Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Palmira levanta o seu véu
A caminho de um Daech nuclear

Michel Lhomme, PALMYRE LÈVE SON VOILE – Vers un Daech nucléaire
Revista Metamag.fr, 26 de Maio de 2015
No último número da sua revista de propaganda Dabiq, é sugerido claramente que o grupo E.I. (Daech) se tem estado a desenvolver tão rapidamente que poderia bem comprar ao Paquistão a sua primeira arma nuclear, daqui a um ano. E para subir a parada, o grupo terrorista anunciou-o mesmo claramente sobre a sua conta twitter.
Este anúncio surpreendeu as diferentes agências de informações ainda que, pelo momento, os governos ocidentais minimizem a ameaça. Esta situação seria oficiosamente plausível tendo em conta os milhares de milhões de dólares que o grupo possuiria através, diz-nos, “de centenas de contas bancárias” por toda a parte do mundo. O avanço estratégico do Estado Islâmico sobre o terreno no Iraque e da Síria demonstra que o grupo tem numerosos recursos e não será para breve que irá largar a presa dado que por cada vitória militar se apropria de um belo espólio.
Com a tomada da cidade antiga Palmira, quinta-feira 21 de Maio, o Estado islâmico controlaria doravante a metade do território sírio, de acordo com o Observatório sírio dos direitos do Homem (OSDH), mantido com efeito por um só homem a habitar em Londres. Todas as tentativas feitas tanto pelos Ocidentais como por certos governos do Médio Oriente saldaram-se por malogros mas quem pode realmente acreditar neste grupo “fantasma” fora de controlo, sobre-armado e tão bem organizado? Que ingénuo pode acreditar hoje que os fundos de Daech não são conhecidos e susceptíveis por conseguinte de serem bloqueados?
O que o I.E. está a fazer, é exactamente como o indicámos: quer avançar sobre Damasco para derrubar o regime presente. Agora, somente a Rússia e o Irão podem salvar Assad. Ora, eles só o podem fazer no âmbito de um acordo com os Estados Unidos.
Nos factos, o que é que se passa?
Deixou-se Daech, (a Arábia Saudita e o Qatar) destruir a Síria? “Se” mas quem é que o “se ” expressa? Os EUA, o Reino Unido, a França, a Bélgica, o Canadá, o Catar, a Turquia, a Jordânia mas o sobretudo Israel. Porquê?
Em 2011, a Síria antes do início da guerra era a única potência regional capaz de desempenhar um papel de resistência à vontade de expansão do Israel. Além de que, pela sua aliança com a Rússia, a Síria tinha recusado a passagem sobre o seu solo do gasoduto qatari destinado a fazer concorrência aos gasodutos russos. Ora, a Síria será amanhã um grande produtor de gás (a sua parte no imenso sítio do gás descoberto na bacia oriental do Mar Mediterrâneo é consequente). Por último, a Síria é um aliado do Irão. Aí estão as razões finalmente bastante claras para se querer destruir a Síria ao preço do sacrifício de Palmira.
Em 2011, como na Líbia, um terreiro se apresentou como muito favorável para desencadear uma situação conflituosa: os takfiri terroristas na oposição (organizados e financiados pela Arábia Saudita) queriam derrubar desde há muito tempo a dinastia Assad para impor uma sociedade confessional unida da qual é eliminada toda e qualquer minoria religiosa, em especial as minorias alauítas e cristãs destinadas a um futuro genocídio de matriz religiosa.
Sejamos cínicos. Desde o seu aparecimento público, Daech é um presente sagrado para os Ocidentais. Com Daech, não há tropas no solo a combater, nenhumas contas a apresentar à opinião pública que não gosta de ver os seus soldados morrer por causas que não compreende. Então Daech não é o grande organismo da nova privatização da guerra? Uma nebulosa religiosa que faz o trabalho sujo em vez dos exércitos regulares? As destruições culturais de cerca de algumas réplicas em gesso são mediaticamente um pouco embaraçosas mas são apenas réplicas! Os originais estão conservados nos museus ou, sobretudo desde há quatro anos, postos à venda sobre o maior mercado paralelo de antiguidades, situado hoje em Aman, nos grandes hotéis jordanos.
Mas Daech, é também o maior recrutamento de mercenários destes últimos anos com o emprego – pelo menos é o que nos fazem crer! – de tudo o que o planeta comportaria de idealistas muçulmanos ainda imaturos (o que nos permite também ao mesmo tempo controlá-los). São 83 os países que actualmente estão representados “na nebulosa” djihadista.
Apresentarei apenas um exemplo que é na verdade um trabalho jornalístico de Metamag dado que nunca foi revelado na imprensa que dispõe no entanto da informação. Seis Taitianos encontram-se actualmente no Daech (dois deles são antigos legionários). Os jovens do Taiti são excelentes soldados, sempre estiveram na Argélia, Indochina, foram brilhantes forças especiais, SAS de primeira ordem.
Pode-se acreditar tão facilmente que eles foram “fanatizados” e “convertidos”? É o que pensa o exército francês, ao que nos dizem e fala-se oficiosamente de soldados capturados no Mali por mulheres, soldados que não teriam tido outra escolha? Em todo o caso, a informação é surpreendente ou então inquietante para o exército francês. Não acreditamos. Os soldados de Daesh são pagos e mesmo muito bem pagos, e em todo caso, a informação vinda do Taiti confirma-lo, dizem-nos que há nas suas fileiras verdadeiros soldados, verdadeiros profissionais do combate. Por último, um simples número. Na Líbia, “os membros da coligação” executaram 4.500 raides aéreos mensais contra a Líbia enquanto que contra o Estado islâmico, ter-se-iam efectuado actualmente justamente 300 raides para o mesmo período de tempo e de uma tal ineficácia que nos questionamos às vezes se não são raides em branco! Amanhã, os cristãos e os alauitas sírios serão decapitados, os takfiris passarão para alguns países vizinhos para estender a influência saudita na região.
Assistimos por conseguinte em certa medida ao mesmo cenário que foi mostrado na Líbia, à erradicação de um Estado soberano graças aos Estados do Golfo, de Israel, da Turquia e com a bênção da França. Os Estados Unidos estão lá – Daech são o seu bebé – mas não se reencontrariam os americanos um pouco apanhados na ratoeira que eles próprios criaram?
Michel Lhomme, Revista Metamag, PALMYRE LÈVE SON VOILE – Vers un Daech nucléaire.
Texto disponível em:
http://www.metamag.fr/metamag-2945-PALMYRE-L%C3%88VE-SON-VOILE.html
Imagem no princípio do artigo: campo de refugiados controlado pelo Daech





