Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(continuação)
Então, quais são as prováveis consequências económicas de não se fazer nada?
O que importa na Espanha não é o facto de que a economia está a recuperar-se. É bem mais importante, a forma como está a recuperar e quão rapidamente o mercado de trabalho poderia voltar ao normal. Por outras palavras, existe o risco de que o crescimento potencial de longo prazo possa cair, mesmo que a taxa de desemprego permaneça elevada.
É um facto simples que como a população em idade activa em Espanha cai, então será a taxa de crescimento potencial de longo prazo que também irá cair. E se o crescimento é mais baixo, então a criação de novos postos de trabalho será menor. Como pode ser visto no diagrama abaixo (que ilustra como a Comissão Europeia calcula as taxas de crescimento potencial). Existem três factores que aqui são relevantes: 1) o stock de capital existente; 2) o crescimento de mão-de-obra (que é uma função de população em idade de trabalhar); 3) a produtividade.
Agora é claro que como a população em idade activa vira para valores negativos (o que basicamente aconteceu em Espanha por volta de 2012) a dinâmica também se torna negativa para o potencial de crescimento económico, e a única verdadeira esperança de sustentar a longo prazo o crescimento é através do crescimento da produtividade (via factor total). Mas isto é o argumento – a “oh bem, iremos aumentar a produtividade” – e não é assim tão fácil como pode parecer. O gráfico a seguir que foi produzido pela Fulcrum research baseado no Conference Board e no FMI mostra claramente como a tendência para um menor crescimento da produtividade nas economias desenvolvidas é agora permanente ao longo de décadas. Simplesmente não é crível imaginar que esta tendência possa ser mudada com um estalar de dedos.
Portanto, uma das consequências óbvias desta perda de população é uma queda permanente a longo prazo da tendência a taxa de crescimento. Esta situação está actualmente dissimulada como a taxa de desemprego é muito elevada o que, no curto prazo, pode levar a que seja possível estar acima da tendência de crescimento, mas esta situação favorável, não vai durar para sempre.
Questões de habitação
A área mais óbvia da economia a ser afectada pelo declínio da população é o sector da habitação. A Espanha tem um stock muito grande de casas vazias (bem mais de 1 milhão, possivelmente até dois, entre habitações novas e de segunda mão), e a taxa de vendas de casas, embora tenha subido é ainda muito baixa.
Durante os anos de boom, o facto de uma grande parte do “boom” ter sido na formação dos agregados familiares de um grupo e depois que um grande número de imigrantes tenha chegado para estabelecer aqui a sua vida foi um factor chave que alimentou o boom.
Durante 2007, 474.000 novos lares foram criados. Em 2014, a equivalente figura foi de 117.000. Dada essa nova dinâmica é muito difícil ver como é que o stock de casas por vender poderiam ser vendidas, como é que os preços poderiam recuperar e como é que a construção de novas habitações poderia descolar novamente.
E então, o que acontece com as pensões?
O sistema de pensões da Espanha está falido. Antes da crise, ele estava a ter excedentes constantes, mas agora a tendência inverteu-se e está em défice constante, e as deficiências em conjunto são tais que se estendem até se perderem de vista. O detalhe curioso sobre esta situação é que mesmo quando a crise se aprofunda o governo continua a aumentar o valor real das pensões a serem pagas.
Por outro lado, o consumo das famílias está a aumentar: houve um crescimento anual de 3,9% nos últimos três meses de 2014, um fenómeno que está a levar muita gente a falar de “boa deflação” em Espanha. Mas o que os defensores deste argumento tendem a esquecer é que alguém está a pagar por esta alegria da “dinamização da deflação”. No caso dos trabalhadores assalariados, o custo é assumido pelos seus empregadores, mas no caso dos pensionistas, [ o custo] da “fiesta” está a ser colocado directamente na conta das gerações futuras de pensionistas, como os mini booms da Espanha se tornam cada vez impulsionados pelo consumo .
Transferindo o fardo para o fundo de reserva
O facto de que o sistema de pensões da Espanha irá ter problemas, mantendo o nível de pagamentos desde há muito que é sabido. Na verdade, nos últimos anos houve duas reformas que tentaram enfrentar diferentes aspectos do problema. Mas realmente foi a enorme perda de empregos durante a crise que realmente colocou em relevo a enorme dimensão do problema e a natureza crónica de subfinanciamento a que o sistema está a ser submetido. Inicialmente o governo socialista de então colmatou a lacuna crescente de financiamento através das finanças públicas mas, como os mercados financeiros começaram a concentrar-se na dimensão do défice orçamental do país, esta prática tornou-se cada vez mais problemática.
Com a chegada do PP, houve uma mudança na estratégia e desde 2012 o défice de pensões foi financiado pela utilização sobre o fundo de reserva. Este foi criado em 2000 e estava destinado a garantir a sustentabilidade de longo prazo do sistema, especialmente devido à pressão demográfica criada no final dessa década. O fundo tinha vindo a acumular excedentes gerados nos anos 2000 – 2007.
A mudança no financiamento tem ajudado nos problemas em torno do défice orçamental mas a baixa do fundo de reserva que foi o resultado consequente está a começar a deixar um número crescente de espanhóis cada vez mais nervosos.







