Há dias, nestas páginas da “Viagem”, mais uma vez, foi-me feito o favor de publicar-se não, apenas, uma minha opinião mas sim, algo que – como entendo as coisas – está muito acima disso.
Tratou-se de ter querido dar conta dum sentimento de homenagem, de admiração e de gratidão que, para sempre, considero devido a Winston Churchill. Se achei por bem fazê-lo, considerei, também, tratar-se dum gesto de muita oportunidade política face às imposições humilhantes – não podem ignorar-se – feitas às periferias europeias pelos imperialismos centro-europeus.
Insistir em recordar a figura e, sobretudo, a acção desse Homem de Estado é, tem de reconhecer-se, tentar impedir – mau grado sem força bastante – que seja ignorado o seu inquestionável papel na História mundial e que, por igual, não deixe de haver quem queira seguir-lhe as tão necessárias pisadas. A derrota da Germânia nazi – é bom não esquecer-se – não teria sido possível sem a determinação política de W.Churchill.
Rememorá-lo deve estar na ordem do dia pois fazê-lo, sem dúvida, parece vir muito a propósito. Quando a História europeia mostra ver-se confrontada com um ressuscitar de forças expansionistas, algo tem de acontecer que não seja, como entre nós – vergonha das vergonhas – louvaminhar, quase à exaustão, quem prevarica e fá-lo ao arrepio das determinações democráticas que tanto reivindica cumprir. Tal como está a viver-se neste nosso Portugal e para que possa ir-se a tempo de travar o passo a dias bem piores, vai ser bem preciso, entre quantas outras coisas mais, invocarem-se todos os feitos históricos que pela sua grandeza e significado, dalgum modo, foram capazes de ter contribuído para conseguir por-se cobro à submissão a todas as determinações menos correctas que, periodicamente, querem assaltar- nos.
Os portugueses não têm pecados bastantes para terem de estar sujeitos à indignidade das prepotências que os centro-europeus, a seu bel-prazer, fazem sentir e cuja remoção, antes doutra coisa mais, tem de impor-se. Basta de sujeições políticas, basta de asfixias económicas, basta do pauperismo imposto.e chega da indignidade dos conluios militaristas. Em 1939, contra a vontade de muitos, alguém, e muito bem, disse não.
A coragem e a tenacidade de Winston Churchill que nunca aceitou a Paz de Munique é um exemplo – mais outro exemplo – de que as Pátrias, quando o são, não morrem e que, para tanto, até uma simples defenestração – experiência indubitável – pode ser, como foi, uma bom começo. Se o exemplo de Winston Churchill merece não esquecer-se não será o único para recordar e para reconhecer quanto pode e quanto vale a valentia dum decisão humana. Em Setembro de 1596, o Papa Sisto V resolveu remover do seu poiso secular o obelisco trazido – roubado – do Egipto pelo chamado imperador Calígula – o Botinhas – e mandar implantá – lo diante do Vaticano. Como o obelisco, velho de cinco mil anos e com cerca de trezentas e cinquenta toneladas, era dificílimo de poder ser movimentado, empenharam-se, nessa tarefa, novecentos homens cujo regime de trabalho – não fossem as vozes produzir qualquer vibração e, também, abafar as ordens de comando – nem sequer permitia que pudessem proferir uma única palavra, tudo sob a pena duma condenação irreversível executada de imediato. Para erguer o monumento tinham de ser utilizadas, mais que imensas instrumentações técnicas, milhares de cordas de cânhamo cuja fricção começou a provocar-lhes um tal aquecimento que a ameaça de arderam e cederem estava iminente. Mesmo sabendo arrostar com a pena capital por desrespeitar o silêncio imposto, um marítimo da Ligúria, de seu nome Bresca – o Capitão Bresca – no seu genovês pátrio, gritou, alto e bom som, “daghe l`aegua a le corde”, ou seja, “acqua alle funi”, deitem agua nas cordas. Assim, com uma frase tão simples e uma ordem melhor sucedida, consagrou-se, para todo o sempre, o grito de desobediência às violências dos poderes ilegítimos. Quem, entre nós, tornados, como estamos, em mera mercadoria, um dia, por fim e por aqui, haverá de ter a coragem de gritar “aqua alle funi”?
Bela analogia ,quem dera que alguem de firme vontade e capacidade ,dê o grito e que seja uma ordem.