Todos os dias deviam ser das meninas, dos meninos. Não das crianças. Não há crianças. Há meninas, meninos. Por sinal, cada vez em menor número. São em vias de extinção. Este tipo de mundo, do Mercado, poder financeiro global, odeia as meninas, os meninos. Só fala de crianças. Até lhes promove dias mundiais. Faz muito dinheiro com elas. Às meninas, aos meninos, odeia-os. Já nem deixa que cheguem a nascer. É pior que o rei Herodes do Evangelho de Mateus. As mães, os pais são-no de filhas, filhos. Não de crianças. O pai do dia mundial da criança é o Mercado, o poder financeiro. Nem sequer lhe chama Dia mundial das crianças, no plural. Chama-lhe Dia mundial da criança, no singular. Nega-mata a realidade – as meninas, os meninos – quando mais parece afirmá-la. O Mercado, poder financeiro global, não dá ponto sem nó. Ele é o dia da mãe. Ele é o dia do pai. Ele é o dia da mulher. Ele é o dia da criança. Tudo no singular. Nega-mata a realidade, ao substituí-la por um conceito-mito sem carne e sangue, sem história. Um não é menina, menino. É criança. É mercadoria. Portadora de todos os desejos das mercadorias que o Mercado, poder financeiro cria, ano após ano. As meninas, os meninos são, assim, reduzidos a crianças. As mães, os pais só aparentemente o são. Na realidade, não passam de financiadores dos desejos que a criança, filha do mercado, poder financeiro, lhes apresenta. Quem diz mães, pais, diz madrinhas, padrinhos, tias, tios, amigas, amigos mais chegados. Felizes, aquelas filhas, aqueles filhos, cujas mães, cujos pais não abdicam do seu fundamental papel. Defendem-nas, defendem-nos do mercado, poder financeiro. Sabem que se as mercadorias entram nas mentes delas, deles, depressa passam a crianças, filhas do mercado, poder financeiro, consumidores compulsivos. Ainda há meninas, meninos, ou já só crianças?