LIVRO & LIVROS – Carlos Vale Ferraz

É natural que muitos de vós recebam o convite mais formal através da minha editora, a Casa das Letras/Leya, mas quis com este pequenos texto dizer um pouco mais sobre o livro e sobre o que me levou a escrevê-lo do que aquilo que consta nas badanas.  A Estrada dos Silêncios reflecte um sentimento que aos poucos fui ganhando da inutilidade de grandes viagens para descobrir o que podemos encontrar à porta de casa. A personagem principal, inspirada num velho parente meu, miguelista, integralista e ruralista, inimigo da indústria e avesso ao progresso em geral, entendia que descobrimentos tinham sido uma estupidez. Tal como o Velho do Restelo, afirmava que devíamos ter ficado por cá a melhorar o que tínhamos em vez de nos esgotarmos em ruinosas aventuras. Citava Gil Vicente no Auto da Índia: «Fomos ao Rio de Meca, pelejámos e roubámos.» Continuo à volta do tema central da nossa História, o império e as suas marcas na nossa identidade.

As invasões francesas trazem a Portugal um capitão que por aqui vai ficar porque as estrelas deste céu são iguais às de Paris, porque considera Napoleão um insensato, ambicioso e incompetente e, acima de tudo, porque encontrou uma mulher que o acolheu e lhe disse que era bem-vindo. O progresso levou uma das novas auto-estradas europeias a atravessar a propriedade deste homem descendente do militar francês e provocou a consequente expropriação por utilidade pública. A que ele resiste.

Calhou a uma jovem juíza fazer cumprir a lei do progresso. Ela hesitou no emprego da força bruta e na imediata prisão do rebelde em nome do Estado. Vai falar come ele. Refere-lhe os benefícios do progresso para o futuro de Portugal. O velho responde: «Quero lá saber do futuro! O futuro é para os outros, para a senhora doutora, para os engenheiros, os generais à frente das tropas, para os missionários… para os inconscientes que desde o século quinze se lançaram ao mar! Eu sou o velho do Restelo! Aquele que ficava nas praias, entre a gente, meneando três vezes a cabeça, descontente, resmungando: deixas criar às portas o inimigo, para ires buscar outro de tão longe… O Camões também escreveu coisas acertadas!» Apontou a oliveira, e para lá da oliveira, traçando uma linha no horizonte: «É mais ou menos por aqui que vai passar a nova rota dos descobridores, em busca da pimenta e das especiarias da Europa! Vai servir para nova ilusão… é por isso que me oponho!»

Enfim, o enredo é ao arrepio da doutrina oficial do progresso contínuo, do crescimento anual e sem fim que os novos pregadores da contabilidade pública nos apresentam como estando inscrita nas pedras dos livros sagrados da economia. Também fala do vazio em que ficámos, perdidos há quarenta nos confins da Europa, depois de esgotada a nossa eterna desculpa do ultramar, do império, da nossa vocação universal.

Com A Estrada dos Silêncios quis dizer que ela, a nova estrada, não vai trazer a Europa, nem nos vai ajudar a levar-lhe o nosso Mundo. Quis contar uma história que liga um velho e uma jovem a um passado comum e que, como acontece tantas vezes, contem segredos que bem podiam continuar no seu sepulcral silêncio.

 

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