PRAXEDES VIGIADO – de ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

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Quando esta manhã me cruzei com o Praxedes, debaixo da Arcada, ele puxou-me para o patamar de uma escadaria e disse-me:

─ “Imagine que ontem apanhei o maior susto da minha vida. Minha mulher e minha filha vieram esperar-me aqui ao ministério para irmos ao Grandela fazermos umas compras. Um colega meu tinha estado a conversar comigo a respeito das últimas trapalhadas da nossa terra e havia-me contado que há uns grupos para vigiarem os monárquicos, outros grupos para vigiarem estes grupos, uns terceiros grupos para vigiarem os segundos, o diabo! Falou-me em Formigas brancas, em Mineiros do Sul… o inferno. Fiquei inquieto e nervoso. Isto de associações secretas faz-me uma impressão terrível. Saio da roça, encontro a família à porta e metemos à rua do Ouro. Eu olhava desconfiado para quem passava, porque eles não trazem letreiro e perguntava a mim mesmo ao ver determinadas caras: ─ “Este será Formiga do sul ou Mineiro branco?” Nisto, passa um rapaz bem posto e, ao passar por nós, deu uns passos e parou. “Mau!” disse eu com os meus botões. Dali a bocado, olho para trás. O tipo vinha-me seguindo e disfarçou a mirar uma montra. Eu levava uns chinelos de trança, que uso na repartição, embrulhados debaixo do braço e pensei: “O maldito é capaz de imaginar que isto é uma bomba. Ora a minha vida…” Deliberei perdê-lo no Grandela. Isso sim! O maroto deu todas as voltas que nós demos. Saímos, tomámos um carro. O homem na plataforma. “Que sarilho!” lamentava-me euem silêncio. E já me via preso, encerrado com outros facínoras, incomunicável numa esquadra e apodrecendo no Limoeiro! Chegados a casa, fui de rastos espreitar á janela. O Formiga lá estava metido numa porta defronte. À noite vamos para o animatógrafo. Pois, desde que saímos de casa até que voltámos, o homem não nos largou. Você pode lá imaginar o susto em que andei, até que, às três e meia da manhã, não tendo ainda podido pregar olho, acordei a Genoveva e disse-lhe: ─ “Oh Vevazinha, sabes?… Estamos perdidos. A polícia anda atrás de mim.” ─ “A polícia! Qual polícia?…” ─ “ Polícia  não é bem. É coisa parecida. É um Formiga branca.” ─ “Homem, explica-te…” ─ “ Tu não viste aquele rapaz de flor ao peito e bigode torcido, que andou hoje toda a tarde e toda a noite atrás de nós?” ─ “Vi e então?…” ─ “ Pois esse homem, Genoveva, é nem mais nem menos do que um terrível afilhado de uma sociedade secreta, que imagina que eu sou conspirador.” ─ “Qual história! responde-me a Genoveva. É o novo namoro da Fifi… Já se falam há três dias. Dorme, homem…”

─ “ Ah! meu amigo, concluiu Praxedes, você não calcula o peso que a minha mulher me tirou de cima.”

27 de Setembro de 1913

(Esta curta história tem quase cem anos. Julgo contudo que é muito engraçada e está bastante actual. Tomei a liberdade de actualizar um pouco a ortografia. Não tive a coragem de substituir animatógrafo por cinema. Acham que fiz bem?)

Tinha metido esta divertidíssima crónica do André Brun no Estrolabio, no VerbArte, em 4 de Junho de 2011. Como continuo com o braço direito ao peito, praticamente sem poder escrever, resolvi “editá-la” novamente, aqui n’A Viagem dos Argonautas. Espero que gostem. Vejam em:

http://estrolabio.blogs.sapo.pt/1510779.html

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