CONTOS & CRÓNICAS – “O CAMINHO” – por Eva Cruz

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Ervas rasteiras e espigadas, ladeadas de silvas e urtigas deixam descortinar o carreiro que foi caminho.

Algumas balcadas bem fundas, cavadas na terra pelas chuvas de muitos invernos, mantêm ainda o saibro luzidio, moldado pelas rodas dos carros de bois. Caminho esquecido que levava ao rio, à furna, à levada.

Os lameiros abandonados perderam a forma, cobertos de silvados a abraçar os combros e os choupos.

Não havia rasto de mão de lavrador ao redor, nem vestígio de passagem de gente.

A natureza inculta em toda a sua pujança e bravura.

À descoberta de lembranças e memórias de criança consegui chegar à fonte, que, ao fundo de umas roídas escaditas de pedra, cantarolava solitária no silêncio de todo o dia.

A água do tanque onde havia sempre lavadeiras estava coberta de limos e musgos verdes e vermelhos, acariciados por uma nuvem de insectos e borboletas. Ao lado redemoinhava o  velho poço deixando ver os raizeiros grossos e negros.

Mais à frente, tentando abrir caminho por entre giestas e urzes começava o antigo carreiro que ia dar à ponte da Varziela.

Uma fraga enorme sempre a escorrer água teceu fantasias na cabeça das crianças durante gerações, ao criar um profundo eco do barulho do rio.

Era a pedra dos fantasmas.

Escutei uma vez mais esse misterioso cachoar  nas entranhas daquela falésia, eco esquecido nas memórias perdidas no tempo e na natureza.

Não havia ainda calor bastante para despertar cobras e lagartos, pelo que me aventurei a caminhar até ao moinho.

Lá estavam, destelhadas e esboroadas, as casitas do moleiro, a levada solta a correr ao lado, as mós tombadas ao abandono e os troços de madeira da taramela e da moega.

O rio dava a volta às ruínas e continuava impante e indiferente, mais largo e mais fundo, o seu caminho para o lado do mar.

O caminho do rio é o mesmo.

O meu caminho, esse caminho da infância, foi desfeito pelo tempo.

Sem caminho, resta-me o caminho do rio.

O rio é tão meu como o caminho.

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