações. Muitas empresas também estão ainda altamente endividadas, e aqueles que não estão ainda enfrentam comparativamente baixos níveis de procura para os seus produtos, o que significa que eles não serão envolvidos em projectos de investimento de grande escala, que de qualquer forma eles provavelmente teriam que ser financiados via mercados obrigacionistas.

edwardhugh - XXXV

edwardhugh - XXXVI

 (continua)

________

[1] “Banks are ready to lend, support QE and growth and jobs.”. Veja-se :: https://twitter.com/bloombergtv/status/558180122055176192

_________

Edward Hugh, Is The Crisis Now History In Spain? Texto publicado em A Fistful Of Euros-European Opinion, disponível em:

http://fistfulofeuros.net/afoe/is-the-crisis-now-history-in-spain/

________

Para ler a Parte VI deste trabalho de Edward Hugh, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

https://aviagemdosargonautas.net/2015/05/20/a-crise-na-espanha-ja-pertence-a-historia-por-edward-hugh-vi/

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: