EDITORIAL – A MAGNÍFICA AVENTURA

Imagem2O cinema foi uma verdadeira universidade dos pobres durante uma boa parte do século XX. A cultura que se adquiria, para além dos estudos regulares que, para uma grande parte da população portuguesa eram os quatro anos do ensino primário, era colhida nas salas de cinema. Alguns dos grandes clássicos da literatura universal ou dos acontecimentos históricos mais relevantes (na perspectiva hollywoodesca),   eram assimilados nas versões cinematográficas.

No pós-guerra e pelos anos 50 adiante, era possível por 2$50 ou 3$00 assistir a dois filmes no sistema de sessões contínuas. Era nos chamados cinemas de «piolho». Não havia lugares reservados, mas um lenço atado nas costas da cadeira era um sinal inviolável de que o «dono» tinha ido ao bar ou aos mictórios. Por um pouco mais, na ordem dos 5$00, tinha-se entrada nos chamados cinemas de “reprise”, dois filmes, em geral com três sessões de horários definidos – primeira e segunda matinée e uma soirée. Por 7$50, acedia-se ao terceiro balcão dos cinemas de estreia. O mesmo valor dava acesso às chamadas «sessões clássicas» semanais organizadas em geral por cineclubes – gratuitas para os sócios e, em geral, com filmes comentados por alguém particularmente capacitado. Era vulgar ouvir jovens discutir pormenores da História dos Estados Unidos – algumas batalhas da Guerra Civil americana eram conhecidas em pormenor. Em geral, os do Norte eram os bons e os do Sul, aristocratas vaidosos, esclavagistas, racistas… A colonização, a conquista do Oeste, os pérfidos peles-vermelhas assassinando os bondosos colonos, eram conhecimentos que qualquer jovem português tinha na sua bagagem cultural – a perspectiva ianque era tida como boa.

 Hoje passam 93 anos sobre a a chegada ao Rio de Janeiro de Gago Coutinho e Sacadura Cabral que nesse dia 15 de Junho de 1922 completaram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, utilizando um hidrovião, o Santa Cruz, com estrutura de madeira revestida a tela. Em 1927, Charles Lindberg atravessaria o Atlântico Norte. Entre outras melhorias que os cinco anos de diferença permitiram, Lindberg utilizou um sistema inventado por Gago Coutinho – um horizonte artificial adaptado a um sextante que permitia medir a altura dos astros, invenção que revolucionou a navegação aérea. Nós sabemos como foi a travessia aérea de Lindberg; conhecemo-la melhor do que a dos dois portugueses. Foi mais importante o feito do pioneiro americano? Não. Entre outros factores, há um determinante – houve um filme – A Águia Solitária, realizado por B. Wilder em 1957, com James Stewart no papel de Charles Lindberg. Há poucas coisas em que sejamos mais ricos do que os norte-americanos – a História é uma delas.

1922 foi o ano em que se celebrou o primeiro centenário da independência do Brasil e a travessia aérea realizada por Gago Coutinho e por Sacadura Cabral bem merecia um bom filme. Norberto Lopes, que viria a serum grande jornalista português, fez a cobertura da viagem. Mais tarde juntou os artigos num pequeno volume a que chamou A Magnífica Aventura. Título excelente para o tal filme que não existiu. Quem vivesse em Lisboa nos anos 40, 50 e passeasse pela Baixa manhã cedo, teria muitas possibilidades de se cruzar com um velhote franzino, magro, com uma boina basca. – Bom dia, senhor almirante! E Gago Coutinho, pois era ele, correspondia sempre às amistosas saudações, levando dois dedos à boina.

 Cientistas, professores como Gago Coutinho, Bento de Jesus Caraça, Germano Sacarrão, actores como António Silva, pagaram o preço de nascer num país pobre e que não sabe ou não pode aproveitar aquilo em que é rico.

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