CARTA DO RIO – 53 por Rachel Gutiérrez

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Por sugestão de minha irmã, que conhece melhor o mundo do que eu e já teve uma pequena agência de viagens, fomos a Colchester, a mais antiga cidade da Inglaterra. Ah! que maravilha que é viajar, de trem, pelo countryside inglês.

 A village de Colchester, que não é e nem pretende ser uma city, conserva com amor as preciosas relíquias do seu passado celta e romano e se mantém na medida do humano, isto é, com uma alta qualidade de vida para seus pouco mais de 100 mil habitantes. Distante de Londres apenas 90 quilômetros, a antiga Camulodunon, em Essex, foi também um condado normando, cuja história se confunde com as belas lendas arturianas.

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Visitamos e nos emocionamos com as ruínas romanas da fortaleza que data de 43 DC, com o Castelo Medieval, do século XI, construído sobre a cripta de um velho templo romano, com o lindo parque que o circunda e contém um jardim de Árvores Sagradas na boa e milenar tradição celta.

Brasileiras, habitantes de uma cidade de apenas 450 anos, tudo isso nos fascina e apaixona.

Antes, porém, tínhamos estado na esplêndida cidade de Bath, a joia do século XVIII perfeitamente preservada, onde morou por longos períodos a primeira grande romancista inglesa.  Jane Austen a menciona muitas vezes em sua obra, fonte inspiradora aparentemente inesgotável tanto para o cinema inglês quanto para o norte-americano, que não se cansam de explorá-la.

E por falar em fontes, além do número crescente de turistas pelas galerias, corredores e meandros das famosas Roman Terms, minha irmã e eu, que já as conhecíamos, pudemos observar grandes, porém cuidadosas e inteligentíssimas modificações para facilitar o acesso do público, como  elevadores embutidos nas paredes sem modificá-las, assim como a presença de atores e atrizes  (dois ou três, no máximo) que, vestidos como romanos, agora circulam pelas galerias ou fazem pose junto das piscinas como mais um atrativo daquele monumento histórico excepcional. Naturalmente, deixam-se fotografar. E uma de minhas sobrinhas não resistiu: fez uma selfie com eles! Essas termas romanas datam de 75 DC, época do Imperador Vespasiano.

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Banhada pelo rio Avon, o mesmo que banha a Stratford de Shakespeare, Bath, intacta em sua harmoniosa arquitetura do século XVIII, tem agora uma vida fervilhante e jovem, com turistas alegres por toda a parte. As lojas de souvenirs exploram com proverbial inteligência e um senso comercial tipicamente inglês coisas dos tempos de Jane Austen. Como gosto de fazer, trouxe para a minha coleção, um peso de papel.

Depois da Inglaterra, fomos para a França, onde os pesos de papel chamam-se estranhamente sulfures. E quem formou uma grande e lindíssima coleção, (que inspirou a minha, muito mais modesta), foi a bourguignone Colette (1873 – 1954), genial escritora da primeira metade do século XX.

Fomos de Eurostar e, desembarcando em Calais, tomamos outro trem para Amiens, cuja Catedral do século XIII, um dos melhores exemplos do Gótico francês, comparável ao de Chartres e ao da Notre Dame, de Paris, queríamos conhecer. Eu havia lido que Marcel Proust, com todos os problemas de saúde que o fragilizavam e o mantinham quase sempre recluso, não hesitou em percorrer o longo trajeto de Paris até Amiens, para visitá-la e reverenciá-la. De fato, é um deslumbramento. Só fiquei triste quando vi que o Tempo, sempre implacável, se encarregou de destruir alguns altares, substituindo-os por outros, barrocos, que são bonitos, mas quebram impiedosamente a unidade do estilo. E nessa fantástica Catedral tive duas pequenas aventuras. A primeira, quando desejando fazer uma modesta homenagem a tanta beleza resolvi, de acordo com a tradição, comprar uma vela e acendê-la diante de um dos altares. Pouco tempo depois, um casal de franceses veio até mim e o homem me perguntou, gentilmente, se eu era brasileira e se estava com alguém que tivesse perdido uma carteira com várias moedas, inclusive dinheiro brasileiro. No primeiro momento neguei, achei que não era de nenhuma de nós, mas ao abrir a bolsa, percebi que se tratava da minha própria carteira, esquecida sobre o banco, disseram-me, ao lado das velas. Agradeci o mais efusivamente que pude. A segunda aventura foi quando vi outro senhor francês estendendo as mãos e aguardando concentradamente alguma vibração ao pisar um quadrado aparentemente de cobre, que se encontra no meio do corredor quase em frente ao altar-mor, como o labirinto, que eu lembrava de ter visto, há muitos anos, em Chartres. O senhor explicou-me que, de acordo com crenças arcaicas e esotéricas, aquele pequeno espaço, supostamente o centro nevrálgico da construção das Catedrais Góticas transmite energias telúricas e cósmicas capazes de recuperar a saúde física e psíquica de qualquer mortal! Isso me remeteu ao velho livro de Fulcanelli sobre O Mistério das Catedrais. Submeti-me, então, à experiência e acho que ao menos nas mãos, devo admitir, senti alguma “cosquinha”.

De Amiens, fomos a Caen, de onde partimos para o Mont Saint Michel, que marca a fronteira entre a Normandia e a romântica Bretanha. Apesar da deslumbrante visão da antiga Abadia e do Convento do Mont Saint-Michel, mais misterioso ainda por causa de uma chuva que tudo enevoava, tivemos algumas decepções: o comércio de souvenirs tomou conta de tudo; o serviço de ônibus, ou navettes, deixa muito a desejar; a estação da estrada de ferro está em reforma e não atende corretamente a clientela de turistas; o serviço de Acolhimento é fraco. E como observou minha irmã, para subir todas aquelas escadas do Convento e da Igreja, chegamos muito tarde: só uma de minhas sobrinhas subiu corajosamente todos aqueles degraus irregulares e demasiado altos para pernas mais idosas.  Além disso, o ambiente todo, ao menos na parte baixa da cidadela, parece bastante desfigurado. Enfim, realizamos um velho desejo pour en finir com o Mont Saint-Michel, como diria um entediado francês. O saldo positivo foram algumas lembranças para amigos, um livro sobre Os Segredos de Saint Michel e mais um pequeno peso de papel, presente de minha irmã.

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De lá, voltamos por dois dias a Caen, que possui duas extraordinárias Abadias, uma dedicada aos homens e a outra, às mulheres: l’Abbaye aux Hommes e l’Abbaye aux Dames, mandadas construir pela Rainha Matilde (1031-1083)! Ficamos tristes de deixar Caen, que empolga por sua beleza e antiguidade histórica e merece visitas mais prolongadas. Tínhamos de voltar a Calais, porém, de onde as sobrinhas se dirigiram a Londres, para pegar o avião de volta ao Rio. Minha irmã e eu tomamos, então, um TGV para a velha e querida Paris.

Mas só o Hotel Meurice, de Calais, construído no século XVIII, destruído em grande parte pelos bombardeios da Segunda Grande Guerra, mas depois restaurado com rigor ao menos nos seus interiores, mereceria um novo relato, que virá, na próxima Carta, com algumas notícias de Paris e do fim dessa viagem tão cheia de alegrias e aventuras.

1 Comment

  1. Rachel, meus parabéns. Se para nada mais você prestasse, teria uma belíssima carreira de guia turístico. Só você para transformar imagens de ruínas aparentemente sórdidas em lindos poemas. As fotos são deslumbrantes, mas muito poucas, infelizmente. Adorei essa viagem, viajei junto. Maravilhoso passeio pelos dois países tão cheios de memórias mudas, que só adquirem voz quando alguém como você passa por elas. De novo, meus parabéns. Iluminou um pouco meu dia, aqui neste nosso país no qual as memórias são tão deixadas ao leu, muitas merecidamente. Beijos e muito obrigado.

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