CARTA DO RIO – 55 por Rachel Gutiérrez

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A escritora e ex- presidente da Academia Brasileira de Letras Ana Maria Machado, em artigo publicado em 13 de junho pelo jornal O Globo, lamentou o fim de livrarias e museus, o fechamento de uma escola de teatro, o encerramento de um centro educacional infantil, e o anúncio da interrupção, por falta de verbas, das Jornadas de Literatura, tradição de 34 anos da cidade gaúcha de Passo Fundo. “O que espanta é a inversão de prioridades. Continua a haver dinheiro para despesas de custeio, milhares de cargos comissionados, 39 ministérios. (…) Mas se evita encarar a urgência das necessidades da educação e das humanidades, das alternativas de lazer e sonho para os jovens, por meio de reais oportunidades para que suas vidas façam sentido e que convivam com a arte, a cultura, o esporte.”

Em outro artigo do mesmo dia, o Senador Cristovam Buarque, nosso incansável defensor da educação, diz que para construir de fato a “Pátria Educadora” (slogan criado pelos marqueteiros da Presidente da República), “a condição fundamental, óbvia, é ter todas as suas crianças em escolas com a máxima qualidade.” Ora, sabemos que 3,6 milhões de crianças e adolescentes, dos quais cerca de 580 mil só de São Paulo, nosso estado mais rico, estão fora da escola; que no Rio de Janeiro, que já foi a capital cultural do país, a qualidade da educação nas escolas públicas se assemelha à dos estados mais pobres do Nordeste; que o Brasil é o oitavo país com mais adultos analfabetos do mundo; e que uma pesquisa nacional de 2012 revelou o aumento de analfabetos funcionais, isto é, dos que são capazes de ler palavras, mas não conseguem interpretar um texto simples. O quadro é desalentador. E melhorá-lo “não será possível”, como diz o Senador Buarque, “cortando recursos do Ministério da Educação nem prometendo os simbólicos 10% do PIB ou os royalties de um pretenso pré-sal de tamanho insuficiente para as necessidades da educação brasileira.”

A situação é igualmente desesperadora na área da Cultura. Ana Maria Machado diz que estamos com “uma série de projetos frustrados, filmagens canceladas, montagens teatrais e exposições suspensas, shows musicais e feiras de livro abortados, museus e livrarias que se fecham.”

Apesar de tudo isso, ou por causa disso, eis que recebo mais uma visita de minha amiguinha Esperança, aquela que salta do poema de Péguy e sempre aparece quando estou triste. Veio para me contar que a grande Clarice Lispector vai ser homenageada com uma estátua no nosso bairro, o Leme. Mostrou-me até a foto da maquete que os jornais publicaram: Clarice sentada num banco da praia, tendo ao lado seu cão Ulisses, o querido companheiro.

É mesmo o país dos contrastes! – digo para  Esperança, pois me parece irônico que numa cidade onde há tão poucos leitores, onde os tablets tomaram o lugar dos livros, dos jornais ou das revistas, o número de estátuas em homenagem a escritores e artistas venha aumentando a cada dia, aparentemente só para que turistas ou visitantes de outros estados façam selfies e fotos ao lado deles.  E já fico preocupada com a integridade da futura estátua do cão Ulisses da Lispector, conhecendo o vandalismo dos que destruíram tantas vezes os óculos de Carlos Drummond de Andrade, cuja estátua encarna o poeta sentado num banco do calçadão do posto 6, em Copacabana perto de onde ele morava, e onde se lê o verso que ressoa: No mar estava escrita uma cidade.

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Mas não há ninguém mais persistente do que a menina Esperança, que logo argumenta: – Podemos sugerir ao Ministério da Educação, ou Secretaria, ou o que quer que seja, que contratem atores, atrizes, ou simples leitores para atrair os passantes com happenings diante dessas estátuas. Um aparelho de som não é caro, você mesma conhece um grupo de poetas que têm o hábito de recitar poemas num quiosque da praia do Leme nas noites das quartas-feiras, não é verdade? E a exuberância da menina me contagia. Sim! Podemos projetar pequenos espetáculos de leitura ou apresentação de textos, por exemplo, das histórias que Clarice escreveu para crianças, para começar.

– E traríamos crianças das escolas e das favelas para ouvi-las! precipita-se Esperança sonhando alto.

– Depois, pouco a pouco, um ator lê um conto e outro o comenta ou provoca comentários da plateia improvisada, acrescento no mesmo tom.

Minha pequena amiga me fez lembrar os espetáculos que a TV italiana Rai transmite de vez em quando e que faço questão de assistir. Em Florença, numa praça imensa, o diretor de teatro, cinema e ator excepcional que é Roberto Benigni lê e explica os Cantos da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Pouco a pouco, situa historicamente os personagens e os acontecimentos evocados, analisa a forma de cada trecho, esmiúça o significado de cada verso, compara os tempos de Dante com o nosso e depois, faz uma pequena pausa, fecha o livro e recita um Canto ou capítulo inteiro. No final o público, tão numeroso ou maior do que o de um espetáculo de Rock in Rio, que ouviu tudo no mais respeitoso e absoluto silêncio, explode em intermináveis aplausos. É quase inacreditável: isso é transmitido por num canal público de televisão! O espetáculo se chama Tutto Dante. Benigni pretende dar ao seu público toda a obra do maior gênio da Itália.

Séculos de cultura nos separam, mas temos, guardadas todas as diferenças, em Minas Gerais, na pequena Cordisburgo de Guimarães Rosa, grupos de contadores de histórias do escritor brasileiro. São os Miguilins, jovens que assim se nomeiam a partir de um personagem do livro Manuelzão e Miguilim. E eu já tive a experiência emocionante de ouvir uma adolescente que disse de cor, num Congresso de que participei há muitos anos sobre a obra de Rosa, em Belo Horizonte, A menina de lá, talvez o mais comovente conto das Primeiras Estórias do mineiro genial. “Criado em 1995, o grupo que narra apenas histórias de Rosa, vem transformando a perspectiva de jovens – principalmente de classe baixa – de Cordisburgo, cidade natal do escritor mineiro. O projeto demanda de seus participantes que tenham bom desempenho na escola, da qual a maioria sai para trilhar outros estudos.” É o que diz um site na internet.

 – Viu? quase grita Esperança: podemos sugerir grupos parecidos com o dos miguilins à prefeitura do Rio de Janeiro. Assim as estátuas vão ter uma finalidade educadora!

– Precisamos convencer muita gente, respondo ainda influenciada pelo entusiasmo da menina. Como diz o Senador Buarque, “o Brasil precisa implantar um novo sistema educacional” e, quem sabe, ideias diferentes de sonhadoras como a minha pequena amiga possam contribuir minimamente para alimentar o sonho maior do senador com a “união de todos os brasileiros assumindo a responsabilidade pela educação de todas as crianças do Brasil.”

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