FALEMOS DE PALMIRA, FALEMOS DE CIVILIZAÇÃO – PALMIRA VALE BEM UMA VERDADEIRA GUERRA – A comunidade internacional face ao genocídio cultural – por JEAN BONNEVEY

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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PALMIRA VALE BEM UMA VERDADEIRA GUERRA

A comunidade internacional face ao genocídio cultural

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Jean Bonnevey, PALMYRE VAUT BIEN UNE VRAIE GUERRE -La communauté internationale face au génocide culturel

Revista Metamag.fr, 15 de Maio de 2015

Os djihadistas do grupo Estado Islâmico, que se orgulham de terem destruído sítios antigos no Iraque, ameaçam agora a cidade antiga de Palmira, uma jóia do deserto sírio inscrita no Património mundial da UNESCO. Será o grande teste para uma coligação que pretende fazer a guerra contra os obscurantistas do auto proclamado emirato.

É necessário salvar Palmira ameaçada pelos loucos de Alá de Dæch. É necessário dotarem-se dos meios necessários e agir rapidamente. É necessário vitrificar de uma maneira ou de outra, antes que seja demasiado tarde, os que ameaçam um tesouro da civilização. Palmira pertence à todos e todos a devem defender para sempre . Se Palmira for arrasada, a comunidade internacional e os países que pretendem representá-la ter-se-ão desacreditado mais do que nunca e definitivamente. Defender os valores das civilizações não é não somente denunciar os crimes da história, é mostrar que se é capaz de impedir os de hoje, esta história no presente.

“Palmira está ameaçada”. É o que afirmou à AFP Rami Abdel Rahmane, o director do Observatório sírio dos direitos do homem (OSDH, uma ONG que trabalha com uma rede de informadores na Síria). Depois de ter destruído uma parte do património histórico de Mossul ou Raqqa, a organização Estado islâmico (I.E.) estaria às portas de Palmira. “A batalha desenrola-se a 2 Km a leste da cidade, depois do I.E. se ter apropriado de todos os postos do exército entre al-Soukhna e Palmira”, precisou. Este oásis situado a cerca de 240 Km a nordeste de Damasco protege as ruínas monumentais de uma grande cidade que foi um dos mais importantes centros culturais do mundo antigo. O seu valor é inestimável, pela sua arquitectura e as técnicas greco-romanas das tradições locais e com influências persas.

A cidade fazia parte de uma rede comercial que liga a Síria à Mesopotâmia e à costa mediterrânica. O nome Palmira é mencionado pela primeira vez nas fontes greco-romanas em 41 antes de Cristo, quando Marco António lançou os seus soldados contra ela, para obter o seu espólio. Em 41 antes de Cristo, de facto, os Romanos tentaram pilhar Palmira mas falharam o assalto, os habitantes da cidade refugiaram-se com os seus bens, do outro lado do Eufrates. Deduz-se que os seus habitantes dessa época era ainda, essencialmente, nómadas, a viverem da criação de animais e do comércio com as caravanas.

Integrada no Império romano sob Tibério no ano 19, no quadro da província romana da Síria, Palmira mantinha estreitas relações com o principado de Sampsigéramides que se estendia à volta de Aretusa, e Émèse, esta última constituía a via de escoamento natural para o mar para o comércio de Palmira. Numa inscrição que vem do templo de Bel em Palmira, Sampsigéramos, é de resto designado como “o rei supremo”. Palmira atingiu seguidamente o seu apogeu sob Adriano, que a visita em 129.

Durante a crise do III século, Palmira escapou às invasões persas que devastaram a Síria em 252 e 260. Depois de 260, foi um notável de Palmira, Odenat, que foi encarregado pelo imperador Gallien de coordenar a defesa do Oriente. Quando a sua viúva Zenóbia tentou tomar o poder como imperatriz com o seu filho Wahballat, Palmira viu-se implicada, um pouco contra a sua vontade, numa guerra civil romana. Em 272, vencida por Aurélio em Antioche depois em Émèse, Zenóbia protegeu-se com as suas tropas em Palmira, onde Aurélio veio persegui-la. Inicialmente os notáveis de Palmira ligaram-se a Aurélio e apanharam Zenóbia, que ficou presa. Aurélio deixou em Palmira uma pequena guarnição e regressou a Itália. Nessa altura, rebentou na cidade uma revolta que tentou entregar o poder a Antiochos, o pai de Zenóbia. Aurélio voltou atrás, reprimiu a revolta e não parece ter exercido represálias sobre a cidade.

De acordo com Jean Starcky, as pessoas de Palmira da época helénica adoravam uma divindade suprema nomeada Bôl (“o Senhor” no dialeto aramaico de Palmira). Muito cedo, sob a influência de Babilónia, este Deus supremo foi designado como Bel, forma babilónica. Outros deuses estavam-lhe também associados como Aglibol (cujo nome conserva a forma antiga) e Malakbel, literalmente “o Anjo (malak) do Senhor (Bel)”. Estes são, ao que parece, os deuses históricos de Palmira.

Com a chegada de outros Sírios ou de nómadas árabes cada vez mais numerosos, outros deuses se vieram acrescentar nos seus santuários ao de Bel, ou até mesmo, se assimilaram. É assim que se criou um templo ao Deus solar sírio Baalshamin (literalmente “o Senhor (Baal) dos Céus (shamin)”), que foi assimilado à Bel. Outros árabes edificaram a oeste da cidade um santuário à deusa árabe Allat, assimilada pelos Gregos à Atena. Neste templo, escavado pelos arqueólogos polacos, foram reencontradas duas estátuas de Allat: a primeira, do 1º século, representa a deusa como um leão que protege uma gazela, a segunda, mais recente, é muito simplesmente uma estátua de mármore de Atena, ao estilo de Fídias, importada da Grécia. A sul do santuário Bel encontrava-se o santuário de Nebo, um Deus de origem babilónica (Nabu), assimilado pelos Gregos a Apolo.

O culto mais importante era feito a Bel, o Deus protector da cidade. É à ele que foi dedicado o imenso santuário Bel, cercado de pórticos, ornado de dezenas de estátuas de benfeitores que contribuíram para a sua construção. Este santuário, mais ou menos contemporâneo do Templo de Jerusalém, construído por Herodes Iº o Grande, era-lhe muito comparável, tanto pelas suas dimensões como pela disposição geral e o estilo arquitectural. Sobre imenso adro aberto sobre a cidade há uma porta de entrada e um longo vestíbulo ladeado de duas torres onde se encontra uma bacia, um altar monumental para os sacrifícios, uma sala dos banquetes onde se reuniam os padres de Bel, e sobretudo a estrutura central monumental, à qual sem dúvida só os padres podiam aceder. Dentro, dois nichos sobrelevados (o equivalente do Santo dos Santos) continham as estátuas divinas. Numa concessão ao Império romano, no século Iº colocou-se aí também a estátua de Germanicus e de Tibério.

Palmira é descoberta pelos mercadores ingleses de Alepo em 1691, e descrições dos seus vestígios, enriquecidas de gravuras espantosas são publicadas por Wood em 1753. Assim a partir do século XVII Palmira tornou-se famosa na Europa. As suas magníficas ruínas, a qualidade clássica da sua arquitectura que vai até à época romana ( século II), formaram um contraste espantoso com o deserto à sua volta.

No século XIX, os Otomanos instalaram em Palmira uma pequena guarnição, enquanto os arqueólogos vindos da Europa e os Estados Unidos começaram o estudo sistemático das ruínas e das inscrições.

Depois da Primeira Guerra mundial, a Síria é ocupada pelos Franceses no âmbito de um mandato da Sociedade das Nações. O exército francês implanta em Palmira uma unidade de méharistas e constrói um terreno de aviação para o controlo aéreo da estepe. As escavações arqueológicas são organizadas numa grande escala: a aldeia que ocupava o santuário Bel é destruída e a população realojada numa cidade moderna, Tadmor, construída ao norte do sítio arqueológico, enquanto o templo antigo é restaurado.

Desde a independência da Síria, a cidade moderna de Tadmor desenvolveu-se consideravelmente. O terreno de aviação tornou-se uma base militar, mas o projecto de fazer um aeroporto civil para desenvolver o turismo nunca se realizou. Há também em Palmira uma prisão. Como na Antiguidade, a cidade vive da agricultura no oásis, da criação beduína na estepe, enquanto os lucros anteriormente tirados do grande comércio são substituídos pelos rendimentos não negligenciáveis do turismo.

Mas já não há mais turistas e a herança da antiguidade está sob a ameaça dos que querem destruir tudo o que não é deles . O dever de memória é, desta vez, um dever de história e de ingerência militar, de guerra das civilizações contra o genocídio cultural de selvagens tão fanáticos como barbudos.

É necessário antes que que arrasem Palmira, destrui-los.…. Caso contrário deixem de falar em nome da civilização. Tem-se o direito de falar daquilo que se é capaz de defender e às vezes é necessário matar e morrer por pedras que transportam o testemunho do génio dos homens.

Palmira não deve ser destruída.

Jean Bonnevey, Revista Metamag, PALMYRE VAUT BIEN UNE VRAIE GUERRE – La communauté internationale face au génocide culturel. Texto disponível em :

http://www.metamag.fr/metamag-2911-PALMYRE-VAUT-BIEN-UNE-VRAIE-GUERRE.html

Illustration en tête d’article: buste de femme-Palmyre-Syrie-2ème siècle

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