A GALIZA COMO TAREFA – medo – Ernesto V. Souza

stultiferaProvavelmente a ortografia, como manifestação diária e provatória do feito escrito, seja o elemento mais conservador de uma língua culta. E, entre os elementos a debate na permanente construção de uma cultura, o ortográfico é talvez o espaço mais virulento, onde o choque entre reacionários e revolucionários é mais apaixonado e evidente.

É nestes debates, comuns a todas as línguas escritas e também às outras artes nas mudanças de paradigmas ou períodos, onde mais se refletem, os medos e terrores psicossociais às mudanças. Todas as línguas passam por momentos de mudança, por reconstruções maiores ou menores destinadas a simplificar, corrigir, ou adaptar a ferramenta escrita a novos tempos, momentos, situações, ferramentas.

As sociedades evoluem e com elas as suas necessidades. A língua espelha a sociedade e o debate ortográfico espelha a tomada de posições na elite. Posições que normalmente têm menos a ver com planificação linguística, alfabetização ou história das línguas que com projeções, conceitualizações, identidades e programas sociais, nacionais, económicos e políticos.

As línguas inexistem como objetos, e menos são realidades fixadas e sólidas que devam ser conservadas e adoradas na sua eternidade e alegoria de pátria. São apenas ferramentas auxiliares das sociedades, dos coletivos políticos que se convocam nelas, ou simplesmente meras ideias de ferramentas que se podem modificar e adaptar conforme mudam os tempos.

Rodrigues Lapa na sua brilhante estilística falava daqueles ditames de uma tradição empedernida, contra os que a liberdade criadora em experimentação constante e procura de caminhos se levantava.

Os puristas têm a ruim tendência para considerarem uma só forma correcta. Se nos convencermos do contrário, é meio caminho andado para chegarmos a escrever bem. […] E tiremos de tudo isto esta conclusão segura: a Estilística, preconizando a liberdade criadora, está muitas vezes em conflito com as regras da Gramática, que se apoia nos ditames duma tradição empedernida. M. Rodrigues Lapa : Estilística da Língua Portuguesa, Coimbra Ltd. (11ª ed.), 1984, p. 173.

Na Galiza o debate sobre a ortografia da língua é intenso desde o século XIX, é um tópico forte em ambos os processos concorrentes e paralelos: destruição da língua galega e construção de um padrão culto, porém sabemos que não conduziu a nada, apenas a desencontros entre pessoas e grupos e a deixar testemunho das paixões políticas dos bandos concorrentes.

Nas últimas décadas na Galiza do bule-bule em protesto da sociedade civil, está a emergir, em paralelo à construção de novos modelos de representação política, organização social e económica, educacional, de género, de entender a produção, a ecologia, a vida mesma, novas perspectivas e chamados para entender a língua galega.

Todas estas questões batem hoje às portas da tradição, e se a sociedade demanda caminhos, melhor vida para a gente e liberdade, a resposta permanente é o refúgio e o medo às mudanças. A gramática, a ortografia parecem na solaridade intensa de um solstício que marca mais uma vez a alvorada, brincadeira.

A propósito de gramática, quero contar-vos uma bonita história: a história é verídica e, se eu estiver mentindo, quero ter todos os gramáticos contra mim (vede só que terrível declaração!). Conheço um homem de sessenta anos que conhece perfeitamente o grego, o latim, as matemáticas, a filosofia, a medicina. Pois seríeis capazes de advinhar com que se preocupa esse sábio universal, há uns vinte anos? Tendo abandonado todos os estudos, dedica-se exclusivamente à gramática, pondo o cérebro num tormento contínuo. Só ama a vida para ter tempo de dirimir algumas dificuldades dessa importante arte, e morreria satisfeito se descobrisse um método seguro de distinguir bem as oito partes do discurso, coisa que, a seu ver, não conseguiram com perfeição nem os gregos nem os latinos. Bem vedes que é uma questão de suma importância para o gênero humano. Com efeito, não é mesmo uma miséria estar sempre correndo o risco de tomar uma conjunção por advérbio? Um tal equívoco mereceria uma guerra cruenta.

Quero, agora, observar-vos que há mais gramáticas do que gramáticos: só Aldo, um dos meus favoritos nesse gênero, publicou cinco. Pois bem: o meu cabeçudo estuda-as todas, mesmo quando escritas num estilo bárbaro e insuportável; analisa-as todas, da primeira até à última, causando profunda inveja aos que escrevem tão mal sobre o assunto e torturado sempre pela dúvida de que possam roubar-lhe a glória e o fruto de suas longas fadigas. Que vos parece esse ridículo sábio? Devemos chamá-lo de louco ou delirante? Chamai-o do que quiserdes, desde que concordeis que é graças a mim que esse animal sobrecarregado de misérias anda sempre tão satisfeito, tão orgulhoso de si mesmo e da sua sorte, a qual ele não trocaria pela dos mais ricos e poderosos reis da terra.

Erasmo, Elogio da loucura, “Formas mais elevadas da… : Gramáticos”

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