ATÉ DIA 27 DE JUNHO AINDA PODE VER DUAS EXPOSIÇÕES NA BIBLIOTECA NACIONAL SOBRE “ORPHEU”.

“Os caminhos de Orpheu”
EXPOSIÇÃO |  Sala de Exposições – Piso 2 | Entrada livre / até 27 jun. ’15

«A Caminho do Manicómio»: assim se intitulava uma notícia do jornal O Intransigente, saída aquando do primeiro número da revista Orpheu, em finais de março de 1915. Para a maioria dos críticos, a poesia e a prosa contidas nesta revista de vanguarda eram exemplos de decadência literária, sem sentido nem futuro possível. Contrariando as expetativas, a Orpheu fez e ainda faz história.

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Com apenas dois números dados à estampa nos primeiros trimestres de 1915, Orpheu revolucionou a literatura nacional e foi o gérmen do movimento modernista em Portugal. Juntou nomes das letras e das artes como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada-Negreiros ou Santa-Rita Pintor que ficaram conhecidos como a geração de Orpheu, e inspirou os movimentos literários de renovação da literatura portuguesa que se lhe seguiram.

A relativa exiguidade do espaço cultural português e o seu maior conservadorismo foram decisivos para que Orpheu causasse uma perturbação semelhante a um terramoto que sacudiu a mentalidade, levando à queda de valores estéticos consagrados, em grande parte devido à potência e originalidade da dupla força impulsionadora deste movimento: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.

Com a eclosão da Grande Guerra, vários escritores e artistas residentes em Paris — Mário de Sá-Carneiro, José Pacheco e Santa Rita Pintor — regressaram a Lisboa, trazendo da capital francesa um conhecimento direto das mais recentes correntes artísticas. No início de 1915, Luís de Montalvor, depois de passar dois anos no Rio de Janeiro onde participou intensamente na sua vida literária, voltou a Lisboa com um projeto de revista a que queria chamar Orpheu. Pessoa e Sá-Carneiro, que planeavam já há um ano publicar uma revista intitulada Lusitânia ou Europa, decidiram unir esforços com ele: a revista seria ainda mais internacional, mais cosmopolita e vanguardista, pelo menos na aparência, e abria-lhe novos horizontes ter um codiretor brasileiro – Ronald de Carvalho, poeta e amigo íntimo de Montalvor, o codiretor português do primeiro número.

Após a morte de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa  e José Pacheco conseguem imprimir provas parciais para um terceiro número de Orpheu que nunca será completado, mas não morre o sonho de dar continuidade à revista, eventualmente em outros moldes.

Em 1935, Almada Negreiros dedicou grande parte do terceiro número dos seus cadernos Sudoeste à memória da antiga revista, reunindo colaborações de quase todos os órficos, precedidas pelo conhecido texto de Pessoa que termina com a frase:  «Orpheu acabou. Orpheu continua».

Para celebrar o seu centenário, esta exposição, comissariada por Richard Zenith,  pretende iluminar os caminhos que deram origem à revista, outros caminhos que a cruzaram ou acompanharam, alguns caminhos de continuidade frustrada e os caminhos astrais trilhados no zodíaco.

Apresentam-se originais de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e outros colaboradores, cartas, publicações da época e obras de artes plásticas de Almada-Negreiros, Santa-Rita Pintor e Amadeo de Souza Cardoso. Destacam-se alguns factos pouco conhecidos e estabelecem-se elos que ajudam a compreender o que foi e o que é a Orpheu.

“Orpheu acabou. Orpheu continua»

MOSTRA | até 27 Junho | Mezzanine | Entrada livre

Em 1915, escândalo imprevisto, veio a público nas páginas da revista Orpheu boa parte de uma nova geração de escritores e artistas que, rompendo com a cultura instalada, academizada ou de expressões serôdias, instauraram uma revolução modernista. Em 1927, segundo a conhecida, mesmo discutível, leitura de Eduardo Lourenço, a revista Presença terá instaurado a «contrarrevolução do modernismo», demarcando a estética de vanguarda da década precedente em relação ao modernismo finalmente proclamado.

No longo período romântico anterior, os movimentos estéticos estiveram ligados a publicações periódicas, mas nunca até então um movimento havia propriamente despontado através de uma revista, como aliás viria a ser uma constante no século XX – nem valerá dar exemplos, tão consabida é a evidência. Depois «daqueles tempos antigos do Orpheu», o modernismo prosseguiu ainda em estado de manifesto durante uma década, através de sequelas mais ou menos efémeras que prolongaram essa geração de vanguarda, desde Contemporânea (com uma primeira tentativa nesse mesmo ano de 1915 e retomada em 1922) à revista SW (sequela já longínqua, de 1935), passando por outras publicações como Exílio e Centauro (1916), Portugal Futurista (1917) e Athena (1924-1925).

Tomando a Contemporânea por fio condutor, a exposição, organizada por Carla Datia e Luís Augusto Costa Dias, procura, por outro lado, integrar estas revistas no seu tempo, relevando, para lá da criação individual própria de cada escritor e artista, o papel do modernismo como experiência estética de modernidade, dos novos ritmos, da velocidade, do som, da imagem que o artista excecional (e na sua excecionalidade) absorveu e vivenciou no cenário urbano, como futuro feito hoje. Mas não deixa, por outro lado ainda, de evidenciar-se, no curso de Contemporânea, para lá do que «sub-repticiamente» prolongava «os nossos tempos de Orpheu», «o resto» que Álvaro de Campos não deixou de referir em carta ao diretor da revista. Foi, afinal, um caudal de colaboradores que seguiram moda ou simplesmente se acoplaram, elementos de tendências várias, mesmo desencontradas de uma vanguarda modernista propriamente dita, que atravessaram os anos vinte, um tempo de placas giratórias no pensamento e na arte.

Tem, por estes motivos, toda a pertinência relacionar a revista Orpheu, não obstante efémera a publicação de dois números e deixando um terceiro em preparação, com as congéneres que registaram as continuidades e descontinuidades de um movimento, quadraram o seu tempo histórico e reafirmaram a vitalidade dos seus escritores e artistas, confirmados como precursores na revista Presença a partir de 1927.

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