CARTA DE ÉVORA – “Confiança” – por Joaquim Palminha Silva


O que é hoje a confiança?

 

evoraSerá mais uma fantasia no meio de muitas outras, pelo que escrever sobre ela é um trabalho quase imaginativo, idêntico a uma história infantil com fadas, gnomos e castelos no ar, onde repousa adormecida a “bela” confiança, tal princesa encantada?…

Sobre a dificuldade em encontrar, guardar e conservar a confiança de que todos precisamos para viver neste vale de lágrimas, está repleta a nossa História contemporânea. A raridade com que ela se apresenta é tal que o tradicional rifoneiro popular não guardou muitas memórias directamente relacionadas com a confiança de que, por exemplo, recordamos o ditado: «Confiar no futuro, mas pôr a casa no seguro.».

Confiantes, entregamos a nossa saúde nas mãos dos médicos e demais especialistas dos Hospitais públicos. Os nossos filhos são confiadamente entregues às escolas públicas. Os nossos salários, a reforma, as poupanças (quando as há!), confiadamente as depositamos nos Bancos. Após eleições legislativas, nós confiamos que, do partido mais votado, será formado um governo preenchido por cidadãos idóneos; isto é, pessoas comprovadamente honestas, sejam elas da “direita”, do “centro” ou da “esquerda”… – Porém, nos últimos anos, a verdade é que temos visto a nossa confiança ser traída por muitas destas entidades, serviços e pessoas.

É, pois, imenso o rol para o que nos é solicitada confiança que, entretanto, só tem resultado num crescimento da nossa desconfiança, todos dias e a toda a hora.

Mesmo assim é forçoso que pensemos que seria a nossa vida numa sociedade sem a prática da confiança?

Como será possível viver numa sociedade donde se pode ausentar a confiança, ainda que seja por determinado tempo e apenas nalguns sectores da vida política, social e cultural? – Posso responder já! Será como viver em Portugal, onde o “sistema” de confiança tem sido atacado em várias frentes, e corroídos os seus alicerces seculares!

Prevenindo a ausência de confiança que deve ter existido no passado mais remoto, o rifoneiro popular apresenta-nos esta curta lista de ditados ou anexins:

«Não te deves fiar senão daquele com quem já comeste um moio de sal»;

«Não de fies em água que não corra nem em gato que não mie.»;

«Não te fies em cantigas»;

«Não de fies em céu estrelado nem amigo reconciliado»;

«Não de fies em mulher que não fala nem em cão que não ladra»;

«Não de fies em quem uma vez te enganou»;

«Não te fies em vilão nem bebas água de charqueirão»;

«Não te fies se não queres ser enganado».

Entretanto, pela doentia convergência do estado mental da maioria dos cidadãos, a sociedade actual fez da confiança uma prática a evitar, um tanto pelo seu cheiro a pia outro tanto pelo hálito que transporta, denunciando a cebola do péssimo refogado democrático nacional. Porém, acontece que, traçando a perna numa intimidade canalha, o cidadão comum ainda gosta que a confiança se venha sentar sobre os seus joelhos e lhe peça, entre caricias de demagogia, um pouco da sua benevolência para esta ou aquela questão e, dependendo das ocasiões, apesar de tudo o cidadão não sabe como se lhe negar, deixando-a tomar conta da sua vontade com uma simplicidade trágica… – E vota em partidos que não lhe deveriam merecer confiança, pela soma de dirigentes políticos que habitualmente “abastecem” os tribunais e, depois, as cadeias, enquanto “especialistas” na prática dos mais variados crimes!

A confiança não se decreta nem acontece como fruto do acaso, pelo contrário, obedece a um “projecto” de construção, e instala-se na sociedade a um ritmo vertiginoso («clima de confiança»; «confiança em si próprio»; «confiança na condução»; «confiança no investimento»; «confiança dos accionistas»; «confiança na qualidade da água da rede pública»; confiança nas instituições», etc.).

Nesta ordem de ideias, alicerce da segurança social num país civilizado, a perda paulatina de confiança do cidadão nas instituições e nos políticos, acaba arrastando consigo as estruturas fundamentais do regime democrático e, ao criar um ambiente de desconfiança continuado, faculta a germinação de todo o tipo de “miasmas pantanosos” que levam ao autoritarismo, à ditadura, mesmo até ao golpe de Estado de coloração fascista!

Dir-se-á que a confiança, ao desparecer da sociedade, deixa o português nu, sem nenhuma ilusão! – Todavia, à medida que as condições sociais e políticas se degradam, que as aparências de honestidade de Bancos, Empresas e chefes políticos deslizam comprovadamente para a fraude e, portanto, para o crime, perdendo-se assim a confiança nas suas raízes institucionais, somos levados a constatar com surpresa que o português tem horror à nudez (da verdade) social e política, preferindo entregar o seu voto, confiadamente (?) aos mesmos focos de infecção que o desiludiram anteriormente!

Por tudo isto, mas também por uma gritante carência de educação cívica e evidente ausência de cultura democrática do cidadão eleitor, com a soma de casos provados de corrupção ao mais alto nível político (com o suplemento de provado nepotismo, abuso de poder, fraude fiscal e mentira sistemática, bem como outros crimes), Portugal não conhece um clima generalizado de desconfiança, apesar de todos os indicadores nos assegurarem que tal deveria acontecer desde há algum tempo a esta parte!

Com Governos que têm como uma das suas actividades principais mentir aos cidadãos, seria de encarar a limitação do domínio da confiança por parte de uma população que está sendo abandonada…

Consequentemente, a permanência da estabilidade política tem sido muito fácil de assegurar, pese embora o descalabro geral, não por mérito dos partidos e seus quadros profissionais, mas sim graças à preguiça mental do cidadão anónimo, e à deficiente condição em que se encontra a cultura democrática de grande parte da população. Há códigos muito resistentes para exprimir ou assimilar uma influência ou situação de facto: – A palavra confiança, apesar de já não estar muito ligada à experiência vivida no Portugal dos nossos dias, representa uma referência de tranquilidade demasiado forte, nas mentalidades correntes, para ser abandonada pela sua contrária (desconfiança), que todos associamos a um mecanismo social de insegurança… Que é afinal de contas àquele que se vive, mas que poucos aceitam olhar bem de frente!

 

 

 

 

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