A SOLUÇÃO PARA A GRÉCIA: UMA PRIVATIZAÇÃO XXL – por JACQUES DELPLA

Falareconomia1

 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A solução para a Grécia: uma privatização XXL

JACQUES DELPLA / PROFESSEUR ASSOCIÉ À L’ECOLE D’ÉCONOMIE DE TOULOUSE | La solution pour la Grèce ? Une privatisation XXL

Les Echos.fr, 25 de Fevereiro de 2015

porto do Pireu
Legenda : O primeiro-ministro grego anulou a privatização  do porto do Pireu, o maior dos portos gregos, situado junto de Atenas. – ANGELOS TZORTZINIS/ AFP

É possível privatizar de imediato  75 % do PIB Grego. O que  permitiria reduzir de  175% para 100 % do PIB a dívida do país.

As privatizações na Grécia são caóticas. Em 2012, o Parlamento do país tinha votado a privatização de uma longa lista de activos públicos (empresas de electricidade, de água, de gás, de portos, de sociedades de serviços, edifícios, terrenos…). O governo esperava então obter  25   % do PIB daqui até 2020. Foi um falhanço esta privatização: de 2012 a 2014, as privatizações resultaram em receitas que valem apenas 1,5   % do PIB. O FMI, em 2014, não esperava mais do  que 7,5   % do PIB sobre o período 2015-2020

Lembremos-nos de  que o valor de uma acção (e de uma empresa privatizada) é igual à soma dos seus rendimentos futuros, expressos em termos de euros, hoje.  Estes rendimentos são o montante dos dividendos futuros (Dn), cada um destes fluxos dividido pela taxa de actualização  ((1 + i) levando à potência n- e aqui n representa  o números de anos entre o momento actual e cada um dos momentos  em que o respectivo  fluxo é  recebido) (e onde i representa a taxa de actualização próxima da taxa de juro). Mais quanto maiores os dividendos futuros forem , quanto maior será o valor das empresas privatizáveis. Quanto mais baixa  for a  taxa de actualização maior será o valor da empresa privatizável  (porque cada um dos fluxos de  dividendos futuros será  dividido por um número menor). Este é o ponto chave aqui.

O malogro das privatizações gregas era previsível. Quando um investidor quer comprar uma sociedade privatizável  utiliza como taxas de actualização  : a taxa de juro  sobre a dívida pública do país (reflexo do risco geral do  país, 10   % na  Grécia), mais um prémio de risco específico às acções (3   % em geral) e um prémio de risco específico ao sector de actividade (que estimo em  2   % para a Grécia). Na Grécia, a taxa de actualização de mercado é por conseguinte de 15   % (= 10   % +   3   % +   2   %). Com esta taxa de actualização de  15   %, qualquer valorização dos activos gregos a serem privatizados  podia apenas dar somas miseráveis –  e foi este  o caso.

Mas para os Estados Europeus no que diz respeito à Grécia, a taxa de actualização é muito mais fraca e é até mesmo negativa! Hoje, os Estados europeus aplicam aos seus créditos sobre a Grécia taxas de juro  de 0   % durante vários anos, seguidamente de 0,5   % a  1,5   % por ano. Além disso, os Estados europeus encaram reduzir o peso real desta dívida grega, por adiamentos no tempo dos prazos de liquidação. Em termos financeiros, isto  é equivalente a aplicar uma taxa de juro negativa sobre a dívida grega, o  que implica que, para a Grécia, a taxa de actualização dos países europeus é negativa  ! Quanto  ? Supondo que os países europeus estão prontos para reduzir os seus créditos em  metade num  horizonte de trinta anos, a taxa de actualização seria –   2,5   % por ano. Com esta taxa de actualização –   2,5   %, o valor (sobre trinta anos) dos activos privatizáveis  gregos é então multiplicado por 7, comparado à valorização que é dada pelo mercado ; isto altera tudo!

Se acrescentarmos que os Estados europeus tudo farão para manter a Grécia à tona de água e fazê-la sair  da sua situação trágica, podemos estimar que os dividendos futuros das empresas gregas será significativamente maiores do que o estimado agora (em plena recessão). Com estes dois efeitos, o valor para os credores europeus de activos privatizáveis gregos  é aproximadamente 10 vezes maior que a valorização  de mercado, e esta é de 75% do PIB grego (150 mil milhões de euros).

A minha sugestão é por conseguinte que os Estados da União europeia troquem,  em 2015, 150 mil milhões de euros dos seus créditos (sobre um total de 195 mil milhões) contra a cessão imediata do conjunto dos activos privatizáveis  (votados em 2012), o que baixaria imediatamente a dívida grega de 175   % para  100   % do PIB, um nível enfim  sustentável! A gestão destas privatizações seria  confiada ao Banco Europeu de Investimento. Para além dos aspectos financeiros, este “ debt equity swap” XXL seria do  interesse dos europeus, porque as privatizações provocarão uma melhor produtividade destas empresas, que se iria propagar  ao resto da economia grega. Certamente, o governo grego actual vai hesitar, porque gostaria de uma simples redução da sua dívida sem nenhuma privatização (o que daria muito  prazer à sua base eleitoral), mas, à este preço (150 mil milhões de euros), deveria aceitar para se libertar  do que ele próprio chama  “  a escravidão pela dívida  ”. Liquidar  por último (a um muito  um bom preço para todos) o passado da Grécia, para enfim preparar a sua prosperidade futura.

Ver mais em: 

http://www.lesechos.fr/idees-debats/editos-analyses/0204184263813-la-solution-pour-la-grece-une-privatisation-xxl-1096674.php?J6ACcjGyX9V288B3.99cjGyX9V288B3.99

e em:

http://www.lesechos.fr/25/02/2015/lesechos.fr/0204184263813_la-solution-pour-la-grece—une-privatisation-xxl.htm

Ver nomeadamente a análise de Jean Claude Werrebrouck sobre este texto de Jacques Delpla, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:

0 CORTAR DA GRÉCIA AOS BOCADOS COMO SE FEZ, OUTRORA, COM A POLÓNIA? – por JEAN CLAUDE WERREBROUCK

 

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