Floriu em Abril e parecia um andor. Antes de aparecerem as folhas, cachos de flores brancas miudinhas enfeitaram todos os galhos e ramos.
Com a brisa do começo de Primavera foram caindo pétala a pétala, deixando um fruto verde pequenino e redondo na haste. Foi bravia muitos anos e nunca deu fruto. Perdoou-se por ser novinha. Se assim não fosse, já teria dado lenha para o lume.
Para não ficar atrás do futuro, sofreu vários enxertos, neste caso, de garfo. Noutras árvores foram feitos de encosto, alporque ou borbulha. Na cerejeira resultam melhor os de garfo, como diziam os mestres da minha infância. Mais doces ou mais ácidas, assim se pintavam os ramos e galhos com cerejas pretas, brancas, rijais e bicais.
As poucas cerejas que vieram à luz do dia têm sido dessas qualidades e os melros e outros pássaros cedo se encarregam da colheita. Este ano foi farta a nascença e há dias as mais temporãs espreitavam vermelhinhas na copa da árvore. Daqui a uma semana já se poderão apanhar. O problema é que os donos da natureza se anteciparam aos donos da cerejeira e da noite para o dia riparam tudo quanto luzia ao vermelho. Ficaram as mais serôdias, as rijais e as bicais que já pintavam.
Descobri ainda uns melros lá no cimo a depenicar uma ou outra esquecida, e por mais que os enxotasse não arredaram dali asa até limpar por completo o vermelho carmim, a luzir por entre as folhas verdes. Quase a jeito de gozo, deixaram ao dependuro os pezitos das cerejas agarrados às hastes, ou algum caroço que não se soltou na voragem da rapina.
Pensei voltar no outro fim-de-semana, pois me pareceu que ainda haveria tempo para o amadurecimento do resto. Contudo, prudentemente pendurei um pequeno espantalho num dos ramos. Ainda deu trabalho a fazer. Com uma faixa de colmo fiz um boneco de braços abertos, um chapéu de palha na cabeça, um farrapo a servir de cachecol e uns óculos de plástico colorido. De cada lado dos braços uma folheta ao dependuro que tilintava com o toque da brisa mais leve.
Para meu espanto, na semana seguinte, quando lá cheguei tinha andado tudo. Razia total, o que me levou ao filosófico pensamento de que é muito mais eficaz ter asas e bico do que ter cabeça, pés e mãos.
Fiquei muda e queda a olhar o vazio da cerejeira. Restava apenas a rara folhagem já a querer amarelar.
Alguns melros pretos, gordos e luzidios, cantavam por ali à desgarrada.
Senti-me profundamente gozada e pensei…
Quem sabe se dali não voaram algumas notas soltas ao som da Primavera…