UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (93)

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NEVOGILDE, A FREGUESIA ESQUECIDA

Há zonas da cidade que pertencem a uma freguesia mas que na verdade deveriam pertencer a outra.
Não se compreende que a freguesia de Lordelo do Ouro se estenda para lá da Avenida do Marechal Gomes da Costa ou que o Bairro de Gomes da Costa não pertença à Freguesia da Foz do Douro, e não se entende que a Freguesia de Aldoar atravesse a Avenida da Boavista. Na realidade, os fregueses dos respectivos lugares, não se sentem como fazendo parte das Freguesias a que pertencem.
E muitos outros casos haverá por esse Porto fora.
O caso da Freguesia de Nevogilde é diferente. A não ser oficialmente e para alguns dos seus habitantes, em especial os moradores das ruas mais do interior, a Freguesia não existe, não se fala do seu nome, sendo que, no entanto, se fala continuadamente dela.
Quem visita a zona Ocidental da cidade, quem a frequenta ou nela faz vida, vive na Foz, independentemente de estar na realidade na ponta ocidental de Lordelo do Ouro, na ponta sul de Aldoar, ou em qualquer ponto de Nevogilde. E, se Lordelo do Ouro tem outros lugares que lhe são peculiares e se Aldoar tem vida própria, já Nevogilde se confunde por inteiro com a Foz do Douro.
Para quase toda a gente, a marginal da Foz do Douro começa logo a seguir a Massarelos e só acaba na rotunda da Anémona, na entrada de Matosinhos. Pelo meio, desapareceu a parte fluvial de Massarelos e de Lordelo do Ouro, e tudo o que diz respeito a Nevogilde. Para quase toda a gente, todo o Porto Ocidental, fluvial e marítimo, é Foz. E não é verdade!
Que tem Nevogilde, então, de especial?

Molhe de Carreiros
Molhe de Carreiros
Molhe de Carreiros
Molhe de Carreiros
Mar do Porto
Mar do Porto
Pérgola
Pérgola
Praia de Gondarém
Praia de Gondarém

Tem metade da Avenida do Brasil, tem a Pérgola (uma das muitas maravilhas da cidade), tem o molhe de Carreiros, tem a Avenida Montevideu, tem a Capela de Nª. Senhora de Lurdes (fechada ao culto – Av. Montevideu), tem a Capela da Senhora da Luz (rua de Gondarém – rua do Crasto), tem a Estação de Zoologia Marítima Dr. Augusto Nobre (também conhecida como Aquário da Foz, foi criada em 1914 e encerrada ao público em 1965 devido a uma tempestade marítima), tem o Castelo de São Francisco Xavier (Castelo do Queijo), tem o Edifício Transparente, tem as melhores praias (Gondarém, Molhe, Homem do Leme, Edifício Transparente), tem a maior parte do Parque da Cidade e tem algumas das ruas mais lindas que o Porto tem (apesar da muita modernidade arquitectónica, de gosto duvidoso, que já por lá grassa), rua do Crasto, rua de Gondarém, rua do Molhe, rua de Sousa Rosa, e outras, muitas outras, que de igual modo nos convidam a por elas darmos passeios longos e aprazíveis, como se estivéssemos numa outra cidade, ainda mais bela que a nossa (como se isso fosse possível).

Parque da Cidade
Parque da Cidade
Av Montevideu
Av Montevideu
Av. Montevideu
Av. Montevideu

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Edifício Transparente
Edifício Transparente

Ah, e também tem a lindíssima Igreja de São Miguel de Nevogilde, uma das mais belas da cidade.

Capela de São Miguel de Nevogilde
Capela de São Miguel de Nevogilde

E no entanto, não se fala do nome desta Freguesia.
Nevogilde começa o seu desenvolvimento nos finais do século XIX. Pertencera ao concelho de Bouças e foi anexada pelo Porto em 21 de Novembro de 1895. Até essa altura nada mais havia do que meia dúzia de casas de lavoura a rodear a igreja paroquial, caminhos escuros e estreitos, e uma imensidão de terrenos, muitos deles abandonados, onde se cultivavam o milho, o feijão, o trigo e o centeio. Havia também uma ligeira comunidade piscatória, na estrada de Carreiros, junto ao molhe. Do Molhe até ao Castelo do Queijo, e depois ainda mais para Norte, tudo era ermo e solitário. A mais marítima das Freguesias Portuenses foi, em termos urbanísticos, durante muito tempo, nada! No entanto, a partir de 1882, com a chegada da máquina a vapor, que aumentou o seu percurso de transportes públicos de Cadouços até Matosinhos (até junto às margens do rio Leça), Nevogilde começara já a crescer.
O desenvolvimento das zonas balneares, bem assim como a urbanização do litoral marítimo do Porto, transformaram Nevogilde numa aprazível estância de veraneio. A média e a alta burguesia construíram por lá as suas casas de praia, e o Portuense, no dia consagrado à família, começou a habituar-se a vir na Máquina desde a Boavista, e a dar longos passeios à beira-mar. Em 1897 encontramos já o Eléctrico com linha continuada pela marginal, até ao Castelo do Queijo.
Nevogilde transforma-se e floresce através do mar e das praias e do quanto estes atraíram as pessoas; os transportes públicos fizeram a sua parte, transportando-as.
Hoje, Nevogilde, a Freguesia eternamente esquecida pela população da cidade do Porto, faz parte da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde.

Caberá a esta União, dar-lhe a importância que ela merece.

 

AS NOTÍCIAS OFICIAIS

 

O FOGO DE ARTIFÍCIO – SÃO JOÃO – PORTO

5 Comments

  1. Felicito-o, uma vez mais (e nunca serão demasiadas ) pela sua Carta do Porto, hoje dedicada a Nevogilde.
    A um muto interessante texto, adicionou uma belas imagens e seleccionou um Fogo de Artíficio muito melhor filmado do que aquele que vi na RTP 1 ! Um abraço e a minha admiração, José Magalhães.

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